Sergio Bernardes

Acabei de chegar do filme Bernardes, que está em cartaz na Mostra de Documentários de São Paulo. Tenho críticas ao filme, mas recomendo muitíssimo a todos vocês que o vejam, por inúmeras razões.

Me emocionei muito com o filme, aprendi muito também, vou tentar contar um pouco para meu irmão, que está no estrangeiro e lá não vai poder ver, mas para me ajudar a pensar também.

O filme é sobre o Sergio Bernardes, importante arquiteto brasileiro da metade do século 20. Meu pai, pelo que lembro dele contar vagamente, “trabalhou com Sergio Bernardes”. Não era uma época sobre a qual ele falasse muito, acho que se estivesse vivo agora falaria.

Nessa entrevista do Eduardo de Almeida tem mais sobre o Horizonte Arquitetura, onde trabalhavam os wrightianos paulistas. Provavelmente naquele livro sobre Artigas, duas viagens, tenha algo também. No Google, busque além de Eduardo de Almeida, Sergio Bernardes e meu pai, Arthur Fajardo Netto e Dácio Ottoni, todos de São Paulo menos o Sergio Bernardes. Não sei de quando a quando o escritório funcionou: imagino que de 1958 (pela entrevista) a 1969, mais ou menos quando meu pai passou a trabalhar na Ajax.

Se o escritório paulista foi criado pelos jovens arquitetos ou se Sergio Bernardes os procurou, não sei. Imagino que ele trouxesse projetos aos jovens, e os jovens aprendessem com ele. Nem sabia o nome do escritório, mas sento todos os dias nas cadeiras Bertoia que foram espólio do empreendimento. Acho que nossa mesa de jantar também é do escritório, e talvez minha mesa de trabalho.

Mas no filme não há menção desta parceria, e os diretores nem haviam ouvido falar de Eduardo de Almeida. Tudo bem. O importante é resgatar esse importante arquiteto, sua obra, o que parece que está sendo feito na UFRJ por uma pesquisadora extremamente dedicada.

A personalidade dos arquitetos daquela geração é muito forte. Você fala com um e parece que falou com todos, e isso não vem de um espírito de manada mas do contrário disso: um individualismo enorme, uma confiança brutal em si mesmo e por tabela em todos os outros que sejam um si mesmo. Individualismo com ideologia, como fé. Eu sabia quando meu pai me olhava como um “si mesmo”, era muito específico.

O filme podia ser mais sobre arquitetura, e mais sobre o homem Sergio Bernardes. Não entendi exatamente por que, mas o filme foca num neto do arquiteto que não traz um ângulo interessante à personalidade do avô. A gente sai querendo ver mais obras, e mais profundamente. Quer saber o que ele representou para os wrightianos em São Paulo, por exemplo, ou para os arquitetos em geral de seu tempo.

O resumo da ópera é que ele tinha um escritório extremamente bem sucedido, fez alguns projetos grandes e depois projetou prédios públicos para o regime militar, incluindo prédios para o exército. Isso o queimou definitivamente para a esquerda, como aconteceu com o economista Delfim Netto, que nunca mais fez nenhuma consultoria nem escreveu para jornais importantes, com a diferença de que esse assinou o AI-5 e portanto fez por merecer o banimento.

O problema é que os prédios eram muito bons, e a arquitetura talvez não tenha o poder transformador que os arquitetos querem, mas tem parte dele. Os militares perceberam isso e não construíram os prédios, nem pagaram os projetos. O escritório faliu. O mastro de Brasília é desta época, e no meu passeio na semana passada eu já havia reparado que o tamanho destoava.

Tocante a leitura da carta de Sergio Bernardes à esposa apaixonada, pela absoluta frieza e egoísmo, que abalou a família. Ele rompe, como diz uma neta ou filha (o filme é muito sobre os netos de Sergio Bernardes), com uma estrutura mais que com uma mulher e seus filhos. Essa carta meu pai deve ter escrito algumas vezes no Passat branco que o trazia na Dutra da Ajax, mentalmente, mas nunca pôs no papel, nem nos enviou, e muito menos largou tudo para ir à Nova York.

