Vamos às ruas em 13 de março!

No domingo, dia 13, haverá uma nova manifestação a favor do impeachment da Presidente Dilma Rousseff.

Eu vou.

E convido você a vir também, seja em São Paulo, em outra cidade do país ou no exterior. Por que essa manifestação é importante?

Estamos vivendo uma crise sem precedentes no país. Eu vivi a recessão dos anos 1980, mas naquele momento havia o contrapeso do otimismo com a saída dos militares. A crise política dos anos 1960 foi de fato tenebrosa, mas a economia não estava tão mal. A única coisa que se assemelha ao que estamos vivendo é a crise dos anos 1930 na descrição de minha tia Guita, de gravidade ampliada por questões familiares.

O governo federal, em boa parte alvo de investigações criminais, está inoperante no que diz respeito à população, com esforços concentrados apenas no salvamento de algumas figuras, com e sem cargos públicos, de importância para a presidente. Seu afastamento pelo Congresso Nacional não se deu não por falta de provas, mas apenas porque boa parte dos congressistas deve favores ao mesmo esquema ilegal investigado.

Se no governo, diria minha avó, estão umas “boas biscas”, na oposição são “uns espertalhões”. Talvez por grande fé na juventude e no que chamam de pleno funcionamento das instituições, delegaram a condução política do país a um juiz e um vestibulando. Senadores de prestígio propõem hoje projetos para proteger instituições já falidas como o BNDES e a Petrobrás, pensando na posteridade e alheios à crise atual.

No passado, os artistas foram as vozes de protesto. Hoje, estão todos, com poucas exceções, comprados pela Ancine, pelas Estatais falidas e por leis bem intencionadas que tiveram o resultado de pôr de joelhos a vibrante cultura brasileira. Como dizia Plínio Marcos (https://youtu.be/GeVBi9yS4O4?t=1m32s), o dinheiro cala mais que a censura. Sobre os intelectuais, prefiro não me pronunciar, por profunda vergonha da classe.

Por tudo isso, cabe a nós nos juntarmos ao vestibulando e apoiarmos o juiz, pois por mais bizarro que isso pareça, o futuro do Brasil está nas mãos dos que o fizerem.  No dia 13 de março, vamos mostrar que queremos o avanço das investigações da Lava Jato com autonomia. Vamos dizer que apoiamos os congressistas que votarão pelo impeachment. Vamos fazê-lo com serenidade e firmeza, como temos feito em todas as manifestações.

O impeachment nos trará Michel Temer à presidência, sem abrir o perigoso precedente de uma cassação de mandato por um mero tribunal. Temer é um bicho político que vive na democracia; fora de suas articulações e negociações, não sobrevive. É um democrata, portanto, por convicção talvez mas certamente por necessidade. Sabe ouvir, compor, propor e aprovar. Tem compromissos partidários, mas não lealdade a criminosos, como quem ocupa hoje o cargo. É o que o país precisa hoje.

O Brasil, nos próximos anos, vai precisar fazer uma Nova Transição. Sem malabarismos, sem revoluções, sem reformas espetaculares, mas vai precisar voltar à economia de mercado, de onde saiu nos últimos anos. Vai precisar de uma renovação partidária. Vai precisar resgatar a auto-confiança, perdida nos últimos meses. Vai precisar de políticas públicas efetivas que partam de um Estado desaparelhado. Essa Nova Transição começa agora, no dia 13 de março.

Por isso convido a você que se junte à grande manifestação na Paulista ou a outras pelo Brasil e pelo mundo!

Vou fazer esse convite pelo Facebook também, e peço perdão se você não gosta de política, apoia o governo de Dilma Rousseff, ou acha que o impeachment não cabe nesse caso. Se você é meu colega de trabalho ou ex-aluno, também me desculpo pois não gosto de misturar trabalho e política. Se você é meu aluno, peço que ignore esse convite e aproveite para me unfriend no Face para evitar novos convites, pois a relação professor-aluno deve ficar longe da política.

A Patrulha Ideológica

O patrulhamento ideológico é um fato da vida brasileira. Nossa herança inquisitorial se faz presente em vários momentos da vida nacional e convive com as instituições democráticas que garantem a livre expressão. Seria de se espantar, na verdade, se a universidade estivesse imune a essa tão arraigada herança colonial, com sua suspeita do diferente, sua condenação moral da heresia e sua exigência de fé inconteste. Entretanto, devemos sempre lembrar que a universidade brasileira também é filha dos desejos de liberdade, da busca do conhecimento e de uma vida melhor para todos. Aqui vão algumas recomendações para lidar com a patrulha.

