Um nome errado

Num post no twitter disse que às vezes as relações entre as pessoas são tão fortes que até doem na gente. Os laços, as vidas, as expectativas que temos uns dos outros.

Hoje continuei pensando no meu nome. Minha tia Guita me chamou de Silvinha. Mas não apenas trocou o nome. Disse meu apelido engolido na frase e o da minha prima como vocativo. Depois se corrigiu: Silvinha! (imagine) Lô. (isso sim) Então no total ficou Lô Silvinha Silvinha Lô.

É tão comum.

À tarde uma amiga me visitou. E trocou meu nome pelo da sua filha umas tantas vezes. Não comentamos, pois é uma confusão tão visceral que era melhor não falar dela.

Na faculdade, uma época, uma colega me chavama de Isabel. Eu passei a atender pelo nome de Isabel, envergonhada se me vissem fazendo isso. Mas eu ouvia alguém chamar pela Isabel e sabia que era comigo, ia fingir que não era?

Tudo porque meus pais erraram meu nome. Duas pessoas incrivelmente inteligentes, me deram o nome errado, não dá pra entender. Pensaram em Ruth, e em Mara. Mara, alguém disse, é nome de puta. Descartaram. Ruth, acho, descartaram por ser muito judeu.

Sou da geração dos Arnaldos e Sérgios, nomes anódinos, depois das Faigas e antes das Tamaras – do resgate do orgulho hebraico. Mas com meu irmão acertaram, porra! Felipe é um nome decente!

Heloísa, não quero nem saber dos detalhes, é o nome de uma freira que tinha um tesão por um padre. Ah, menos, vai. Helô Pinheiro ainda vai, Eloísa Mafalda… Heloísa poderia ser a professora de piano do Pequeno Príncipe, e eu ser a Dona Berenice.

Quando perceberam o erro não sei. Só sei que nunca me chamaram de Heloisa. Eu tinha um nome instável que ia mudando conforme o tempo passava. “Como teu pai de chamou?”, me perguntou um namorado. “‘Lô’, meu apelido em casa é ‘Lô’.” “Não, foi outra coisa.” “Ah, Guga. Meu pai me chama de Guga…”

“Fi…”, eles às vezes começavam, querendo chamar meu irmão. Aí viam que era eu que estava por perto e, sem disperdiçar a sílaba, “…lha!” Assim que me chamavam. Popinha. Heloisa mesmo, uma vez no corredor, numa briga com minha mãe, e no casamento de meu irmão nos Estados Unidos, pelo meu pai.

Um amigo meu me chamava de Pizza. Isso na faculdade, depois da era dos apelidos, Poste, Poste Elétrico, Crustáceo, não estou falando dos apelidos de criança. Estou falando dos meus nomes.

Minha avó me chamando de Rosa. Minhas sobrinhas de mamãe, e depois de papai.

Nunca esqueço o nome da namorada de um amigo pois é esse o nome pelo qual ele me chama no momento.

E depois a história da Paia, que ao que tudo indica é meu nome judaico que ninguém se deu ao trabalho de me informar. Que vai virar esse romance que estou escrevendo: O Verdadeiro Nome de Paia Pait.

Por que Paia e não Rebecca, que é um nome maravilhoso de uma personagem super forte da Bíblia, eu não sei. Mas foi Paia mesmo, nome da minha bisavó, uma verdadeira beldade romena. Linda e saudável como um susto num beco escuro.

Heloisa. O nome que meus amigos me dão é mais fixo, Helô. Helô até que é decente, até que me identifico. Quando me chamam de Helô relaxo, quem me chama de Helô tem uma certa aceitação dos meus defeitos, não me leva tão à sério: Decão, Toni.

Não que seja de todo mal essa maleabilidade. Me sinto como a personagem de Sem eira nem beira, de Agnès Varda, que ia virando o que as pessoas que encontrava queriam. Uma página em branco.

No fundo, é um privilégio ser a Silvinha, a mãe, a filha, de quem não sou nem mãe nem filha nem Silvinha.

Ter esse nome sem significado e maleável.

Só os homens nunca trocaram meu nome. Nunca fiquei indignada com alguém me assoprar na orelha o nome de uma prima desejada ou de uma antiga namorada. Sempre Heloisa, Heloisa. Sou, para eles, essa coisa até bonita, Heloísa, que não se acomoda a nada nem se confunde com ninguém. Nem comigo mesma.

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