Um ritual paulistano

Então ontem no meio do serviço, sinagoga cheia, judeus paulistanos silenciosamente, na última hora antes do Shofar, recomendando ao seu Deus que os inscrevam no Livro da Vida, soletrando sobrenomes complexos de modo claro e até um pouco impaciente, como se estivessem diante de um escrivão de cartório semi-analfabeto, e então ontem eis que o cantor anuncia as autoridades presentes e a lista de nomes parecia não terminar. Ao final perguntei à mulher do lado se estavam todos ali. “Sim, estão.” Doria também? “Sim, todos.”

E a reza continuou.

Lá bem longe, ao lado da Torá, uma fileira inteira de tucanos nos admirava. Pensavam, solenes: “Quantos votos! E todos nossos.” É um povo fiel, não há dúvida. Nos Estados Unidos, votam nos democratas. Entusiasmados alguns, de nariz tapado outros, mas votam nos democratas. Aqui, votam no MDB e em suas mutações. Queria eu saber se votavam no PSD de Juscelino, no passado, que seria o pai do atual PSDB. Houve um tempo, e foi quando eu comecei a entrar no mundo público, em que a Hebraica trazia todas as correntes políticas para dialogar publicamente; foram os anos 1980. Em todas as instituições paulistas era assim, havia esse pluralismo, e no meu clube portanto não foi distinto.

No debate de que participei naquela época, havia candidatos a deputado pelo PT, a Clara Ant; pelo MDB, o Walter Feldman; e pelos outros partidos de então, de que não me recordo mais. Sugeri à Magali resgatar essa memória dos debates. Hoje há pelo que compreendi conversas com as tais lideranças comunitárias ou talvez palestras com os jovens. E também a minoria socialista aguerrida aos seus dogmas. Mas naquela época a tônica era a do debate. O debate resolveria nossos problemas e, de fato, os resolveu. Dos anos 1970, ficou a tradição da visita de Yom Kipur, sempre às vésperas das eleições mas nesse caso, por coincidência, logo após.

As visitas que talvez começaram como mero pedido de votos, na época em que mães e filhas iam na sinagoga com roupas em cor cítrica copiadas de Dancin’ Days, ganharam outra dimensão; a de um acordo com esse povo cioso de seus acordos, de um símbolo de amizade e respeito mútuo. Houve um caso de vaias do público, mas acho que foi no Rio de Janeiro e o candidato abusou; no geral toleramos a presença deles e até gostamos. Discursos estão fora do cardápio, digamos, para usar a metáfora do dia. Vale apenas a menção aos nomes e a presença honrosa ao lado da Torah.

Ontem não se tratava apenas de agradecer os votos aos vereadores e ao prefeito eleito. Ontem era também uma demonstração de poder do grupo político que hoje domina o PSDB paulistano; os membros dos outros grupos, também respeitados pela comunidade, não foram. Estava lá o governador do Estado de São Paulo, dizendo em alto e bom silêncio, como em nossas preces: “Eu fiz o prefeito, o deputado federal aqui do meu lado, e mais um vereador da comunidade. Estou à disposição de vocês e vocês, espero, de mim.” Não era exatamente um acordo que repudiamos.

Sobre as escaramuças internas ao partido, não era mais hora de falar: as tais prévias onde o nome de Doria foi imposto, pelo que diz Goldman e outros tucanos. O fato é que o paulistano, em eleição livre e democrática, escolheu sem hesitar João Doria para prefeito de nossa cidade, ganhando em praticamente todas as zonas eleitorais (http://especiais.g1.globo.com/sao-paulo/eleicoes/2016/apuracao-zona-eleitoral-prefeito/sao-paulo/1-turno). E era esse prefeito eleito que agora participava pela primeira vez desse ritual paulistano peculiar, a visita de Yom Kipur.

Nós também silenciosamente lhe dávamos as boas vindas. Por que não? Que tínhamos de mau a dizer dele, nessas primeiros dias do ano, cujo início coincidiu com as eleições municipais? Nada. Ou muito pouco, especialmente comparando-se com os de sua classe, a tal classe política. Seria o caso de estudar o assunto, mas não me recordo em São Paulo de mau tratamento do poder estadual quanto à nossa comunidade. Mesmo durante a ditadura, quando o poder policial perseguia e matava tantos de nós, não era do Palácio dos Bandeirantes que vinham as ordens; ao contrário.