Em primeiro lugar, não faça patrulha! Isso é fundamental. Se seu colega gosta de pintar o cabelo de verde e você acha ridículo, guarde sua opinião para si: o cabelo é dele e sua cor não lhe afeta. Se ele perguntar, diga polidamente o que pensa. Se ele diz acreditar em Objetos Voadores Não-Identificados, o problema também é dele. Você pode argumentar que esses fenômenos podem ser explicados cientificamente, mas em última instância ele tem o direito de acreditar no que quiser e continuar sendo respeitado como ser humano pelos que o cercam. A patrulha ideológica é uma verdadeira praga no ambiente cultural e científico, abafando o debate e excluindo vozes relevantes. Não compactue.

Entre nos debates com confiança nos seus interlocutores, apostando no entendimento comum e no enriquecimento dos argumentos que o diálogo franco e profundo traz. Exponha suas idéias, questione a dos outros, busque novos argumentos, organize debates, enfim, use os anos universitários para se aprimorar na escuta dos argumentos dos outros e na elaborações dos seus. Esse é um treino para a vida. Exponha-se nas redes sociais, com seus amigos e colegas, e esteja aberto também para ouvir e aprender com os outros. Na sala de aula, ouça com a máxima atenção o que seus professores e colegas dizem e apresente suas idéias de modo respeitoso.

Isso não quer dizer tolerar tudo e achar tudo lindo. Se algum colega age ilegalmente, afaste-se dele imediatamente. Isso não é patrulha, é bom senso. Você não é polícia e não tem a obrigação de fazer denúncia, mas começar sua vida ao lado de criminosos é péssima idéia. Uma coisa é a liberdade de pensamento. Outra coisa é infringir as leis. Ocorre que entre as duas há um universo de práticas que podem ser anti-éticas mas são comuns, tais como colar na prova. Não seja conivente com tais posturas mas lembre que é atribuição do professor identificar plágios. Em suma, afaste-se de gente que tem condutas fora da lei ou anti-éticas e seja tolerante com idéias e estilos de vida distintos dos seus.

Caso você esteja sentindo hostilidade no debate ou discriminação por suas idéias, procure descrever objetivamente o que está acontecendo. Um debate acalorado pode ser normal, e um professor que expõe suas idéias em aula pode não querer impô-las a você. Avalie se está diante de patrulhamento mesmo ou apenas participando de um debate honesto porém acalorado. Veja se há indícios concretos de patrulhamento, i.e., imposição de idéias mediante coação física, exclusão do grupo social ou coação institucional, tais como atribuição de notas e obtenção de bolsas a partir de critérios espúrios. Parece algo simples, mas o mero fato de sentar e escrever o que está acontecendo vai organizar sua experiência e ajudar você a refletir sobre ela de modo racional.

Caso se trate apenas de debates acirrados, prepare-se melhor e enfrente, buscando mais argumentos e mais informação. Com coragem, altivez e preparo, continue se fazendo ouvir! Caso o sarcasmo nos debates, a retaliação na esfera social e os ataques pessoais sejam sistemáticos, aí você está diante da patrulha e precisa pensar no que fazer. Em primeiro lugar, busque informação. O que está acontecendo está dentro da legalidade, ou seja, as leis do país protegem esses atos ou os condenam? Pois às vezes temos a impressão de que a universidade se encontra num mundo paralelo, mas isso não é verdade. Todas as leis do país valem nos campi universitários também. Busque se inteirar do estatuto de sua instituição e do seu código de ética, mais exigentes quanto ao respeito e a normas de conduta do que as leis universais. Em resumo, busque compreender o marco legal e institucional do seu ambiente. Busque também se informar sobre as profundas raízes inquisitoriais nacionais, lendo sobre a Inquisição, sobre os períodos de exceção republicanos e sobre as patrulhas ideológicas contemporâneas.

Caso, no seu entendimento, o que está acontecendo com você ou com algum colega é reprovável de acordo com as leis do país e as normas de sua instituição, então é hora de agir. Você pode buscar uma solução individual, tal como afastar-se daqueles grupos patrulhadores e buscar o seu universo de interlocutores. Não é sua obrigação melhorar a vida acadêmica, e você não tem que “curar” ninguém da patrulha; isso é tarefa dos professores e gestores. Simplesmente deixar a patrulha falando sozinha pode ser uma ótima alternativa. Considere.

