A Ética na universidade?

Nessas duas semanas, participei de 3 bancas aqui em S. Paulo: uma de monografia, uma de qualificação para o mestrado e uma de mestrado. E os três trabalhos, que começaram com questões distintas, desembocaram na ética. Será que essa geração está querendo respostas para os critérios que guiam a conduta humana, sem assumir de antemão que já sabem o que constitui um bom cidadão? Se for isso, estamos nós, na universidade, abrindo espaço para esse tipo de reflexão, que me parece crucial, ao mesmo tempo antiquíssima e inovadora? Fica a pergunta ao leitor; vou falar aqui apenas dos trabalhos em si, com destaque para aqueles que, como orientadora, acompanhei mais de perto.

Participei da defesa de mestrado da Ester MInga, na PUC, apenas como membro da banca. Ela partiu de uma comparação entre as práticas e dilemas dos primeiros jornalistas modernos e os de hoje, dentro e fora das redações dos jornais, para entender as transformações profissionais de hoje. Essa comparação poderia ter sido feita a partir de vários ângulos: a economia, a profissão, o impacto na esfera pública, etc. E, de fato, ela fala no trabalho de todas essas questões. Mas na fala o que se sobressai é: quem é o jornalista hoje e o que ele deve fazer? Antigamente, nos Brasil e nos EUA, o tal “que se deve fazer” era mais uma exigência de agência de fomento do que uma preocupação em si. O fundamental era analisar, esmiuçar, até mesmo julgar. “Fazer a crítica”, digamos.

Mas a Ester estava genuinamente preocupada com os rumos da profissão. Com o lugar do jornalista. Com a sua conduta. Enfim, com a questão ética que as transformações sociais e tecnologicas colocam para ele enquanto cidadão.

No caso da Cinthia, minha orientanda de mestrado que fez seu exame de qualificação no moderno prédio do IA da UNESP, na Barra Funda, sua questão original tinha um caráter econômico: as razões da migração nordestina para o interior de S. Paulo, em meados do século XX. Depois de compreender melhor as questões mais amplas que a inspiravam, sugeri que ela estudasse a construção da memória para aqueles grupos e foi isso que ela fez, com a delicadeza que tem como pesquisadora. O texto é muito rico, impossível resumir num post a vida do Seu Manuel Bahia, os terços (festa semi-religiosa), a sanfona e todo esse mini-nordeste que faz parte não só da pujança de nossa capital mas também da diversidade de nosso interior querido.

Mas na fala da Cinthia na qualificação se destacou um aspecto das narrativas dos mais velhos: a questão ética. A memória, precária ou intacta do Nordeste e da migração, ganha o sentido de ensinar como a vida é, como devemos fazer para aguentar sua dureza e nos mantermos intactos. Enfim, a memória a serviço do ensinamento, que é um tema tão batido para os judeus que, ouvindo a Cinthia falar dos avós entrevistados, tem seu sentido revigorado. A memória não é “identidade”, mas sim uma certa humanidade, um certo pertencimento que não se dá às custas do outro mas sim para ser gente. O que é tantas vezes tão difícil, seja nos momentos de ruptura ou de continuidade.

Não posso deixar aqui de agradecer as falas dos colegas Luis Krausz e Toni Braga, apontando caminhos e textos que apenas o orientador não consegue fazer. Luis, com sua erudição, lembrou-nos dos contextos maiores das migrações, da entrada de populações rurais nesse mundo às vezes aberrante do “progresso”. E o Toni lembrou a Cinthia de que ela deve usar a sua particular sensibilidade de modo consciente, estratégico, extraindo informação e ao mesmo tempo respeitando as falas daqueles que não “eles” mas também “nós”. Pois o desafio da Cinthia é de fato transitar entre esse mundo que é dela mas que também é objetivado pelo discurso acadêmico.

(Parêntese para economistas: uma regularidade que a Cinthia encontrou nas respostas dos entrevistados é que eles tinham vindo para o Sudeste pois “estava todo mundo indo”. A seca, a fome, nada disso é mencionado. Ora, talvez de fato a seca tenha afetado muito poucos. Talvez o principal fator “macro” tenha sido o fato de que “estava todo mundo indo”, e quem conhece Krugman sabe do poder que esse fator tem na determinação da atividade econômica.)

Também tive a felicidade de fazer parte da banca, como orientadora, da monografia do Pedro Vasconcelos sobre as transformações no trabalho do advogado brasileiro com a massificação empresarial e tecnológica das empresas de advocacia. Novamente, a questão surge da preocupação com o trabalho do advogado, que deixa de ser um profissional autônomo para sofrer um processo de proletarização. E o Pedro traz um descrição detalhada de todos os aspectos dessa transformação, que não posso resumir num post. Mas, como nos outros trabalhos, a investigação sobre os processos sociais desemboca na questão ética: como o trabalho está se transformando? Como o advogado pode continuar servindo a justiça mesmo numa empresa? Quem é, afinal, o advogado de hoje e quem ele deve ser? E aqui também não posso deixar de mencionar a contribuição do colega José Blanes e da advogada Susanna Stern, que me ajudaram muito a compreender o contexto e significado do trabalho do Pedro.

É isso. Menos que juízos de valor, estamos fazendo perguntas sobre valores. Gostei.

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