Havia coronéis tresloucados e políticos atiçadores, sim. Mas não me recordo de mais, e seria interessante pesquisar. Não tivemos, ao que eu saiba, ideólogos anti-semitas em nosso estado, como teve Pernambuco, exaltadores de uma nacionalidade que se faz à custa do outro. Ao contrário. Os da semana de 22 abraçam o estrangeiro, o outro, o inovador, a troca. E Sergio Buarque de Holanda, com sua descrição fina e irônica de nossos dramas, seu modo simmeliano de retratar o mundo e as pessoas, tem, se não na ancestralidade, ao menos na escrita, a compaixão reflexiva que marca a nossa tradição.

Por que isso, eu não sei. Talvez a elite paulistana reconheça suas raízes bandeirantes e portanto cristãs-novas. Talvez por puro pragmatismo, que a fez trazer para cá gentes de todos os cantos, até do Japão. Assunto para pesquisa. Para o dia de hoje, fica de lado a pesquisa e também ficam de lado todos os poréns que possamos ter a Alckmin e Doria, seus métodos e princípios. São, de um modo ou outro, prefeito e governador de nossa cidade e estado. Talvez não sejam os nossos métodos e princípios, mas vindo ontem à sinagoga declaram que não são opostos a eles, e aceitamos sua declaração como verdadeira.

É um ritual, e como tal cada qual interpretará de um modo. Eu vejo como a reafirmação de um laço muito particular, talvez ancestral, entre meu povo e essa terra.

Uma xícara de café

Na praia do Lázaro, provavelmente no Bar do Peres, me enchi de coragem e pedi um café depois do almoço. Meus pais deixaram. E diante da xícara de café preto eu sorri orgulhosa e me senti gente. Mas a euforia durou pouco. Aquele passaporte para o mundo adulto me botou a cabeça para funcionar e perguntei ao meu pai:

– E seu pai?

A mãe de meu pai nós visitávamos sempre. Eram visitas sem graça, em que passávamos boa parte do tempo sonolentos pedindo para voltar para casa. Entrávamos no carro e começávamos a brincar. Meu pai reclamava:

– Vocês ficaram reclamando que estavam com sono e agora essa bagunça.

Mas e seu pai?

– Meu pai morreu cedo.

Para as crianças, qualquer ano faz diferença. Cedo quanto?

– Quantos anos você tinha?

– Seis.

Fiquei em silêncio. Pensei em minha própria idade pequena e escondi aquele sentimento proibido que é ter pena dos pais. Olhei a xícara de café e com as palavras de criança devo ter associado tudo, pois me lembro agora de tudo junto: o mundo adulto onde eu entrava e as coisas que doíam de saber.

Não parecia ter deixado sequelas, aquela perda. Estava lá meu pai forte, nos levando para passear, ao lado de minha mãe. De que modo ele tinha se criado sem aquilo que até o momento eu julgava imprescindível?

Pensei, já adulta, que me pai inventou um pai com sua imaginação e com seus estudos, uma espécie de super homem que era um misto de seu avô Jacob Schnaider com Filippo Brunelleschi, metade rabínico e metade renascentista. Entretanto, fisicamente, meu pai era muito parecido mesmo com seu pai, com aquele seu rosto atraente de gângster de filme americano.

Agora, olhando para trás, vejo que não pode ter sido exatamente assim. Um pai não se descobre nos livros. Aprendemos a ser quem somos com aqueles à nossa volta e, para o bem e para o mal, não conseguimos facilmente nos libertar de seus modos de ser, de agir, de pensar. Seguimos todos, ainda que não no CRM, as profissões de nossos avós.

Devidamente enterrado no Cemitério da Vila Mariana, acudiram os filhos de meu avô os tios e tias dos pequenos, devolvendo algo que lhes havia sido roubado. Mas deram tanto e com tamanha generosidade, que acabaram superando em muito o que meu avô mesmo podia lhes oferecer como pai.

Meu pai adolescente acompanhava com os olhos as baratas que os alcoólatras viam subir pela parede, na sala de espera do consultório psiquiátrico do Tio Henrique. Talvez lá tenha desenvolvido seu desgosto com a bebida ou, mais profundamente, uma compreensão do que pode fazer um diploma para ajudar as pessoas, lição também dada pela Tia Raquel. Eu os conheci só de nome. Mas os homenageio aqui do fundo do coração.

Enfim. Os dois irmãos criados pelos tios amorosos cresceram corretos e, no caso de meu pai, genial. Talvez seja por isso, eu conto para a menininha que tomava café pela primeira vez em Ubatuba, que não havia nenhum trauma aparente, nenhuma sequela naquela ausência que pode até ter virado uma bênção.