Caso precise conversar com alguém para obter apoio ou para compreender melhor o que se passa, busque professores e gestores em quem tem confiança. Seja objetivo sobre os fatos e deixe claro o que espera deles, se quer apenas conversar ou se quer que eles encaminhem a denúncia. Não use a questão da patrulha de modo leviano, para justificar dificuldades no curso; isso pode prejudicar quem realmente está enfrentando o problema. Fale também com seus pais e familiares. Um olhar de fora pode ser importante para avaliar a dimensão do problema e traçar estratégias para enfrentar.

Caso o problema esteja não apenas dificultando o livre debate, mas prejudicando o seu desempenho acadêmico, aí considere fazer uma denúncia formal, por escrito, ao comitê de ética de sua instituição, se houver, ou aos dirigentes de sua instituição, sejam os dirigentes locais ou ao dirigente máximo. Você também tem direito de fazer valer seus direitos através de mecanismos legais; peça orientação a um advogado que vai orientar você quanto aos custos e benefícios de uma ação legal e aos órgãos aos quais deve recorrer.

Considere também botar a boca no trombone, se você se sentir confortável com isso. Descrevendo de modo objetivo o que aconteceu e quais as consequências para você, e publicando em seu blog e enviando aos jornais, você pode estimular o debate sobre a patrulha e acabar promovendo uma discussão saudável sobre a qualidade do debate público. Cuidado em seus texto para não cair em armadilhas, demonizando grupos ou pensamentos você mesmo: seja objetivo quanto aos fatos e as consequências. Claro que entrar no debate público tem um custo, mas o benefício pode ser alto. Caso você encontre respaldo no seu Centro Acadêmico ou em professores, considere participar da organização de um ciclo de debates sobre o assunto, o que pode sinalizar à comunidade acadêmica quais as normas de uma conversa civilizada.

Em último caso, considere pedir transferência para outro curso ou faculdade, pois ninguém merece ser discriminado apenas por pensar ou ser diferente. Também há um custo, mas se a situação for intolerável não há por que se submeter a ela. Ou seja, a patrulha não deve ser aceita como um fato natural da vida acadêmica. Não patrulhe, não se deixe patrulhar.

A cidade das moedas: idéias sem pesquisas

Escrevo sem pesquisar na internet, só pelo que me contou o Geraldo Paiva, em sua banca da República onde vende pedras brasileiras. Vale a pena pelas histórias, independente do preço da mercadoria.

Que sua avó era filha de uma negra e de um homem de terras em Minas, e portanto tinha alguns recursos. Que em sua casa sempre tinha muitos negros, a quem ela ajudava com comida, com abrigo, gente que a abolição deixou sem terra nem trabalho.

Mas o Senhor Geraldo sobretudo contou da cidade de Freguesia de São Caetano da Moeda Velha, que ganhou autonomia no ano da morte de Getúlio Vargas. Que é bom ir para lá no terceiro domingo de agosto, quando há uma festa religiosa e a cidade fica cheia e bonita.

Que a cidade tem esse nome por conta de negros escravizados que trabalhavam no garimpo, mas que desviavam parte do ouro mata adentro, onde chegaram a ter uma fundição. E que o Rei descobriu a fundição e acabou reprimindo a empreeitada.

Mas até aí já havia uma vila, a vila da Moeda. Geraldo me garantiu que a história é essa, ficou até um pouco indignado com meus pedidos de detalhes. “O homem sempre roubou,” ele disse e anotei em meu bloco eletrônico, como se fosse algo a ser confirmado ou rejeitado por investigações futuras.

O homem sempre roubou. Roubou a liberdade do outro, que roubou o ouro do outro, que teve a empresa roubada pelo outro, que depois ficou à mercê da bondade da avó de Geraldo, pulando aí um bom século, talvez roubado também.

Liberdade acadêmica

Pronto, só faltava essa. Vou oferecer essa disciplina https://dl.dropboxusercontent.com/u/19342644/Programas/Methodos.pdf e o depto enviou esse email para mim.

—– Mensagem encaminhada —–
De: valeria verissimo
Para: …
Enviadas: Fri, 25 Sep 2015 12:52:44 -0300 (BRT)
Assunto: Email sobre planos de Ensino

