Métodos e Técnicas de Pesquisa

Esse semestre, extraordináriamente, estou dando um curso de Métodos e Técnicas de Pesquisa para as Ciências Sociais, que começou hoje por conta da greve.

Para o próximo ano, além de uma matéria obrigatória, queria dar uma optativa sobre meios de comunicação. Entretanto, parece que vou novamente oferecer essa disciplina de Métodos, e isso porque um colega que vai se licenciar para se dedicar ao movimento sindical terá suas aulas dadas por substitutos, obrigação da reitoria, e outro cujo concurso recente foi exatamente sobre métodos vai dar as aulas do primeiro, cujas disciplinas teriam mais a ver com o meu concurso. Tudo bem que não ficou claro, mas é que na reunião de departamento fiquei respondendo emails e basicamente sobrou pra mim.

Mas isso são coisas de bastidores com as quais não deveria cansar o leitor. A questão é que hoje comecei a aula com a seguinte estratégia: não vou cansar o aluno. Já começamos a partida na metade do primeiro tempo, ainda esbaforidos com o jogo de ontem, então pra que forçar a barra? Eu sim devo estudar o tema, pois não tenho na cabeça o leque todo de métodos, e entregar a coisa o mais mastigado possível aos alunos de ciências sociais.

É a primeira obrigatória na vida que dou para a sociais.

Então não levei ninguém aos computadores, que sempre assusta um pouco o pessoal das humanas, e dei a aula só no blá. Não mostrei nem o programa, tentei ser light. Mas eu tentando ser light é que nem a Paris Hilton tentando ser profunda, não consigo. A pergunta da aula: “O que você queria saber antes de entrar na faculdade?”, que a mim parece um pouco singela, deixou os alunos mudos. Sim, o que queriam? Tinham perguntas? A maioria não conseguiu responder, seja por não a terem ou por já terem dois anos de faculdade a silenciado. Isso não sei. Acredito, e disse isso, que nas próximas 3 semanas a pergunta será desenterrada de onde quer que esteja, uma espécie de Amarildo da escola burocrática. Vamos ver.

Depois perguntei como é que poderiam responder a pergunta, pois é isso que estava no meu roteiro de aula, mas acabei falando das minhas perguntas e modos de responder, pois poucas perguntas haviam surgido. Enfim, o curso vai ser sobre isso, sobre como responder perguntas: técnicas de pesquisa. Vamos ver. Falei que todos somos cientistas, mesmo quem não botou isso no Lattes nem tem bolsa da Fapesp, pois todos nós desde o dia 1 estamos tentando compreender a ação humana e a linguagem, arriscando hipóteses, quebrando a cara, acertando, agindo conforme nossas descobertas e buscando avançar no conhecimento. Sabemos que “fome” é uma palavra aceita socialmente para descrever o incômodo estado em que nos encontramos quando ficamos muito tempo sem comer pois inteligentemente observamos que toda a vez que a palavra emerge comida se materializa e a sensação diminui, e a partir daí começamos nós mesmos a invocar a palavra mágica. Isso só acontece porque observamos atentamente as ações dos outros, diferenciamos nossas sensações em categorias e – maravilha humana! – aprendemos que sons convencionalmente determinados podem expressar sensações complexas e provocar ações com um alto grau de previsibilidade.

Não aprendemos isso na aula, pois sem a linguagem não há aprendizado formal possível, mas sim através da experiência, da tentativa e erro, da observações, do uso pragmático de  símbolos. E é esse processo que vamos resgatar no curso, eu disso, mais do que as técnicas propriamente ditas, que estão em manuais atualizados ano a ano.

Mas o que eu queria mesmo perguntar ao leitor é o seguinte: por que os alunos dessa turma encasquetaram com a “disciplina”? Pois a pergunta que deu o tom da aula foi: “Como enquadrar os meus interesses?” Um aluno veio me perguntar o que era sociologia da cultura, por exemplo, no intervalo. Contei para ele que no exame de qualificação na New School perguntei isso para uma colega que estudava consumo e ela respondeu: “Sociologia da cultura é o que nosso grupo faz.” Em “nosso grupo” eu estava incluída, e por aí vocês podem ver que não sou a melhor pessoa para classificar áreas de pesquisa.

Na aula mesmo uma aluna perguntou como enquadrar sua pesquisa em sociologia, antropologia, ou ciência política. Eu respondi que não ia poder ajudá-la nisso, e dei o exemplo do Scott McQuire, pesquisador super bem sucedido que trabalha na confluência de diferentes disciplinas. Disse que essas disciplinas todas, com exceção da filosofia, da história, foram criadas ontem, e que não valia a pena tentar enquadrar as perguntas nelas. Mostrei o esquema pragmatista onde as teorias são elementos da pesquisa, e não enquadramentos do saber. Nada parecia responder. Se Bion estivesse analisando a aula, me veria como uma líder surda que não tem acesso à verdadeira questão do grupo. Será que ao querer saber quais perguntas os moviam eu acabei tirando alguma certeza deles, que eles queriam que eu lhes devolvesse, com a história das disciplinas? Isso pode bem ser.

Ou será que é algo particular de Marília, que os alunos já aprenderam que o conhecimento é compartimentado, e que algo não fazia sentido no que eu dizia? Não sei. Só sei que eu esperava que na aula jorrassem perguntas as mais variadas, mas não foi isso que houve. E então temos que descobrir o por quê. É essa a pergunta do curso…

 

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