Se eu disser que foi por obrigação, vai ser mentira. Se eu disser que foi por amor, vai ser piegas. Acho que foi por ver que ali naquele apartamento da Paulistânia havia, como ele, três pessoas que eram “si mesmos”.

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Um filme mudo

Há uma história que meu pai contou mil vezes, a do lojista americano que o abordou na rua. Foi assim.

Era 1977, o verão americano. E meu pai foi aos Estados Unidos, a passeio mas também a trabalho, trazer idéias. E numa cidade, que provavelmente era Chicago mas pode ser que tenha sido Nova York ou Pittsburgh também, eu não me lembro, quem sabe meu irmão se recorde, meu pai saiu de uma loja de produtos fotográficos e passou a fotografar um prédio em frente. Acho que a sequência é essa. Pode ser que ele apenas estivesse fotografando um prédio em frente a uma loja.

E o dono da loja saiu na calçada, e ficou olhando meu pai, e depois o abordou e conversaram. Meu pai disse o que fazia, e de onde era. E o homem disse que havia estado em São Paulo, mas há muito tempo. Na casa do Jacó Schnaider. Meu pai ficou maravilhado. Mas não é possível, Jacó Schnaider é meu avô. Seu avô?, perguntou o homem. Pensei que você fosse alemão. O lojista também era ídish. Ficaram então os dois surpresos, com aquela coincidência, e se a loja não era de produtos fotográficos não importa muito, pois a essência da história é que aquele lojista que observava meu pai tirar fotografias de prédios, imagino o centro de Chicago, aquele calor abafado, havia estado em São Paulo nos anos 1930, e entre todas as casas de então, na casa do meu bisavô.

Éramos crianças e ainda um pouco inconscientes da largura do mundo, ainda mais que o homem já havia pisado na Lua. O que havia de tão difícil em encontrar um lojista que tivesse visitado um avô nos escapava. Então olhávamos respeitosos mas não muito convencidos para aquele entusiasmo tudo. Crescemos e podíamos aí ter compreendido melhor a história, mas aquela suspeita infantil permanecia e portanto era em vão que meu pai recontava a história.

Agora podemos ver que era mais que uma coincidência. Não chegava a ser um milagre, entretanto. Ou melhor, era o milagre comum de que é feito o povo judeu. Mas para meu pai era a prova de que seu avô, tal como lhe contavam, homem importante e conhecido, que recebia visitantes de fora, de fato havia existido. Para quem mal havia conhecido o pai, essa prova tinha uma importância enorme. Então seu avô existia, e talvez então seu pai, e portanto ele mesmo, ele mesmo era quem ele achava que era, não era impressionante?, ele perguntava a nós, mas para nós o pai era bastante concreto, palpável, prescindia de narrativas distantes. Sim, é impressionante, dizíamos por obediência.

Mas por que falar destes homens todos agora, os homens da minha família? É que me apareceu um homem e quando olho seus gestos, seu olhar, o modo como se expressa, parece que vejo projetado em minha frente um filme mudo, com sorrisos para a câmara e partes emendadas, com esses homens todos em cena, sua inteligência e vaidade, seus sonhos e decepções, seu humor e rancor. E quando ele me segura pelo braço, firme como se eu quisesse escapar, quase doendo, eu sinto esses homens em torno de mim, num abraço cheio de carinho.

O farmacêutico tem que viver, mas…

Hoje me passou pela cabeça que os machistas estão se enrustindo no Brasil. Não têm mais coragem para falar besteira em público, isso é só impressão, não é sociologia, e usam espaços privados para descontar. Isso com base em duas experiências. Uma, num cabeleireiro de São Paulo, onde por duas vezes, com profissionais distintos, tive que ouvir uns comentários não muito agradáveis sobre um certo grupo do qual faço parte… Por que machismo? Porque se tivessem me dito a mesma coisa na rua, eu com meus óculos e o interlocutor sem uma tesoura na mão, eu teria respondido à altura. E acho que os machistas hoje sabem disso.

Mas sem meus óculos, me olhando triste num espelho iluminado por uma luz fria, a gente fica um pouco sem ação. E diz: pois é. Até que o corte termine.