Querida, vc pode, por favor, ler o texto e palpitar e alterar se for necess&aacute;rio.<br>Envie para a Heloisa, com c&oacute;pia para:<br>Lu&iacute;s Antonio, Poker, Giovanni, Rodrigo, &nbsp;Andreas (titulares), La&eacute;rcio, F&aacute;bio, Marcelo Totti e Ant&ocirc;nio (suplentes). Vc acha bom mandar para todos?<br>Um beijo e obrigada.<br>Va.<br><br><br>Prezada Prof&ordf; Heloisa,<br>&nbsp;<br>Vimos, por meio deste, informa que o conselho departamental deliberou pela realiza&ccedil;&atilde;o de uma reuni&atilde;o entre os professores para que fossem discutidos os planos de ensino das disciplinas que o DAS &eacute; respons&aacute;vel. Nesta mesma reuni&atilde;o, em an&aacute;lise do plano de M&eacute;todos e T&eacute;cnicas de Pesquisa, constatou-se a necessidade de ouvi-la em rela&ccedil;&atilde;o ao respectivo plano, pois ele n&atilde;o atende &agrave;s necessidades do curso e a sua ementa. Os professores que comp&otilde;em o Conselho remarcaram a reuni&atilde;o para a pr&oacute;xima quarta-feira &agrave;s 16h00, na sala 65 do pr&eacute;dio do Departamento. O objetivo destas conversas &eacute; buscar uma maior adequa&ccedil;&atilde;o ao conjunto das disciplinas que o DSA &eacute; respons&aacute;vel, e que resulte em uma maior qualidade aos cursos de Ci&ecirc;ncias Sociais e Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais.<br>Gostar&iacute;amos, ainda de lembrar, que as aulas do segundo semestre j&aacute; come&ccedil;aram e que se faz necess&aacute;rio a presen&ccedil;a dos professores nas atividades did&aacute;ticas e outras de responsabilidade do corpo docente, sendo assim a presen&ccedil;a dos professores na faculdade &eacute; de fundamental import&acirc;ncia.&nbsp;<br>Conselho Dertamental – DSA.<br><br><br>&nbsp;<br>

Partidos, Estado e transparência: uma idéia simples

Aqui vai uma proposta para aumentar a transparência partidária. O foco não são os partidos que vêem o Estado como fonte inesgotável de recursos para seu projeto de poder. O foco são os partidos que podem fazer oposição mas capturados por interesses provincianos deixam a desejar em sua atuação. O objetivo é aprimorar a relação entre sociedade e partido. Ah, mas e o voto distrital? Sim, o voto distrital. Ah, mas e os fundos partidários? Sim, o fundo partidário. Há mil propostas na mesa, mas essa é simples e faria um reboliço, acredito.

Resumo: cruzar dados de funcionários públicos (nomes e RG públicos) e filiados a partidos (nomes e título eleitor públicos) para obter proporção de funcionalismo em diretórios partidários. Objetivo: obter transparência quanto ao potencial de uso da máquina pública em decisões partidárias.
Muitos dirigentes e filiados partidários são também funcionários públicos ou têm cargos de confiança; até aí não há nada de mais. O problema é que governantes usam como moeda de troca para apoios esses cargos públicos, e aí obtém um peso em decisões partidárias desproporcional a suas idéias, carisma e capacidade de liderança.
Uma idéia, defendida pela Marina no debate da OKBr no Centro Cultural Vergueiro, e por Kim Kataguiri ontem num debate na FGV-SP, é permitir candidaturas individuais, que competiriam diretamente com estruturas partidárias viciadas. Ótima idéia. Entretanto, também seria interessante saber que filiados são também funcionários públicos, o que se constitui potencialmente num “fundo partidário”.
Isso pode ser feito? Meu RG como funcionária pública é público. Será que meu título de eleitor também é, ou é privado? Não sei. Sei que meu empregador me exige estar em dia com a justiça eleitoral, ou seja, ele tem essa informação. Mas ele pode divulgar publicamente? Não sei. De qualquer forma, ao menos meu RG é público, consta no diário oficial, disso tenho certeza.
Sobre os filiados, dentro dos partidos a coisa é uma confusão. Nem os diretórios tem info sobre os filiados. O TSE divulga os nomes mas não o RG; o título eleitoral é público. Eles obviamente têm o RG, mas é público? Não sei.
Enfim, a idéia seria cruzar o funcionalismo público com os filiados aos partidos, e a partir daí construir índices de participação desse funcionalismo nos partidos. Claro que não há problema em si em ter filiados trabalhando para o Estado, mas seria muito interessante ter a informação, inclusive para os próprios partidos: alguns diretórios teriam proporções maiores, outros seriam mais plurais, e aí o partido se fortaleceria com essa visão de sua composição.
O objetivo não é “pegar corrupção”, mas melhorar a qualidade dos partidos com informações já públicas.
Fica aí a sugestão!

Andrea Matarazzo: desafios para São Paulo

Esse texto tem duas partes: uma visão entusiasmada da candidatura de Andrea Matarazzo à prefeitura de S. Paulo e uma reflexão sobre as possibilidades tecnológicas para lidar com problemas graves de nossa cidade.

