Helenira Resende

Ontem recebi um email do DCE “Helenira Resende” da Unesp. Helenira foi uma estudante da USP e militante do PC do B morta no Araguaia, diz a Wikipédia pois um nunca havia ouvido falar do nome. O email pedia apoio a um manifesto contra as punições da Unesp aos estudantes grevistas.

No mesmo dia, recebi também um email de um professor da Unesp contra quem agressões de estudantes motivam uma sindicância. Veja a matéria na Globo. Não sou de ficar no muro, vocês sabem, mas concordo com os dois manifestos. Acho um absurdo que a reitoria negocie com estudantes para depois penalizá-los quando o movimento se desfez; ao menos é isso o que diz o manifesto estudantil. Também acho um absurdo que agressões a um professor, feitas apenas porque esse professor estava em sala de aula dando aula – o que aliás é seu dever profissional – passem em branco.

Eu realmente tenho vontade de assinar as duas petições, mas queria explicar por que. Acho que o dever de garantir que os professores dêem aulas é da gestão universitária. Reitores, diretores, mesmo chefes de departamento, ganham salário adicional para fazer isso. Nós, professores, temos a obrigação de dar aulas. Podemos até ajudar em gestão, fazendo parte de comitês, mas a garantia do funcionamento adequado das instalações não é nossa função.

A greve começou, na minha opinião, pois a comunidade não sente que tem voz nos campi. Os mais radicais a fariam de qualquer modo, mas o grosso dos estudantes não teria se juntado a ela se se sentisse parte da comunidade, tanto no plano acadêmico quanto no plano político. Essa é minha avaliação. Processos formais de decisão e comunicação face-a-face e pelos novos meios são obscuros e precários, o que gera frustração principalmente entre os professores, que acaba contaminando o ambiente estudantil.

Além disso, nunca entendi concretamente como os estudantes tinham chaves das salas de aula, quando eu quando preciso de uma tenho que assinar papéis e implorar aos funcionários. Então dizer que a greve foi tão-somente estudantil “doesn’t ring true” para mim.

Os gestores não fizeram nada para garantir que os professores pudessem dar aulas. Eu mesma, como sempre, fui dar aulas na cantina da instituição de ensino superior adjacente, o que já está até no meu programa de curso. Não há um plano de emergência quando há uma ameaça de greve. Uma coisa simples seria convocar todos os administradores (chefes de seção de funcionários, chefes de depto, coordenadores de curso, etc.) para em massa irem à faculdade e entrarem para as aulas, acompanhando professores que também seriam instados a irem para as salas de aula. A prática, ao contrário, é já aceitar a greve e marcar reuniões de depto no horário das aulas “já que vai ter greve”. (Eu já tive que me desdobrar entre aula na cantina e reunião em horário de aula!)

Eu acredito que uma administração responsável deveria:

1. implementar meios de comunicação, face-a-face e virtuais, dentro da comunidade.

2. garantir transparência nos processos de decisão internos

3. incorporar professores e estudantes nesses processos

4. em situações em que 1, 2 e 3 falham, e há greves, ocupações e protestos, convocar toda a gestão universitária e conclamar a comunidade para garantir o funcionamento da instituição

5. penalizar os gestores que não realizam 1, 2, 3 ou 4.

6. penalizar os membros da comunidade que agridam outros membros apenas por manifestarem opiniões diversas ou exercerem as funções para as quais foram contratados.

É isso o que acho. Sei que não será muito popular, pois não é uma opinião que se enquadra em categorias conhecidas, tipo esquerda, direita, progressista ou reacionário. Mas, no final, o que vai acontecer é que a agressão ao professor ficará impune, gerando medo de entrar em aula nas próximas greves, e os alunos serão intimidados, gerando medo de se manifestar nos próximos conflitos. Não sei pra quem isso é bom, mas é o que vai acontecer.

 

 

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2 respostas em “Helenira Resende

  1. Os gestores usam o discurso (anti) lei e ordem para não fazer nada: “mas o que eu ia fazer, chamar os meganhas?” O que eu proponho é simplesmente ir lá no campus, acompanhar os docentes que querem dar aulas, impor-se não pela força, mas pela autoridade e pelo número. E, claro, escutar quem tem demandas, reclamações, sugestões, petições, manifestos, pois essa escuta é o que a maioria dos estudantes quer.

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