Os batentes que nos chegam

Então recebi a notícia, dada assim casualmente, de um testamento deserdando a mim e a meu irmão de bens que haviam chegado à tia Guita quando do falecimento de seu irmão, o tio Gilberto, de cuja herança na época abrimos mão por sugestão de uma parente.

Meu irmão decidiu, racionalmente, ignorar notícia inverossímil, que a mim jogava uma névoa preta sobre os longos anos que se interpuseram entre a morte de meu pai e do tio Gilberto, o Giba, e da irmã mais velha dos dois, a Guita, a quem tratamos com zelo de filho.

Os irmãos mais novos a Guita deplorava que fumassem no quarto; enxergava uma fuligem densa impregnar a parede. Nós crianças víamos apenas o sinal viril dos pais daquela época e das mães modernas que lhe tomavam emprestada a independência. Agora sim é que tudo ficava enevoado.

Não é que um dia a Guita, que nem talão de cheques possuía, tenha levantado um dia, tomado um táxi e ido a um cartório registrar um testamento. Um papel decerto lhe surgiu à frente entre inventários e certidões de compra e venda e eu não era mais herdeira do resto de um apartamento na Melo Alves.

Ou talvez, como supõe meu irmão, nem haja tal papel. Para hoje não importa; há a notícia de sua existência e é ela que me dirige a pergunta:

– Que é uma herança?

Por que passei adiante o que me dava por lei o tio Gilberto, sendo que aceitei na infância água de bolinha em garrafas esverdeadas, gibis variados, programas infantis na TV a cores no domingo e a coleção completa das aventuras de Sherlock Holmes?

E por que cuido de cada batente do apartamento da Martinico como se meu avô ainda me pegasse no colo feliz, me levantasse vermelha e rechunchuda até que eu visse meu reflexo no espelho de minha avó? O que tomamos de nossos pais sem merecer, o que rejeitamos sem justificativa, o que abraçamos com orgulho e o que deixamos que se esfacele em nossas mãos?

Era isso que o testamento me perguntava.

E, com maior alarido, que é que deixamos aos nossos?

***

– Se eu ganhar na loteria não vou deixar pra vocês pois dinheiro muito faz mal.

– Tia Lô, nós só queremos que você nos leve a lugares maravilhosos!

– Isso já faço – respondi até um pouco cortante. – Não levei vocês para Paris?

A herança será a sucessão de viagens a lugares maravilhosos, o Marais, a atulhada loja de armarinhos da Fradique cujos estoques nos engoliam como num conto de fadas, os caminhos de poças de água por onde brincávamos as três como crianças, o banco defronte a um lago branco onde era permitido à alma falar.

Minha herança valiosa.

Meus pais – esses deram o que tinham para nós. Mesmo as desavenças nos aproximavam:

– Rosa, ela briga assim comigo porque é de Touro como eu.

Nascemos, eu e meu pai, no mesmo dia do ano, um 10 de maio sempre ensolarado.

– Sei – disse minha mãe matemática, achando graça da superficialidade da idéia que, no fundo, era correta.

Meu pai, me dei conta do fato, pelo contraste do agora, não me deserdou.

Continuo almoçando no seu chinês favorito. Um dia, caminhando na Rua dos Pinheiros, procurando onde comer, meu irmão avisou:

– Essa cantina tem um problema d’a gente ir.

– Qual é?

– O pai não gostava.

E ficamos na frente do restaurante, ponderando se entrávamos ou não. Assim é que somos. Esse tipo de herdeiro. Se meu pai sabia que cuidaríamos deste modo de sua memória, eu não sei. Um dia me disse:

– Não sabia que você gostava tanto de mim.

Como é que não sabia, se eu o adorava, se essencialmente tudo o que escrevo são adendos a uma longa carta de dia dos pais que comecei a redigir na infância?

Não sabia por vaidade, essa de nem sentir o gosto do amor quando temperado pela crítica. Meu e de minha mãe também. Mas falou que não sabia, e então não sabia.

Foi ler num texto meu e aí ficou sabendo, e espero que desse momento em diante não tenha se arrependido de me dar o que deu.

***

Os móveis fora do lugar, gavetas abertas e esvaziadas. Mais que um apartamento dilapidado, um lugar sem vida ou passado. Minha missão a de encontrar enfeitando a mesa de centro os crochês feitos pelas pacientes psiquiátricas da tia Raquel, tia do meu pai. “Drª Raquel, a senhora nos trata como gente”, elas teriam dito à minha tia-avó, segundo a tia Guita. Crochês intactos ao longo das décadas, do Juqueri aos Jardins, evaporados em questão de semanas.