1. Um prefeito que São Paulo merece

Ontem ouvi o vereador Andrea Matarazzo no diretório do PSDB de Pinheiros, que está organizando conversas com os prefeitáveis do partido. Foi um alento. No meio de tantas notícias ruins, ouvir alguém preparado e cuidadoso me trouxe esperança.

Ele começou resgatando suas memórias de S. Paulo, vale a pena ouvi-lo apenas por isso. Com as eleições chegando, ele vai certamente falar no seu bairro, no seu clube, na sua associação profissional, não percam. Depois falou de sua trajetória na administração pública: onde foi aprendendo o quê, e com quem. Um percurso com lógica.

“Eu me preparei para ser prefeito de S. Paulo.” Só por isso já valeria o voto. Alguém que vê a importância de S. Paulo em si mesma, à parte do contexto político nacional, é fundamental hoje para enfrentarmos nossos problemas e sermos nós parte da superação da crise nacional.

Conhece a administração pública municipal e a cidade. Aqui não se trata do populismo de “conhecer Sapopemba”. Trata-se de saber quais os problemas da cidade e os recursos para lidar com eles. Fala dos bairros e das ruas sem o medo de confundir nomes que os maus alunos têm. Fala das pessoas como pessoas, e não como categorias de gentes.

Eu realmente gostei. De bônus, não vi nele o machismo constrangedor dos outros tucanos. Pode até ser, mas o homem é fino e isso ajuda no trato com os diferentes.

Também não vi traços de distúrbio de personalidade, como nos últimos prefeitos: a vaidade doentia do Serra, a incomunicabilidade do Haddad que os impedem de compreender a realidade e seu papel nela. Ele chega, fala, ouve, responde, relata experiências e aprendizados mais que conquistas. Parece, pelo que vi, ser uma pessoa normal, que se irrita quando confundem seu nome como nós nos irritaríamos, sem histrionismo. Que é o que São Paulo precisa. Uma pessoa normal e gabaritada.

Sobre assuntos difíceis, como a cracolândia, a gravidez indesejada, a corrupção dos fiscais, fala de um modo objetivo e ponderado, livre do politicamente correto ou do “bandido é na cadeia”, do populismo de direita. Penso que em termos de voto, não há mesmo o que pensar. É o prefeito que S. Paulo precisa e merece.

Tem idéias para a administração, que quer ver modernizada para atender a população. Falou tão mal da administração Haddad que você fica se perguntando: será que a coisa é tão séria assim? Dá medo.

2. Uma nova regulamentação para São Paulo

Grande parte dos problemas que ele relatou são institucionais: tem a ver com a falta de regularização de propriedades, que impede o desenvolvimento de algumas regiões. Ele trouxe alguns casos mais críticos, onde a falta de regularização impede a instalação de comércio, a própria entrada de serviços públicos, trazendo abandono e criminalidade. Ao mesmo tempo, ele fez pouco da discussão sobre o Uber – que, concordo, teve uma dimensão maior que o problema do transporte individual pago.

Minha pergunta no debate foi a seguinte. Será que o Uber não apenas galvanizou um debate acalorado sobre uma concepção de organização? Será que não reflete uma discussão – essa sim relevante – sobre como vamos dar conta de tudo o que precisa ser feito em S. Paulo? Sobre como vamos regular serviços? Será que o foco geral da discussão Uber não está correto?

Citei a necessidade de regularmos as mães crecheiras ao invés de esperarmos as creches públicas ou jogarmos mais responsabilidade nas empresas. E a necessidade de pensarmos a questão do transporte público em geral de modo menos rígido, porém regulado. Explico. O vereador disse que se liberalizarmos o transporte público, as empresas vão se fixar nas linhas mais rentáveis apenas. Será?

Se você desregular as linhas, mas mantiver toda a gama de exigências, sim. Com ônibus diário, com frequência determinada, com milhões de certidões e concorrências, aí sim só pode custear isso quem tem uma linha altamente rentável. Entretanto, e se a empresa não precisar custear tudo isso, incluindo aí os subornos para ganhar licitações?

Entendem onde quero chegar?

No debate, alguém falou do problema dos jovens da periferia que nos fins-de-semana ficam presos em regiões de pouca oferta cultural. Bem, digamos que eu more na periferia e tenha uma van que uso para meu trabalho como autônomo durante a semana. Nos fins de semana, quero usar a van para levar os jovens para passeios no centro, pela manhã e também à noite. Exatamente como os pais de classe média fazem, levam os filhos para passeios. Eu não tenho linha regular, não é sempre que ofereço o serviço, mas eu poderia me cadastrar, seguir uma regulamentação simples e pronto, os jovens já podem usufruir tudo o que a cidade oferece.