E hoje, fui fazer um exame num laboratório. Acho que a pressa de todos, as filas, tudo deixa os profissionais meios estressados. E então do nada o médico começou o sermão: “Mas não fez mamografia? Olha, não sei quem é seu médico, mas sou obrigado a dizer…” E começou sua ladainha inconsistente, arrematando: “E com essa idade!”. Ah, falasse isso em uma situação normal, ouviria. Mas eu estava deitada no escuro, pelada e lambuzada de gel. Não é onde estou mais eloquente, digamos. Em jejum. Tendo acordado de madrugada.

O jejum me atrapalhava as idéias. Passou pela minha cabeça que aquele sujeito não tinha o conhecimento de meu médico, e balbuciei algo sobre a confiança que eu depositava nele. Não bastou, o homem estava determinado a me perturbar. Perguntei para que servia o ultrassom então, ele se retraiu um pouco e explicou porcamente. Mas continuou. Não pensei, no momento, em mandar o homem consultar as últimas pesquisas que indicam a mamografia a partir de uma idade maior, pois, como disse, a fome e a situação me roubavam capacidade mental. Também não perguntei que pocilga lhe havia dado um diploma em medicina e outras coisas mais que só agora me vêm à cabeça.

Na minha confusão, na minha literal imobilidade, me saí com essa: “Sabe, minha mãe contava que um dia viu meu avô jogando fora uns remédios, e perguntou por que ele fazia aquilo. Ele disse: ‘O médico tem que viver, o farmacêutico tem que viver, mas eu também tenho que viver!'” Obrigada, vô Leo, por mais essa, que me salvou o dia.

Quanto ao médico, tenho poucas esperanças. A medicina brasileira está copiando a americana, baseada em remédios que fazem mal e exames que rendem uma boa grana. Ele é apenas mais um. Mas vai ter que dormir com as palavras do vô Leo, pois tenho certeza que uma boa história se fixa mais na mente dos homens do que mil argumentos.

Um amigo

No ano passado me deu saudade de pessoas que não cheguei a conhecer: os amigos do meu pai. Enquanto muitas vezes minha mãe nos intoxicou com a presença de suas amigas, meu pai nesse aspecto era mais reservado. Um dia ele chegou em casa e disse que tinha almoçado no Tuí. “Puxa, no Tuí? Por que não me chamou?” Ele: “Ah, não sabia que você ia querer ir.” E ficamos assim.

Tudo começou com uma palestra na USP sobre Sergio Buarque de Holanda, onde vi um senhor que falava como meu pai. Raciocinava como meu pai. Principalmente seus gestos indicavam que aquilo era mais que uma coincidência: era coisa de turma. Vi na brochura que era mesmo um amigo de meu pai, o Nestor Goulart Reis, e fui falar com ele ao final.

Depois fomos também, eu e meu irmão, ver uma outra palestra na USP, do Eduardo de Almeida. A reação, quando nos apresentamos, é sempre a mesma. De surpresa, de alegria como se eles tivessem vendo ali na frente o amigo divertido e surpreendente que era meu pai. Puxa, o Henrique!

O filho do Tuí apareceu em casa, numa festa, e foi muito bom. “Não sei o que estou fazendo aqui, pensei no elevador subindo, mas sei que estou no lugar certo”, ele disse, e era mesmo o lugar certo de filhos de grandes amigos. Ele e meu irmão tinham ainda lembranças de brincadeiras de criança. E ficamos de nos encontrar.

Também fui na USP um dia ter uma aula com o Nestor Goulart, uma aula particular sobre São Paulo pois os livros não me ajudavam a pensar sobre o tema e achei que só mesmo uma boa aula de alguém que conhecesse as entranhas na cidade ia me resolver. Uma aula como meu pai dava.

Mas hoje pensando nesses encontros todos, percebi que aquele primeiro encontro, com o Nestor, é que foi o mais marcante. Ele disse de pé, depois da palestra, com outras pessoas querendo falar com ele: “Lembro do dia em que o Henrique veio e disse que tinha uma namorada nova, a sua mãe, lembro da animação dele!”

Minha mãe era linda.

