Um amigo

No ano passado me deu saudade de pessoas que não cheguei a conhecer: os amigos do meu pai. Enquanto muitas vezes minha mãe nos intoxicou com a presença de suas amigas, meu pai nesse aspecto era mais reservado. Um dia ele chegou em casa e disse que tinha almoçado no Tuí. “Puxa, no Tuí? Por que não me chamou?” Ele: “Ah, não sabia que você ia querer ir.” E ficamos assim.

Tudo começou com uma palestra na USP sobre Sergio Buarque de Holanda, onde vi um senhor que falava como meu pai. Raciocinava como meu pai. Principalmente seus gestos indicavam que aquilo era mais que uma coincidência: era coisa de turma. Vi na brochura que era mesmo um amigo de meu pai, o Nestor Goulart Reis, e fui falar com ele ao final.

Depois fomos também, eu e meu irmão, ver uma outra palestra na USP, do Eduardo de Almeida. A reação, quando nos apresentamos, é sempre a mesma. De surpresa, de alegria como se eles tivessem vendo ali na frente o amigo divertido e surpreendente que era meu pai. Puxa, o Henrique!

O filho do Tuí apareceu em casa, numa festa, e foi muito bom. “Não sei o que estou fazendo aqui, pensei no elevador subindo, mas sei que estou no lugar certo”, ele disse, e era mesmo o lugar certo de filhos de grandes amigos. Ele e meu irmão tinham ainda lembranças de brincadeiras de criança. E ficamos de nos encontrar.

Também fui na USP um dia ter uma aula com o Nestor Goulart, uma aula particular sobre São Paulo pois os livros não me ajudavam a pensar sobre o tema e achei que só mesmo uma boa aula de alguém que conhecesse as entranhas na cidade ia me resolver. Uma aula como meu pai dava.

Mas hoje pensando nesses encontros todos, percebi que aquele primeiro encontro, com o Nestor, é que foi o mais marcante. Ele disse de pé, depois da palestra, com outras pessoas querendo falar com ele: “Lembro do dia em que o Henrique veio e disse que tinha uma namorada nova, a sua mãe, lembro da animação dele!”

Minha mãe era linda.

E essa lembrança agora me tocou, não apenas por ter o Nestor, digamos, os registros do meu Mayflower, mas pela lembrança em si. Depois daquele primeiro encontro se passaram 50 anos. Meus pais se casaram, e se separaram. Minha mãe faleceu, e depois meu pai.

Mas o rosto do jovem animado com a nova namorada, presente na memória de um amigo. Isso é que me tocou.

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