Pode haver desvios? Sim, pode. Mas com o bilhete único, com gps e com bom senso, ele será minimizado. O mercado adaptaria as linhas aos horários. Se o horário de pico na periferia é mais cedo, os provedores de transporte se concentrariam lá nesse horário. De modo flexível, imediato. Sem esperar 20 anos para uma concorrência que vocês sabem o que significa: cartéis, ineficiência, roubalheira. Precisamos ter em mente o tremendo avanço nas plataformas de compartilhamento. Se a maioria dos paulistanos hoje tem smartphone, eles podem também avisar para os prestadores de serviço que há um grupo pessoas num certo ponto de ônibus que aguarda transporte. Uma uberização do transporte público.

Claro que as linhas principais devem ter regularidade, assim como o metrô: corredores de ônibus atendendo ao grande fluxo. Mas será que dentro dos bairros a lógica deve ser essa? Entendem onde quero chegar? A mim, tanto se me dá se o Uber vai entrar em S. Paulo ou não. Não é essa a questão. Eu me viro com os táxis. Mas estou falando da adoção de transporte compartilhado como alternativa a um péssimo serviço que é hoje oferecido pelas linhas regulamentadas, inclusive e talvez principalmente na periferia.

O resumo desse texto, então, é o seguinte: Andrea Matarazzo me pareceu uma alternativa realmente preciosa para S. Paulo, por seu pé-no-chão, pelo modo amoroso como que vê nossa cidade e seus moradores. Ao mesmo tempo, gostaria que ele explorasse as opções tecnológicas da “cidade inteligente” como algo que possa servir não apenas o centro expandido, mas também o morador da periferia. Penso que isso vai exigir estudo e criatividade, pois quando se fala em smart cities se tem em mente principalmente os problemas de primeiro mundo. Mas ontem comecei a achar que eles também podem ajudar a nossa cidade como um todo!

Carol e o Repentista

Hoje tive uma experiência tão bonita, tão bacana, não sei se vou conseguir transmitir a vocês. Gravei um pedaço, mas não foi o melhor pedaço e o vídeo não capta o que foi estar naquele ônibus descendo a Rebouças no final da manhã.

O ônibus tenha um repentista. Que ia brincando com os passageiros, e arrancando sorrisos e até risadas. Brincava e pedia dinheiro do jeito que os repentistas sabem fazer, vão descrevendo as pessoas e suas ações no que há de mais visível e talvez verdadeiro e vão construindo versos.

É bonito de ver. O moço tinha um sorriso também bonito, não sei dizer se ele era bonito. Naquele momento era lindo.

Não havia politicamente correto. Falava do negão, da loira bonita, do doutor advogado, da japonesa, falava de todos os passageiros, uma era a cara da Patrícia Pillar e outro era irmão de algum jogador de futebol, ele não hesitava. Ríamos. O senhor que mora bem e onde eu moro não vai nem a Rota.

Mas não era crítica social, era uma coisa toda alegre. Ao fundo dando o ritmo uma voz de criança, a Carol. Ao final, ele falava com a menina, tudo no repente. Olha só minha Carol, agora vamo simbora. E assim por diante.

Eu filmei e ele logo viu, falou que eu ia por no YouTube e ficar muito famosa, tudo sem perder um verso. Mas não apertei o botão direito e só comecei a filmar mesmo depois.

Todos sorriam no ônibus.

Isso é que era o melhor. Alívio da crise, do compromisso, de tudo. Ele era especial, com aquele humor dele, brincando com todos, fazendo todos se desarmarem. Mas não podíamos ter mais disso? Ai, como São Paulo merecia!

Perguntei, com sorriso, mas sabem como sou, sou meio chata, perguntei se a Carol vai pra escola. Ele no repente disse que a Carol ia sim, que a aula é à uma e meia e que já estão indo lá.

Depois, quase descendo do ônibus, saiu dos versos, tirou o sorriso, agradeceu a pergunta, disse que se chegasse um pouco atrasado a diretora deixava entrar, era só fazer um repente, disse que era bom ter alguém se preocupando com as crianças, e disse também que a Carol ajudava o pai e depois estudava sim, não falou em orgulho mas pra que falar, era orgulho sim, era uma gratidão.

A menina era pequena, podia talvez estar brincando, se aprimorando na vida. Mas o repente do pai, o dinheiro ganhado justo, aquele carinho todo e os versos aprendidos, não era de condenar. Era só de apreciar, nessa São Paulo tão dura, que pai e filha alegrem, o paulistano na rua…

Carol e o Repentista

Sobre o fim simbólico do PT

Escrevi no dia 4 de agosto, após a prisão de Dirceu.