E essa lembrança agora me tocou, não apenas por ter o Nestor, digamos, os registros do meu Mayflower, mas pela lembrança em si. Depois daquele primeiro encontro se passaram 50 anos. Meus pais se casaram, e se separaram. Minha mãe faleceu, e depois meu pai.

Mas o rosto do jovem animado com a nova namorada, presente na memória de um amigo. Isso é que me tocou.

Onde fica Israel?

Por alguma razão, tive muitas tias avós, que foram parte de minha infância em maior ou menor grau. A tia Leonor, a tia Maria Luísa, a tia Tuba, a tia Polinha, a tia Adélia. Judias e católicas, letradas e cozinheiras, de óculos ou rímel, casadas e solteiras. Não posso me queixar de não ter tido, nessas tias avós, todos os modelos possíveis para ser mulher, mesmo que com as tias eu não tivesse assim um leque tão amplo e fascinante de figuras humanas.

Com a tia Maria Luísa eu montava a árvore de Natal todos os anos, atividade que eu esperava com gosto, ainda mais que os enfeites que ela não usava eu podia levar para casa para enfeitar a minha. Era uma casa antiga, no Jardim Paulistano, que merecia aquela árvore grande e pujante, ao lado da mesa de trabalho onde a tia Maria Luísa sempre montava um puzzle difícil. Onde anda aquele bordado gigantesco, com uma faixa ondulada como se fosse uma serpentina dobrada?

Um bordado modernista, uma contradição perfeita.

Naquela casa, eu já contei antes, minha mãe era bem recebida. Nos outros lugares ela era admirada, até adorada. Mas na casa da tia Maria Luísa a coisa tinha um outro caráter. Ela mesma era bem recebida, e não as máscaras de moça popular e engraçada que ela usava fora dali. Ela nem fazia piada, mal falava. Apenas bebericava o whisky que aparecia em sua mão assim que sentava, e ficava assim até o cair da noite, quando íamos embora, ficava com um meio sorriso no rosto, assentindo com a cabeça ao que os outros diziam, apenas sendo ela e sendo amada sem esforço algum, a chamavam de Tota, não sei por quê.

Eu era criança e achava aquilo intrigante, e agora apenas me passa pela cabeça o quanto as pessoas populares se aprisionam em sua popularidade, o quanto no fundo tão raramente podem ser elas mesmas, o sofá de couro, a poltrona na casa do tio Jaime e da tia Maria Luísa.

Sim, pois a casa era também do tio Jaime, é dele que queria falar, como parte de minha série sobre os homens da minha família. Ele era pequeno e tinha uma voz um pouco aguda, me lembro de minha mãe falando que quando ligava para o tio Jaime e alguém atendia, ela dizia: “Tio Jaime?” Não, aqui é a Maria Luísa. Ou então: “Maria Luísa?” Não, aqui é o Jaime. Tio Jaime era o único membro da família que levava a sério minha natação. Perguntava dos tempos, falava de grandes nadadores, era realmente o único.

Separou-se da tia Maria Luísa para ir viver com a Dolly, uma antiga namorada de olhos muito bonitos, que cheguei a conhecer. Maria Luísa nunca o perdoou, e com razão. Uma vida toda juntos, três filhos, uma casa que era aquele paraíso de receptividade, e ele simplesmente dá no pé? Ele tinha suas coisas lá, as ferramentas, as máquinas, a casa inteira era um grande hobby. Por que se separar? Ele também tinha razão, pois a vida é curta, e talvez ele tivesse uma história para terminar com a Dolly, que sei eu?

Mas antes disso, logo antes de eu ir para Israel, ele me perguntou uma coisa que ficou na minha memória. Na hora me pareceu insólita, mas hoje acho tão sábia.

– Lozinha, me diga uma coisa afinal. Onde fica Israel?

E emendando, como se isso não ajudasse em muito:

– Fica na Palestina, não? É a Palestina?

Eu respondi, já na faculdade, já depois de ter aposentado o maiô, que ficava no fundo do Mediterrâneo, na parte mais ao leste. Para mim, era lá que ficava, não me veio nada melhor na cabeça para dizer.