Vasculhávamos a esmo, sem propósito. Meu irmão catava talheres iguais aos de casa, apenas faltando as marcas do uso de duas gerações. Provavelmente comprados juntos pelos dois irmãos. Achou uma máquina dessas de homem, uma ferramenta elétrica, e pegou exultante, um pouco menino. Eu achei as carteiras de trabalho da tia Polinha, nossa outra tia-avó, farmacêutica. A posteriori, notei que catávamos as coisas de trabalho de nossos tios, signos de vidas em movimento, talvez por não haver mais nada para pegar, talvez por exercerem sobre nós alguma atração.

Meu irmão olhou para o grande relógio de chão de nosso bisavô, deslocado para a janela, e disse com hesitação incomum:

– Nem sei se quero…

Catei um abridor de garrafas feito de perfil de alumínio seccionado da Arquetipo, desenho de meu pai, uma cadeira de trabalho também de meu pai, que emprestei a contragosto, além de três pequenas esculturas suas que foram parar lá. São coisas que cabem a mim e chegaram a mim.

No ponto de ônibus, já escuro, pensávamos no dia que ainda não havia acabado. Eu iria a uma manifestação, com o pretexto de uma pesquisa. Meu irmão encontraria colegas. Aguardávamos cansados, amigos, vazios e contentes a um só tempo. No meu celular, a mensagem de um homem público agradecia pela compreensão gentil de suas razões, que ele havia visto num texto meu.

Também eu tratava as pessoas como gente. Por razões que só sei de segunda mão, me deram meus pais um nome muito belo e medieval que não me descreve, e não o da tia Raquel, que seria natural e deve ter sido cogitado. Nem o nome, nem o crochê, me chegaram a mim. Não importa. O que deve chegar, chega, as heranças devidas e cuidadas.

Modernização, conhecimento e afeto: uma alternativa para a Universidade Julio de Mesquita Filho

Salta aos olhos, no plano de gestão dos professores Sandro Valentini e Sergio Nobre à reitoria da Universidade Julio de Mesquita Filho, o cuidado com o texto, com a diagramação e com a forma sintética e lógica com que apresentam suas propostas. Convidam assim o leitor a se engajar com sua visão da universidade, seu diagnóstico dos problemas que enfrentamos e suas idéias para aproveitarmos todo o potencial que temos.

O professor Valentini tem uma atuação acadêmica vastíssima na área da microbiologia. Vejo com muito bons olhos que nosso reitor venha do campo das ciências aplicadas, na qual nossa universidade tem enorme projeção. E dá vontade de conhecer o professor Nobre, que estudou a história da matemática, tema fascinante, em Lipzig, estando portanto filiado às mais nobres (desculpe o trocadilho) linhagens acadêmicas.

O vínculo dos dois às ciências se traduz no programa que apresentam à nossa comunidade. A idéia de sustentabilidade e planejamento, presente ao longo da proposta, não é apenas uma resposta racional e necessária à crise financeira. Expressa a compreensão de que a universidade deve prover, por séculos, um lugar para o conhecimento.

Ao longo do plano, há inúmeras propostas que endosso com muito gosto, entre as quais destaco a busca da transparência e a desburocratização, a defesa da liberdade de expressão e a abertura para a colaboração, a discussão sobre evasão e a internacionalização, a flexibilização curricular e a valorização da autonomia do estudante. Muitas mesmo. Foi tanta identidade que o plano me tocou.

Mas o que me deixou especialmente contente foi a ênfase no conhecimento, termo que aparece em vários momentos da proposta, seja na parte referente ao ensino, à pesquisa ou à extensão, que aliás é muito bem analisada no texto. A universidade é um lugar para o conhecimento, para sua busca coletiva e prazeirosa. Em primeiríssimo lugar, é preciso resgatar este papel, o que os professores Valentini e Nobre se dispõem a fazer com sua candidatura.

Conhecendo os professores num debate, notei também sua profunda identidade com a cultura da instituição e pragmatismo no modo como pensam sobre os desafios adiante. No que diz respeito a propostas concretas, reforcei minha esperança de que a universidade se torne mais transparente para si mesma e para a comunidade do conhecimento, dando sentido à busca comum pelo conhecimento por nossos jovens, professores e apoiadores.