Aécio não comemora nem lamenta as prisões, mas louva o funcionamento das instituições. Como disse por aí, eu fiquei meio baqueada com a prisão de Dirceu, não por alguma solidariedade que eu tenha com o criminoso, mas porque encerra um ciclo que é um ciclo meu também, além de ser do meu pais, de minha época.

Eu nunca fui petista. Nunca fui de tendência, no movimento estudantil éramos totalmente independentes, e gostava mais dos comunas antigos, aliás filhos dos comunas antigos. Eram afinidades sociais e pessoais, mas vejo também que eram políticas, de compreensão da política como lugar da democracia e do diálogo, em busca de ideais humanistas.

Mas eu fiz campanha pra Erundina, pro Lula no segundo turno de 1989. Estávamos de algum modo do mesmo lado, pensávamos. Depois, ainda fiz campanha pro Nabil Bonduki e pra Marta, e nunca mais votei neles. Sei que cheguei a votar em Mercadante em algum momento, gostava do modo simples com que ele explicava economia para o povo, que hoje sei que era um populismo desonesto. Nunca, jamais, me decepcionei com o presidente Lula. Sempre soube quem ele era. O Genoíno que todos adoravam não me dizia nada, então não me decepcionei por absoluta falta de expectativa.

Mas a Marta decepcionou, o Mercadante, a Erundina, o Bonduki. O Suplicy é aquela geléia, não há como se decepcionar. Apenas dá pena. Mas confesso, eu algum dia acreditei em alguns petistas. Estavam do meu lado, seja lá o que isso fosse.

E se passaram então muitos anos, a maioria, como disse, votando em outros partidos. Mas já votei no PT. O PT sem o voto de gente como eu, os iludidos das grandes capitais nos anos 1980, não existiria. O PT, sem o voto de gente como eu, não existiria.

E ontem foi preso o chefe deles, uma ladrão contumaz de acordo com as provas que chegaram às mãos do juiz. Não o dono do negócio, mas o chefe do negócio. Preso mesmo, esse aí não vê a luz do sol muito cedo. Preso. O chefe.

Fiz uma tabela de votos, e acho que das 16 eleições que já pude participar, votei neles em apenas 3. Em outras 3 estava nos EUA. Comecei em 1986 no PMDB, votei no Freire PCB uma vez e nas outras 8 votei no PSDB. Três eleições é pouco, mas ao mesmo tempo não é. Esse povo todo que está sendo encaminhado ao cárcere, nós íamos nas festas, encontrávamos pela cidade. lembro de uma vez ver o Genoíno no ponto de ônibus em Ubatuba, aguardando o ônibus para S. Paulo que sua mulher tomaria. Ocupavam o mesmo espaço que nós. Estão em cana.

Como assim, não sentir nada? É a história no meu país, é a minha história. Eu sinto sim. Quero chorar. Eu estou triste. Não por um ou por outro, se tomam banho frio ou se as supostas esposas vão lhes abandonar. Não. Estou triste por mim. Pelo poder das idéias, idéias que eu prezo tanto e que serviram apenas para enganar. Pelo poder do dinheiro, dinheiro que serve para unir as pessoas em empreendimentos comuns e foi usado para denegrir a todos, a jornalistas, a cientistas, a deputados, talvez a magistrados. Todos no Brasil estão sob a pecha de “suposto”, como disse o Juiz Moro.

Não me entendam mal, não lamento a derrocada do partido ou de suas figuras. A sorte deles não me diz respeito. Mas o país hoje está livre dessas figuras, recomeçando como uma esposa abusada por muitos anos que deve começar do zero. Então há talvez a alegria da liberdade. Mas há um certo pesar, sim, um luto pelo tempo passado espoliada.

Contando a crise

Dei entrevista para a Whitney Eulich, Latin America Editor do The Christian Science Monitor, falei mais ou menos o que se segue:

Não há risco à democracia, todos os atores importantes aceitam as regras do jogo. Quem pede intervenção militar é irrelevante e quem acusa pedidos de impeachment de golpismo está apenas usando retórica. Todos sabem que os protestos e eventual processo é legítimo, que cabe ao congresso a decisão e estão agindo tendo isso como panorama geral.