Mas a pergunta ficou na cabeça. Onde fica Israel? Fica aonde? Hoje falam de lugares ancestrais, de origens bíblicas. De fato, vivem cavocando nosso passado como um oncologista busca metástases, sempre algo a mais para ser remexido, extraído e analisado.

Para o tio Jaime, o lugar não era tão claro, e a relação com seus antepassados devia ser menos ainda. Para mim, era um lugar geográfico, visitável. Mas onde fica mesmo Israel, a pátria, o lugar onde estamos entre nós, onde podemos nos jogar sem armaduras nem máscaras, esse é um lugar difícil de achar. Onde fica? Para minha mãe, era aquele sofá de couro, aquela poltrona da casa do tio Jaime.

Depois tio Jaime faleceu e eu, por conta do trânsito, perdi o enterro. Minha mãe não me perdoou. A tia Maria Luísa também não foi, pois o enterro, para ela, tinha sido uns anos antes. Mas quando vou ao cemitério deixo uma pedrinha para o tio Jaime, e da próxima vez vou contar, afinal, onde é que fica Israel.

Ética Judaica

Acho que eu deveria ser rabina, pois adoro narrar histórias e tirar daí lições de moral. Mas sou apenas blogueira, então lá vai.

Quem conheceu meus pais sabe de sua pouca familiaridade com os textos sagrados e preceitos religiosos. Passaram a vida estudando outras coisas, vivendo outras coisas. Acho que meu pai era ateu, mas não tenho certeza pois nunca falamos de Deus em casa. Sou atéia por “default”, ou seja, vim da fábrica assim. Se Deus não era nunca mencionado como explicação de nada ou fonte de sabedoria ou inspiração, então era porque ele não existia e falávamos a palavra, “Deus”, como falávamos “Nossa!”, ou “meu!” ou “caramba!”: interjeições que se referiam obliquamente a uma religião ou outra, a um tempo ou lugar.

Mas até mesmo por estarmos numa família, digamos, religiosamente parcimoniosa, o que era dito tinha minha atenção completa.

Minha mãe dizia rindo, irônica, que as mulheres não tinham que usar a kipá pois estavam aí visíveis os homens que lhes eram superiores. Na risada havia uma crítica, mas na frase uma verdade. Era assim. O mundo era assim.

Também dizia que não se devia levantar falso testemunho, o que devia ser distinto de fofoca, pois fofoca se praticava em casa. Então vi que falso testemunho devia ser algo grave, com consequências. E que pelo Talmud não se devia cometer plágio, o que me indicava que uma idéia tem a consistência a um objeto: não deve ser roubada.

E essas coisas ficaram gravadas.

Meu pai, menos religioso ainda, que vi poucas vezes numa sinagoga, dizia simplesmente que “judeu não bate em mulher”. Ele não era de dogmas, mas nessa frase havia todos os dogmas que você pode imaginar. A definição sem poréns do que fosse judeu, a idéia que judeus têm comportamentos padrões, a idéia, enfim, que judeu não bate em mulher, normativa ou descritiva.

Mas não era uma idéia apenas. Era uma prática. Uma vez, no meio de uma briga, minha mãe partiu para cima de meu pai. Antes que ela o alcançasse, ele segurou seus pulsos no ar. Mas minha mãe era forte e as mãos poderiam alcançar seu rosto; meu pai desviava a cara a cada golpe, e assim foi essa briga tão teatral. Teatral pela intensidade e pelo jogo, pois não houve pontapés, nada que de fato pudesse machucar meu pai. Mas não importa. O que importa é o ato de segurar os pulsos longe da cara, que me fascinou.

Se meu pai revidasse, ele se daria mal: perderia ou o dogma, e mesmo o mais iconoclasta dos seres humanos precisa de suas certezas, ou a identidade não como judeu, mas como homem, e talvez como pessoa também. Pois judeu era seu jeito de ser gente, e se judeu não bate em mulher e ele bateria, então é porque não era gente. Por isso ele arriscava um soco na cara, um óculos quebrado, algo assim. Não era altruísmo.

Os homens são superiores às mulheres, e judeu não bate em mulher. Para mim, os dois dogmas se misturaram. Se você estiver por cima, apenas segure os pulsos de quem te bate.