O tempo pára: sobre a vida da tia Guita

Para amigos e familiares que a conheceram, e também para os que apenas ouviram falar, comunico que faleceu ontem minha tia Guita, irmã mais velha de meu pai. O enterro foi hoje no Cemitério Israelita do Butantã e faremos em breve uma cerimônia de Shloishim. Foi uma cerimônia bonita. Estavam lá 3 dos 4 sobrinhos e 3 dos 4 sobrinhos-netos, por sorte no Brasil, além dos cônjuges. Cada qual lembrou um aspecto da vida e da personalidade da tia Guita, e fiquei espantada em ver que tínhamos lembranças tão diferentes. Estavam lá também alguns funcionários antigos, que tiveram a gentileza de vir prestar essa última homenagem.

Em cada um de seus rostos, vi outros funcionários, ainda mais antigos, alguns já não entre nós. Vi a Maria, irmã da Terezinha, que minha tia adorava! Vi a própria Terezinha e a Rita, a quem minha tia recebeu como visitas ilustres certa vez no apartamento da Melo Alves. Vi a Margarida, uma outra Maria, a Mara e a Silvia, com quem minha tia teve relações melhores ou piores, mas sempre muito intensas. Quando ela chamava alguém de Maria, era sinal de enorme apreço, enorme apreço mesmo. Vocês não têm idéia. Vi também os profissionais que só conheci de nome, o famigerado gerente da fábrica de meu bisavô, que fazia móveis para 4 aposentos e vendia o quinto por fora, o que levou o negócio à falência nos difíceis anos 1930.  O advogado que cuidou muito bem da papelada, a quem minha avó visitava levando a adolescente tia Guita. Médicos ilustres que cuidaram de familiares. Um farmacêutico que negou emprego à tia Polinha e um médico que reconheceu o trabalho da tia Raquel, minhas tias avós estudadas.

Pois vocês sabem, minha tia não tinha memória. Não é que lembrasse de coisas passadas. Apenas relatava o que em sua mente se passava ali mesmo naquele instante, não importando se em nosso calendário se haviam passados 4, 5, 6 ou 7 décadas. Não era doença, era um modo de ver o mundo, a vida, os acontecimentos. O passado não ficava para trás. A conta aberta no Banco São Paulo, onde a caixa havia conhecido seu pai. As lojas onde a tia Raquel a levava, no centro de São Paulo. O cheiro de café queimando e empesteando a cidade toda, coisas de livros que os relatos de minha tia tornavam visceralmente reais. Os crochês que sua tia Raquel, psiquiatra, havia ganho das pacientes doentes mentais, a quem tratava com respeito, como gente. Os crochês estão lá, enfeitando a mesinha da sala, espero que guardem para mim, absolutamente conservados, não é um milagre?

Não é um milagre que o tempo não passe? Ou que em alguma dimensão psíquica não transcorra? Pois era assim com a tia Guita. Os traumas também não passaram, é verdade. Em especial o falecimento precoce de meu avô, em 1937, menos de um ano após o falecimento de meu bisavô, o patriarca. Um trauma, a perda dos arrimos da família e do status que tinham, de doadores da comunidade a gente humilde, que tinha que lavar e passar a roupa de um dia para o outro pois não havia reserva. Que escondia ter tido tuberculose, doença de pobre. Mas com a tia Guita era assim, o tempo parava quando queimavam o café e às vezes soluçava pra frente, retornando ao seu natural, o ontem.

Com a tia Guita soube do circo que se instalava perto da Alameda Lorena, acompanhei a construção do Hospital das Clínicas do outro lado da Rebouças, que antes era um barranco onde as crianças brincavam e voltavam sujas, para desespero das mães. Fui até o Municipal com toda a comunidade judaica, em procissão, ouvir um cantor ídish famoso que se hospedou na casa de meu bisavô.

Vivi os anos 1930, portanto, talvez até mais que com minhas outras tias-avós, cujas fascinantes memórias se voltavam para dentro, para o rico ambiente familiar e emocional que compartilhavam, as tramas de expectativas e as sutis interpretações. O cheiro do café queimando – que coisa mais profundamente paulista, que ferida essa em nossa história, talvez tão forte como a do avô e do pai indo embora antes do tempo. Sem conhecer, conheci o tio Henrique, Henrique Mendes, também psicanalista que se casou com a tia Raquel e fez as vezes de pai ao meu pai e até de sogro para minha mãe, que o ouvia e respeitava.

