O farmacêutico tem que viver, mas…

Hoje me passou pela cabeça que os machistas estão se enrustindo no Brasil. Não têm mais coragem para falar besteira em público, isso é só impressão, não é sociologia, e usam espaços privados para descontar. Isso com base em duas experiências. Uma, num cabeleireiro de São Paulo, onde por duas vezes, com profissionais distintos, tive que ouvir uns comentários não muito agradáveis sobre um certo grupo do qual faço parte… Por que machismo? Porque se tivessem me dito a mesma coisa na rua, eu com meus óculos e o interlocutor sem uma tesoura na mão, eu teria respondido à altura. E acho que os machistas hoje sabem disso.

Mas sem meus óculos, me olhando triste num espelho iluminado por uma luz fria, a gente fica um pouco sem ação. E diz: pois é. Até que o corte termine.

E hoje, fui fazer um exame num laboratório. Acho que a pressa de todos, as filas, tudo deixa os profissionais meios estressados. E então do nada o médico começou o sermão: “Mas não fez mamografia? Olha, não sei quem é seu médico, mas sou obrigado a dizer…” E começou sua ladainha inconsistente, arrematando: “E com essa idade!”. Ah, falasse isso em uma situação normal, ouviria. Mas eu estava deitada no escuro, pelada e lambuzada de gel. Não é onde estou mais eloquente, digamos. Em jejum. Tendo acordado de madrugada.

O jejum me atrapalhava as idéias. Passou pela minha cabeça que aquele sujeito não tinha o conhecimento de meu médico, e balbuciei algo sobre a confiança que eu depositava nele. Não bastou, o homem estava determinado a me perturbar. Perguntei para que servia o ultrassom então, ele se retraiu um pouco e explicou porcamente. Mas continuou. Não pensei, no momento, em mandar o homem consultar as últimas pesquisas que indicam a mamografia a partir de uma idade maior, pois, como disse, a fome e a situação me roubavam capacidade mental. Também não perguntei que pocilga lhe havia dado um diploma em medicina e outras coisas mais que só agora me vêm à cabeça.

Na minha confusão, na minha literal imobilidade, me saí com essa: “Sabe, minha mãe contava que um dia viu meu avô jogando fora uns remédios, e perguntou por que ele fazia aquilo. Ele disse: ‘O médico tem que viver, o farmacêutico tem que viver, mas eu também tenho que viver!'” Obrigada, vô Leo, por mais essa, que me salvou o dia.

Quanto ao médico, tenho poucas esperanças. A medicina brasileira está copiando a americana, baseada em remédios que fazem mal e exames que rendem uma boa grana. Ele é apenas mais um. Mas vai ter que dormir com as palavras do vô Leo, pois tenho certeza que uma boa história se fixa mais na mente dos homens do que mil argumentos.

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