Mito

Vou contar essa história uma vez mais, à moda das histórias bíblicas. É minha única história onde ocorre uma espécie de milagre, pois eu não tenho o olhar religioso muito aguçado. Talvez, pensei hoje, minha religião resida aí, nessa história. E talvez a religião em geral resida nos mitos, e esses em histórias muito concretas que nos impressionaram. Mas isso já não é da minha alçada.

Resumindo, pois já contei a história antes, meu pai num dia de mudança como hoje disse que não havia sido um bom marido para a Rosa. Eu devia ter dito que ele pagou a Hebraica a vida toda e ainda lhe deu um Fusca branco, que mais pode querer uma mulher? Mas o tom dele me pegou de surpresa, e ficamos falando das coisas que ele fez e não fez, do que minha mãe esperava e não esperava.

Meu pai começou nessa época a falar da Rosa, como se de uma hora para outra tivesse se dado conta de uma ausência inexplicável. Uma peça de roupa que você sempre achou que estava no armário e quando precisou não sabia onde tinha ido parar. Aí antes de uma viagem minha para os Estados Unidos, eu disse que ia ao cemitério e ele me surpreendeu querendo ir junto. Até a Terezinha nos acompanhou.

No caminho, brincando, pediu que quando morresse fosse enterrado junto com a Rosa. Quando de fato morreu, repeti o pedido ao meu irmão, um pouco me desculpando pois meu irmão podia achar que eu estava inventando, porque meu pai não era de pensar nessas coisas. Mas ele havia feito o mesmo pedido para ele, e assim foi.

No dia do do enterro, eu que sempre achei o lugar bem besta, como se as pessoas que estão tão vivas na minha memória ali só de pirraça insistissem em não dar as caras, vi minha mãe sorrindo finalmente. É esse o milagre, até singelo, perto do mar se abrir, dos mortos ressuscitarem e coisa e tal.

Mas é o meu mito, que cultivo com muita devoção, enquanto rio dos mitos dos outros. Cada um, como diz Sergio Buarque de Holanda, com sua capelinha assim bem pequenininha só pra si. Cada um com seu mito.

O papel que ele tem na minha vida, positivo ou negativo, só eu sei. Ou melhor, descobri hoje, voltando do supermercado, subindo na Martinico. Providencial a gorjeta generosa que dei aos funcionários do Jardim de Napoli quando cheguei à tarde, descarregando minhas últimas tralhas, pois agora à noite eles me desejaram – acho que de coração – as boas vindas à rua.

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