Fui de trem ao Rio, ficar com a tia Eva e tia Branca, que faziam tudo para a tia Guita. Houve momentos, claro, que a tia Guita pode olhar para trás como quem olha para trás e pensar em sua vida. Mas foram momentos raros, numa circunstância especial. No mais, vivia o passado como presente, com a mesma dor e prazer com que eu e você viveríamos uma aventura atual. Claro que assim o presente – esse lugar onde de fato executamos nossos planos – fica prejudicado. Não cabe assim o presente na vida. Mas vou lá eu julgar? Falar, todos falávamos, em toda a família. O presente, para a tia Guita, pelo que ela demonstrava com suas críticas ferinas que podiam atingir o Silvio Santos, uma empregada, um parente que não se comportou bem ou outro alvo aleatório, o presente não estava à sua altura, digamos.

Mas as falas diversas da cerimônia hoje, que talvez se repitam em todas as cerimônias, nos lembram que cada um tem um jeito próprio de ver as coisas. Cada um mora num lugar diferente do mundo. E talvez cada um more também num lugar diferente do tempo, conforme lhe apetece e lhe é possível. Em algum lugar ainda constroem o Hospital das Clínicas e queimam café nessa cidade. Um cantor ídish se apresenta no Municipal. Tia Raquel recebe presentes de suas pacientes do Juqueri. Um funcionário engambela uma viúva, um circo é montado nos Jardins, um jovem arquiteto traz os amigos para almoçar em casa na Major Sertório.

Tia Guita está lá.

Eu, professor de mim

Hoje fui ao Bandeirantes, para o lançamento do novo livro de nossa professora de redação, que publicou meu conto “Ela é má” no Composição 5.

Eu já havia retornado ao Colégio uns meses atrás, para uma insólita palestra do José Serra. Hoje, como da última vez, o peito apertado de quem volta a um lugar difícil.

Já contei decerto, mas ao final do terceiro ano, o popular Ernesto perguntou à classe quem, depois da saber como aqueles anos seriam, não teria feito o Bandeirantes. Já aliviada pelo término próximo, levantei a mão distraída, como se fosse a resposta óbvia. Mas olhando em volta vi que todas as colegas me olhavam acusadoras e recolhi o braço rapidamente. Hoje não recolho: olhando para trás, foi a pior experiência intelectual que tive. Levanto a mão serena, tranquila, mas firme.

Não acuso meus pais pois não caberia. Se foi uma decisão impensada, não foi inconsequente. Uns anos depois de sair perguntei: “Por que vocês me botaram no Bandeirantes? Por que não me colocaram no Santa Cruz, por exemplo?”

Meu pai respondeu com uma dupla negativa: “Eu, colocar você em colégio de padre? Nem pensar.” Nem ele colocaria alguém, nem ninguém me colocaria. Nem, talvez, alguém devesse colocar alguém. Aceitei a resposta que fez todo o sentido para mim então e agora talvez mais.

Mas foi um horror. Essa mente inquieta, esse humor áspero, esse olhar observador preso naquelas paredes de tijolinhos, junto a professores também presos em suas matérias assépticas. Meu Deus.

Saí do evento abalada, com pena daquela adolescente começando sua vida nos livros. Disse que lhe compreendia afinal, que entendia o quanto doía.

Ainda no evento, um homem me viu e parecendo me reconhecer me perguntou se eu havia dado aulas lá. Eu disse que tinha estudado de 1982 a 1985, e ele se apresentou, professor de geometria ou trigonometria. Falou o nome várias vezes, mostrou fotos, tive uma lembrança muito vaga, muito vaga mesmo.

Listou os tópicos todos que ensinava, nada veio à mente. Na verdade, só me veio à mente as aulas do Tio Reinaldo de desenho geométrico onde fazíamos gregas e pintávamos de duas cores. Eu gostava de azul e mostarda, por exemplo. Sei o que são ângulos mas não me recordo de ter aprendido. Lembro também das aulas no Etapa de preparação para a Olimpíada de Matemática, os toros e uma vertigem que tive por imaginar formas tão belas.

Mas não do Bandeirantes.

– Eu me lembro de você! – ele disse. Seu jeito de falar, eu me lembro de você na 347! – ele insistia, um pouco indignado ou talvez apenas decepcionado com meu esquecimento.

– Sabe, o Bandeirantes foi difícil para mim, acho que bloqueei muita coisa – expliquei.

Mas não me surpreendi com sua lembrança. Eu era de se lembrar, numa sala de aula.

– Eu mudei muito – ele se desculpou.

– Não, você não mudou, apenas se passaram 30 anos – expliquei.