Um turco gostoso

A primeira aula que tive contra o pensamento dogmático da USP foi dada pela minha mãe, ao final dos anos 80, e conto agora. Foi uma aula boa; devo me lembrar sempre, quando ouço meus colegas e alunos, que dificilmente eles terão aulas assim, antídotos fortes à burrice, e que se não fosse essa minha professora eu poderia, facilmente, ter virado uma Leda.

Era no tempo da televisão. Mesmo o horário gratuito, víamos, pois a democracia era novidade. E na TV falava o Guilherme Afif Domingos. Eu mastigava na cabeça as lições de um professor meu, o Paulinho, um marxista carioca que abraçou o capitalismo quando o Quércia o chamou ao governo e que me ensinou a ler e analisar textos de economia. O pior não era o grande capital. Era gente como esse Afif, representando a mentalidade mesquinha da pequena burguesia. Eu pensava essas coisas com desprezo, com um certo rancor até, pensava e ouvi minha mãe, que fazia algo com as mãos, não sei se tricotava ou se corrigia provas e apenas lançava os olhos na TV.

– Puuta merda, mas que turco mais gostoso!

Olhei para ela surpresa e depois para a tela de TV, e vi. Vi um homem já feito, com gestos determinados e lábios grossos falando coisas. A camisa entreaberta mostrava uma corrente de ouro apoiada em pêlos escuros. Era um turco gostoso que minha mãe via pois era isso que estava na tela, apenas isso. Um turco gostoso, falando na TV.

Se fosse um sujeito inteligente, ela diria: “Puta-que-o-pariu, por que não pensei nisso antes?” Se fosse um sujeito desonesto, ela diria: “Aqui pra você!” Faria aquele gesto com os braços e completaria: “Tenho muitos anos de janela…” Se fosse um sujeito inseguro que não quisesse se comprometer, sua melhor expressão: “Esse aí não fode nem sai de cima”, uma expressão tão grosseira que chega a ter sua poesia.

Tudo era simples e taxativo, descrições do que ela via de verdade na TV. Já eu via um fantasma a partir de teorias que meus professores não muito letrados me enfiavam na cabeça, e para ver um homem na tela alguém teve que me sacudir.

Os palavrões, o leitor deve colocar no contexto da época; minha mãe era daquela geração de mulheres que mudou um país, as verdadeiras terroristas que saíam todos os dias para a guerrilha urbana e quando voltavam para casa aí sim cometiam os seus atentados. Algumas destroçaram os casamentos com traições na época sem valor e hoje talvez sem nem lembrança. Minha mãe, por amor a nós ou mesmo ao meu pai, abusava dos palavrões, para desespero da geração mais velha e constrangimento nosso. Mas a família ela manteve intacta.

Foi, de qualquer forma, uma grande aula.

Uma jararaca

Ainda na série sobre os homens de minha família, conto, ou reconto, essa sobre meu pai.

A separação de meus pais, se teve causas internas, também teve externas, e minhas dulcíssimas avós estão entre as principais. O falso heroísmo da Malu Mulher e aquele hino feminista insuportável cantado pela Simone vêm em segundo lugar.

Não era coisa pouca o olhar de desprezo de minha avó paterna em direção à minha mãe, de enfado com aquela alegria toda, registrado não só na minha memória mas desde o início no álbum de casamento. Sobre a relação das duas, reconto uma história da prima Esther.

Parece que um dia minha avó pediu uma forma de bolo de volta e minha mãe, muito educada, começou a listar todos os seus compromissos do dia: levar crianças, aulas, trazer crianças, aulas, supermercado, aulas, após o que, se desse tempo, ela devolveria a forma de bolo. Minha avó: “É, filha é filha; nora é nora.” De acordo com a prima Esther, minha mãe retrucou, matemática: “Verdade. E mãe é mãe; sogra é sogra.”

Era daí pra baixo. Minha mãe não era professora de uma das mais prestigiosas instituições de ensino superior paulistana; ela “batia pernas” na rua. Seus filhos não eram crianças inteligentes e comportadas; nós nos vestíamos em trapos e comíamos com as mãos. Era assim.

