Haifa, dia 16

Comprei presentes brasileiros para meus anfitriões aqui, e entre eles uma peteca com penas da cor da bandeira do Brasil. Na hora de fazer as malas me perguntei: quem vai querer uma peteca? Mas a minha amiga que se refugia na aldeia drusa entenderia o presente. Alegria, ingenuidade, cor. Fomos para a praia hoje, e dei a peteca. Ela realmente adorou. Contei de meu pai, “Por que você não vai para paris?” e ela disse que seu pai disse a mesma coisa quando ela resolveu vir para cá. Pais falando por que você não vai para Paris? E falamos da vida, de tudo. “pelo que vocês brigam no departamento?” pelas mesmas coisas do que em todos os lugares, ego, visões teóricas. Nem conflito palestino nem nada. Brigas de departamento, universais, princeton, yale, unesp, haifa. Gente. Escuta, posso te perguntar uma coisa: que cidadania eu teria se tivesse nascido em Bethlehem? “Sabe que eu não sei. Como eles fazem quando vão para o exterior? Não sei, nunca pensei nisso.” Pois eu se tivesse nascido em Bethlehem ia lutar por um passaporte. Qualquer um, mas um passaporte. E o resto que fosse para o espaço. Mas não nasci em Bethlehem.

Depois almoçar com israelenses, reunidos numa sala que dá para uma varanda gostosa. Histórias mil, comidas. Uma das convidadas conhecia a antecessora da minha amiga no departamento. É um país pequeno. É uma vila. Os filhos dela adoravam os pais dessa outra professora, eram avós substitutos, moravam perto. É uma aldeia. Meu nome é Hait, alfaiate. Nome comum aqui. Raiat. Aldeia. Um outro comentário me levou para longe, uma amiga do meu irmão que conheceu minha mãe. 1988. Julho. Levou como um soco, engraçado como essa viagem está virando um conto, as histórias se fecham uma a uma, se conectam, se sintetizam. Ah, encontrei um presente para a Renata. Ela me pediu, ironicamente, uma garrafa com ar de Israel, tirando sarro dos judeus exagerados com sua admiração a Israel. Eu disse que ia trazer areia de Tel-Aviv, mas essas pedrinhas de Haifa são mesmo super bonitas.

Agora é hora da siesta, à noite talvez escreva mais. Falei das bandeiras? Bandeira em tudo lugar, mas que nos EUA. Minha amiga: bandeira pois ainda não se convenceram de que isso é um país. Pode ser, mas de qualquer forma é muita bandeira, sem copa do mundo nem nada. Bandeira na praia, bandeira nos carros, nas janelas. Esfarrapadas, novas, de plástico, de tecido, grandes pequenas. havia outras propostas, veja na internet procurando em canaanism. Mas ficou essa, azul e branca. Eu acho bonita, mas foi essa que sempre vi, então não sei avaliar as outras.

Conversa por skype com a tia Guita, que adorou meu chamado. Você está brincando comigo, está aí mesmo? Perguntou como era tudo aqui, falou de primos em Israel. Deu o nome, disse que seria fácil encontrar. Israel. Depois da siesta, cinema francês numa cinemateca, gente mais velha, às vezes tenho a impressão de que há uma separação geracional nos lugares públicos, maiores que em outros lugares. Filme muito monótono, fomos embora. Aquele da carteira, talvez seja melhor com legenda em português, não sei… Conversa com meus anfitriões, comer falafel, ver a vista de Haifa, do topo do Carmel. Me despedi dos anfitriões, lembravam do meu irmão, alguns da minha sobrinho. Emotivo. Quero férias. Quem sabe, se eu encontrar em Tel-Aviv uma bela piscina não me recupero um pouco?

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5 respostas em “Haifa, dia 16

  1. Dos detalhes não sei. Mas a situação dos trabalhadores e refugiados aqui é complicada. Conversando com as pessoas que conheci, a idéia é que o país é pequeno, já se gasta um monte de dinheiro recebendo os refugiados judeus e não dá pra resolver os problemas da humanidade. Mesmo que não seja pior do que em outros países, e mesmo que seja até melhor (do que o de trabalhadores na região certamente é), pois tudo o que acontece aqui é visto com lente de aumento, a verdade é que a idéia base do país não é a land of opportunity. É um lar para os judeus. Com tudo o que isso tem de bom, e com tudo o que isso tem de ruim. Esse é o cimento da sociedade.
    Eu acho que para ver os detalhes seria melhor o Haaretz.

  2. Pra v. ter uma idéia da mishigas aqui, esse artigo ilumina um pouco. http://www.haaretz.com/news/national/shas-chair-absence-of-conversion-law-poses-danger-to-jewish-people-1.302602
    Sabe aquele papo de porta de sinagoga, você jejuando e não tem mais nada pra fazer, fica fofocando quem é judeu, quem é convertido, quem é judeu mesmo, quem é pela família mas não é de verdade, etc., depois você come e esquece tudo? Pois é, aqui é lei, os caras levam a sério, os americanos ficam chateados, uma loucura.

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