Passeio por Higienópolis

Texto curto, só para registrar…

Engraçado voltar a um bairro onde você passou a infância. Alguns lugares foram destruídos: o Pequeno Príncipe, por exemplo. Outros eram desimportantes, como a Faap e o Jardim de Napoli, e agora são lugares prestigiados. A Cultura Inglesa sobrevive, quero passar lá qualquer dia e cumprimentar o diretor, pois foi a escola que me ensinou a coisa mais útil no mundo: “The tall man is a worker. What is the tall man? The tall man is a worker.” O resto é consequência.

O Macabi fechou. Engraçado, leio todos os boletins judaicos e a coisa me passou desapercebida. A banca de jornais em frente de casa deu lugar a um ponto de táxi. De modo geral, o bairro encolheu bastante. Percebi que a Su Sacchi morava do lado do Pequeno Príncipe, do ladinho mesmo, na rua Piauí. E logo na continuação, o rabino e o presidente. Dali se vê a Pacaembu. Tenho essa lembrança patética de achar os interruptores da casa da Su muito chiques, e quando fiz a reforma pensei: agora é minha vez. Só não tinha idéia de ser tudo tão perto.

No Madri eu nunca havia ido. Nossa vida era toda pra lá, digamos; para o outro lado da Angélica. Minha avó reclamava, com razão, dos preços. Mas a localização é bastante conveniente. É tão perto de casa quanto o Pão de Açúcar da Panamericana do estacionamento ao lado, para você ter uma idéia. Achei injusta a reclamação da minha mãe de que meu pai tomava táxi quando ela ia a pé, grávida, para o Mackenzie, pois não é uma caminhada assim tão exaustiva.

Talvez também sejam muito próximas as casas da Pinheiro e da Cloretti, atravessando a Pacaembu, e do Luciano e da Beatriz, do outro lado da Almirante. Da cara da Beatriz não me lembro, mas adorava o nome. E o apartamento da Evinha na Tupi, que depois foi morar em Caraguá. O Messias, claro, não tem mais a relojoaria, nem a Vó Fanny mora na Albuquerque Lins. Mas ficou tudo muito perto.

O mundo era numa Variant azul marinha ou num Fusca branco, ou nas Veraneios caramelo dos amigos da escola. Então não tinha como eu me dar conta da proximidade, ou até da unidade do bairro. A Vila Boim ficou chique. Há até livraria, com livros de autores cujo sobrenome começa com K, que nunca são má pedida. Os lugares pareciam todos independentes um dos outros, quase distantes. Mundos.

Na Albuquerque Lins meu pai dava a ré, e o carro fazia um barulho distinto. Talvez nas outras ruas nem se precisasse manobrar, mas lá já havia muitos prédios e carros. Então eu associei o barulho da ré à rua. Era um lugar específico, com seus barulhos, e depois a água de bolinha do tio Gilberto. Havia o interruptor chique da Neringa, a mãe da Su. Onde morava a Fernanda? Eram ilhas.

Ilhas que hoje, com minhas sobrinhas, comprando bobagens em uma loja ou outra, procurando onde afinal mora o ex-presidente, deixando a risada adolescente para quando chegássemos em casa, fui conectando a pé, como quem brinca de ligar os pontos naqueles desenhos que vinham nas revistinhas em quadrinho.

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2 respostas em “Passeio por Higienópolis

  1. E do caminhão de Coca-Cola desabando na Angélica, quase pegando nós quatro, o Rô e o Má? E a mercearia na Martinico, onde agora é o entrega-pizza do Jardim de Napoli? Os estudantes da Faap medindo enternamente as colinas do Pacaembu?

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