Conto mais uma, se não for abusar do leitor. Parece que numa reunião de família as mulheres comentavam casamentos recentes de outras mulheres, julgando-os – casou bem, casou mal – pelo valor da conta bancária do noivo. Minha mãe se encheu e soltou: “Pra mim, homem é para o prazer; dinheiro eu ganho na rua”, efetivamente chamando de putas as senhoras presentes.

Com relação à minha avó materna e meu pai, não era tão distinto. No momento mais negro do casamento, meu pai chegou em casa, lá em Ubatuba, com um recorte de uma matéria do Notícias Populares relatando o assassinato de um sogra por um genro que simplesmente não agüentou mais a coisa. “Genro mata jararaca”, era a manchete, se não me engano. Éramos muito jovens e ficamos até meio assustados. Mas acredito que o jornal tinha essa função mesmo, de desanuviar as relações familiares cotidianas a partir do relato catártico de um crime ou outro, e que além de meu pai muitos outros genros aumentaram sua tiragem naquele dia, contentes, solidários silenciosos com o criminoso e especialmente uns com os outros.

Minha mãe contava que quando ela era noiva meu pai e minha avó se adoravam, conversavam às pampas. Vai saber. Mas depois a coisa avinagrou. Era minha mãe que mandava parar quando minha avó desatava a falar mal de meu pai.

E bem depois minha mãe mãe faleceu.

Meu pai, viúvo formalmente, tinha direito a meia aposentadoria da minha mãe. A cada mês, ele visitava minha avó e entregava esse dinheiro. Não acho que fosse uma quantia que fizesse falta a meu pai, mas seria um dinheirinho a mais. Para minha avó, acredito que ajudasse a fechar as contas.

Não era um grande gesto; era um pequeno gesto. Mas não um gesto sem significado. A constância da visita, o afluxo da renda, a idéia de que entre a jararaca e aquele desvairado havia solidariedade e que, numa hora de real precisão, ele estaria lá.

Nenhum dos dois falava muito disso para mim. Não sei se meu pai entrava e tomava chá, ou se apenas entregava o dinheiro no hall de entrada. Não sei se falavam da política ou das coisas do dia-a-dia. Não sei se falavam de minha mãe ou se choravam sua falta. Apenas sei que era assim. A Rosa havia sido, para cada um dos dois, a pessoa mais importante da vida. E então era assim que deveria ser.

Tenque ser

Nunca levei a sério correções de ninguém. Tirei 2 na prova de redação da Fuvest e não me abalei. Uma professora do Bandeirantes disse que não fazia sentido o “diálogo mudo” que dois personagens travavam num conto e dei risada. Só os comentários elogiosos aos meus textos eu levei a sério, e graças a Deus não foram poucos: Moacyr Scliar, Marcos Faerman, minhas sobrinhas, Marcia Kupstas, meu pai, enfim. Minha avó não suportava meus textos, mas isso porque ela detestava a Clarice Lispector (eu entendi isso vendo a peça Simplesmente Eu), então tudo bem. E minhas editoras americanas, Leila Rae e Kyra Ryan, que escreveram coisas tão bacanas sobre meus textos… Imaginem que já tive muito parecer negativo de editora, mas ignorei sem dificuldade e continue escrevendo como se nada fosse.

E quando falam que meu texto acadêmico é jornalístico? Quero gozar de prazer.

Agora, quando escrevi tenque e meu irmão corrigiu, impaciente, isso ficou guardado. Fazem quase quatro décadas, mas doeu. Por que, se m combina com p e b apenas, pois macaco gosta de banana e pular? São duas palavras, ele explicou, como se fosse a coisa mais óbvia do planeta. Fiquei sem ação. Duas palavras. Se fosse hoje, eu poderia ter argumentado:

Que poderia ser apenas uma, como “deve”: ele deve comer, ele tenque comer. Que as novas palavras surgem assim, de contrações de palavras independentes frequentemente unidas: benfeitor, alfaiate. Que algum dia escreveríamos tenque, ele aprovasse ou não. É claro que não vou escrever um email para ele hoje, em 2013, listando todas as respostas possíveis, pois seria passar um atestado de irmã-mais-nova.