Perguntei do professor de atomística, querendo talvez dizer que algo havia ficado.

– O Flavius?

– Isso, o Flavius!

Eu lembrava do Flavius pois ele me deixava faltar às aulas, que eram logo cedo, e os treinos de madrugada me atrasavam justo nas aulas dele. Lembro como se fosse hoje, 246, indo falar com ele, explicando a situação, dizendo que até gostava das aulas, mas batiam com o treino. E ele deixou.

Eu lembrava pois tinha acontecido uma conversa, um diálogo, um interesse. Em uma palavra, uma história.

E eu era de histórias. Não era? Eu era de histórias. Os átomos girando em torno de um núcleo, com suas danças estranhas, chegando até nós, as melhores alunas do curso de biológicas do Bandeirantes, era uma história. Ou eu via uma história.

No mais, matéria matéria matéria matéria. No anos seguinte era tanta matéria que nas quartas-feiras à tarde, eu e minha mãe livres, eu simplesmente chorava de de tanta matéria e dizia que não aguentava mais. Era muita matéria.

Eu não tinha o tipo de cérebro que conseguia filtrar tudo aquilo. Ainda não consigo, tudo é importante, tudo é urgente, tudo é necessário e tudo é conectado. Então aquela enxurrada de matéria, que talvez para os outros fosse apenas algo para se reter em separado, como nas receitas culinárias, “reserve”, até o dia do vestibular, para mim reclamava uma atenção, um raciocínio, um pensar. Uma entrega.

E então estou aqui. E andando pela Paulista, depois de ter conversado com aquela adolescente inquieta, ter lhe compreendido pois se os professores se recordam dela, por que eu não vou recordar?, pensei, claro, nos meus alunos.

E compreendi assim de sopetão que talvez eu seja, para alguns deles, o que fui hoje para mim mesma.

Representando o regime?

Caro Editor,

Em referência a artigo “Relator se defende e petistas falam em ‘golpe’” publicado no dia 7 de maio de 2016 no Estadão, há um trecho que identifica a UDN como “partido representante do regime militar no Congresso”. Caso essa identificação seja de senadores, isso deve estar indicado no texto. Assim como está redigido, parece ser informação do redator do jornal, informação repleta de equívocos.

A UDN foi extinta pelo AI-2, em 1965. Ou seja, a UDN não foi base de sustentação do regime militar pois simplesmente não existiu durante 19 dos 21 anos de regime militar. Além disso, teve líderes francamente oposicionistas, como Carlos Lacerda, que em 1966 lança a Frente Ampla contra o regime. Ele foi cassado em 1968 e há até suspeitas de que teria sido assassinado pelo regime, junto com Jango e Juscelino. O último presidente eleito com apoio udenista foi Jânio Quadros, cassado em 1964.

O regime militar, além disso, não tinha representantes no congresso nacional. Ao contrário. O sistema eleitoral vigente foi constantemente alterado justamente pela dificuldade que o regime tinha de emplacar sua ideologia nas urnas. Se Vargas tinha seus partidos-poodle, não é possível dizer que os militares tenham sido bem sucedidos em criar partidos subservientes. Daí as proibições, cassações e pacotes que atravessam todo o período e que são contornadas pela oposição, num jogo de gato-e-rato.

A Arena, criada em 1965, foi um aglomerado de conservadores e oportunistas, como os variados “centrões” da Nova República, que dançaram por 19 anos conforme a música. Eles não representaram os militares no poder, como hoje não representa o governo o PP, por exemplo. Simplesmente acharam que seus objetivos políticos e eleitorais seriam mais facilmente alcançados fazendo mesuras aos donos do poder, como continuaram fazendo em 1985 e hoje.

O José Sarney que se candidata a vice-presidente da república em 1984 é exemplo disso: anti-getulista, confortavelmente apoiou o regime militar. Sentindo os ventos soprarem em outras direção, candidatou-se a vice-presidente junto ao PMDB, partido oposicionista durante a ditadura. Em nenhum momento representou o regime; serviu-se dele enquanto foi possível, assim como se serve até hoje da miséria de seu estado.

Emblemático dessa independência de nossos políticos quanto a ideologias e ditadores é o nosso querido Dr. Paulo Salim Maluf, político conservador que se lança candidato a presidente da república pela Arena contra o interesse dos militares. Sempre altivo, ainda que não impoluto, vota a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff – seu PP, herdeiro do PDS e da Arena, era parte da base de sustentação do governo. Até não ser mais.