Seria assumir que a opinião dele importa. Que as críticas são levadas à sério. Que não dá pra desmerecer como as outras. Só quem é irmã mais nova vai entender esse post; os outros vão achar tolice, frescura, coisa de quem não tem problema maior na vida. Quem só teve os pais para se espelhar, remotos por uma inteira geração, não vai entender o que é uma crítica de irmão mais velho. Ou apenas o exemplo. Tenque ser forte.

Os Pretzel no Mayflower

Ainda na série dos homens da minha família, vai esse post.

Minha bisavó Rosa Pretzel eu tenho uma boa idéia de quem tenha sido. Inteligente como todas nós, prática como minha avó, dedicada por obrigação mais que por vocação às tarefas domésticas do início do século, quando ainda se comprava frango vivo. Parceira do meu bisavô nos negócios, ao menos nominalmente, como atestam os documentos oficiais, e entendida dos riscos desse negócio, como contamos em outro lugar.

De acordo com minha mãe, trabalhava feito uma moura durante às ausências do marido, que voltava “pra lhe fazer mais um filho”. Incutiu nas três filhas um horror ao trabalho doméstico que os tempos modernos ajudaram a dar sentido. Minha avó fazia almôndegas ao molho de tomate, e pronto. Sua culinária era isso. Viajava à Europa – “fazia a Europa”, lia, costurava, passava pó de arroz, enfim, cumpria com as exigências do papel feminino mas fazia questão de tirar dele o trabalho pesado. Tinha uma receita de gefilte fish e rolgales – doces polacos – mas esses eram feitos com alegria, estavam em outra categoria de atividades.

A Adélia, a segunda filha, rejeitou completamente tudo o que fosse doméstico, inclusive a maternidade. Só lá pelos 80 é que se deu conta: “Agora entendo a Carlota… Agora entendo a importância das coisas da casa.” Já falei dela em outros lugares, por hoje é só. Está bem, lá vai: passou um verão todo lendo Platão, para desespero de minha avó, que querendo ou não ajudava a mãe nas tarefas domésticas. Entrou na primeira turma de filosofia da USP. Quem diz que as famílias judias e italianas são iguais mente. As judias cozinham amaldiçoando a tarefas e se perguntanto o que fizeram para merecer esse fardo, enquanto os homens se divertem lendo a Torá.

E a Leonor, do feminino, valorizou o romance e a beleza. Que eu saiba saiu pela tangente do serviço doméstico tão bem quanto as outras duas. Por forças das circunstâncias, teve que trabalhar e se desimcumbiu muito bem na tarefa. Mas se me recordo dela com um vestido azul royal até o joelho e não com a barriga no fogão deve haver um motivo.

Mas quem era a Lea Pretzel, de quem a Leonor herdou o nome? Quem eram os pais da minha bisavó? Desses não sei nada. Desses não vou poder fazer retrato algum para vocês. Hoje, pela primeira vez, visitei seus túmulos, que foram transladados recentemente para o cemitério do Embu, tirados aqui do cemitério da Consolação, onde eles haviam sido enterrados em 1913 e 1915. Fomos no descerramento do túmulo de um amigo de meus pais, e ao final demos uma escapadinha para fuçar os túmulos dos tataravós. Pensei que haveria dezenas de túmulos, mas havia apenas uma ou duas dúzias. Esses, então, foram os primeiros judeus em S. Paulo? Wow, então nossa família veio no Mayflower, falei ao meu irmão.

Estavam lá os túmulo dos dois, e ao lado as lápides antigas, em pedra branca, como é hoje, com nomes em português e hebraico. Sei que chegaram em 1889, que tiveram um monte de filhas, algumas na Europa e outras já aqui, e que por isso o sobrenome Pretzel não vingou no Brasil. Mas devem ter um montão de descendentes, pois as filhas iam casando com imigrantes que chegavam sozinhos, como meu bisavô. Imagino que as moças deveriam ser bom partido, já sabendo bem a língua local. Mais, não sei. Vi uma vez uma foto grande dos dois, e acho que reconheceria meu tataravô se visse a foto novamente. Sei que quando meu avô se cansava de minha avó ele dizia:

“Mas você é mesmo uma Pretzel!” E é só isso que sei.