E por que um aposto me trouxe tamanho incômodo? Pois reforça, com seus inúmeros equívocos, uma revisão histórica que se tentou fazer no Brasil, que o regime militar era um bloco monolítico no executivo e que não houve resistências e adesões expontâneas de dentro do sistema político. E que, logo, a única ação verdadeira era a luta armada. Mentiras. Houve endosso pragmático ao governo, como continua havendo, por pior que esse seja; houve resistência democrática legislativa e na sociedade civil; e também, claro,  houve lutas dentro da base de sustentação do regime na busca de poder político.

Decerto que houve também gente que, de dentro do legislativo, endossasse a ideologia da repressão e do Brasil grande. Vêm-me à memória os discursos de José Maria Marin, hoje devidamente detido em prisão domiciliar, contra o jornalismo da TV Cultura na assembléia legislativa, que podem ter endossado a prisão e morte do então diretor Vladimir Herzog por órgãos da repressão. Trata-se de um delinquente. A sustenção do regime foi, entretanto, garantida por pulhas comuns que representaram eles mesmos.

Em outras paradas

Queridos leitores do blog,

Eu tenho escrito muito pouco aqui, vocês devem ter notado. Antes, eu escrevia textos relativamente cuidados e postava aqui. Agora, tenho escrito coisas bem menos cuidadas no Facebook, para os amigos apenas. São rascunhos de idéias.

Quando ficam boas, tenho investido um pouco mais e postado em blogs de maior penetração, especializados em algum assunto. Acho que a internet toda se moveu nesse sentido.

Alguns blogs e revistas onde você pode encontrar minhas reflexões: Digestivo Cultural, Panoramas Pitt, Qualidade da Democracia, Estadão Noite, Arquivo Maaravi, Public Seminar, Blog do Simon, Unesp Ciência, Debate Acadêmico Unesp.

No meu Lattes você encontra tanto minha produção acadêmica quanto essa produção mais cotidiana. O link é esse, mas não sei por que agora não está abrindo, Currículo Lattes.

Agradeço de todo o coração a sua atenção, a sua leitura. Que mais um escritor pode querer da vida?

A congregação não me representa

O documento abaixo não me representa no plano político.

No plano conceitual há vários enganos.

Destaco a depreciação de mecanismo democrático dos mais nobres, a pressão da opinião pública sobre os representantes eleitos.

 

Nota em defesa da democracia e da legalidade democrática.

(a ser votada amanhã, dia 28 de abril.)

A Congregação da Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp de Marília (FFC), reunida no último dia 19 de abril, vem a público externar sua preocupação com os recentes acontecimentos políticos e com o cenário que se vislumbra de nossa frágil democracia. O processo de impeachment deflagrado pela Câmara dos Deputados, que teve seu ápice no dia 17 de abril, com a votação para continuidade do processo para impedimento da presidente Dilma Rousseff abre brechas a instabilidade e rupturas institucionais, como também, coloca em risco a credibilidade do regime político-eleitoral brasileiro.

Em que pese as diversas denúncias de corrupção que assolam o atual governo, condenáveis e que devem ser investigadas, além do lastimável cenário econômico, o preocupante índice de empregabilidade, entre outros, o processo atual de impedimento refere-se às denominadas “pedaladas fiscais”, que na realidade são manobras contábeis com intuito de mascarar/encobrir possíveis déficits orçamentários.

Por sua vez, tal prática aludida fora praticada em mandato anterior e é comumente utilizada por diversos mandatários do executivo sejam eles prefeitos, governadores e presidentes em exercícios anteriores, causando indignação o uso político claramente discriminatório. Assim, essa congregação considera inconsistente os argumentos levantados para o processo de impedimento da presidente e reitera que não há crime de responsabilidade e ou de lesa pátria cometida pela Sra. Dilma Rousseff!

Além disso, a espetacularização do processo de votação e o comportamento desprezível de grande maioria dos deputados demonstra o achaque a que está submetida nossa representação política, salientada inclusive pela imprensa internacional, que além de fazer críticas severas ao atual Congresso brasileiro, destacou a falta de argumentos sobre o processo em si e a dissimulação de nossos deputados federais.

A Congregação da FFC reitera que tal processo desencadeado é um atentado violento ao processo democrático com profundas consequências em nossa sociedade, desencadeado por figuras políticas abjetas com intuitos e objetivos questionáveis, sendo assim, o repudio do processo em curso caracteriza-se como defesa dos valores institucionais, legais e democráticos muito caros a nossa jovem democracia.