Dizer que impeachment é frescura de latino-americano, que qualquer espirro do presidente já vai pedir impeachment, é condescendência. Os EUA já tiveram pedidos de impeachment, e a AL tem mais pois são mais países; precisaria ver quantos pedidos por país tem para comparar média. O que temos são mecanismos de representação imperfeitos, e que os descontentamentos aqui talvez se acumulem por mais tempo até haver respostas institucionais, e por isso os protestos são mais espetaculares. Além disso, esse caso de corrupção é o maior do mundo, compromete a gestão da União, que no Brasil tem enorme importância, e portanto o descontentamento é realmente ímpar. Não há, portanto, diferença cultural, apenas realidades distintas. Patético foi o pedido de impeachment ao Clinton, isso sim.

Dilma não é culpada além de reasonable doubt, mas o que se espera de um chefe de Estado e governo não é não ser culpada além de reasonable doubt, como um cidadão comum. Então as contas de campanha, membros altos do partido, estatais e ministérios contaminados pela corrupção são fatores legítimos de pedidos de impeachment, que é uma decisão política a cargo do Congresso. Os congressistas pensam estrategicamente, em seus partidos e carreiras, mas também no futuro do país, e em última instância estão vendo o que é melhor, esperando as investigações avançarem, mas vão decidir pelo que acreditam ser a melhor solução, levando em conta todos os fatores, inclusive a opinião pública. É uma decisão política, e não penal.

Além da crise econômica e política, há também uma crise simbólica. Artistas, intelectuais se colocaram como mediadores entre o mito Lula e o povo desassistido. E agora o país mudou, o mito foi questionado pelas investigações e, ontem, pelo boneco que chamou a atenção de todos, com roupa de presididário. E a narrativa do povo desassistido também foi questionada pela pujança econômica e pelas verbas concedidas aos movimentos sociais. Qual o papel nosso hoje? Estamos meio à deriva. Não temos ainda um discurso liberal articulado e o esquerdismo ilustrado está sendo severamente questionado. Precisamos nos tornar mediadores de outra natureza, levando em conta o desejo de uma administração moderna por parte de um público autônomo.

Ela perguntou muito do impeachment, como se fosse algo anti-democrático se não houver uma culpa penal irrefutável cometida pela presidente pessoalmente. Eu disse que a questão é se ela está governando, o que envolve ter um plano de governo, tanto macroeconômico como políticas públicas, capacidade de negociar com o congresso e falar com a sociedade. É sério ter uma pessoa sem ação gerenciando o país, e em especial num país onde o governo central conta tanto. E para quem se preocupa com a democracia, é mais sério ainda ter alguém usando o poder para melar investigações, enviando Ministro da Justiça em conversas secretas, por exemplo. Nesse sentido, as manifestações são fundamentais: sinal de que a população não vai aceitar o impedimento das investigações, de modo violento como na Argentina ou menos violento, como em geral acontece aqui. Os protestos são importantes para dizer não ao fim da Lavajato.

Também falei da questão partidária no Brasil: novas lideranças preferem sair dos partidos, como Marina e Marta, do que se engajar em lutas internas. Dilma foi a escolhida pelo Lula, apenas isso, sem concorrência de outras candidatas que aceitaram esperar na fila ou buscaram outras legendas. A falta de democracia e transparência interna partidária é ruim para o sistema político como um todo; a corrupção do PT é ímpar, mas esse drama atinge todos os partidos. Acho que foi mais ou menos isso o que disse.

PSDB pra Valer

Depois que me filiei ao PSDB, naquela terça-feira pós-segundo turno, fiz algumas tentativas de “entrar” no partido, que relatei em vários lugares, sempre de modo bem crítico. Hoje mudo o tom. A-do-rei ter ido na reunião da Esquerda pra Valer no diretório estadual do PSDB, em Moema. Fui super bem recebida, por gente animada, inteligente e comprometida com o partido e com a democracia.

Em primeiro lugar, entendi melhor o funcionamento do partido. Os tais “diretórios” seguem uma ordem cartorial. Há os diretórios municipais e nas grandes cidades os diretórios “zonais”, que correspondem às zonas eleitorais. O Brasil ainda em regime de sesmarias. Minha “zona”, eu pensei a princípio, seria a da Vila Buarque, que está se constituindo, pois há zonas vivas e zonas mortas. Mas é a de Pinheiros, que é super ativa, tem banquinha na Feira da Vila Madalena que vai acontecer em agosto, atividades, políticos importantes, arrecadação. Então legal, estou na zona certa, sem duplo sentido.

Alguns grupos têm existência formal, como (provavelmente) o TucanAfro, o PSDB Jovem e o PSDB Mulher. Para isso, é preciso se não me engano de um alcance nacional. O PSDB Esquerda pra Valer é uma tendência apenas. A palavra mais usada por eles foi humanismo, mais que outras expressões comuns na esquerda. Tive a impressão de que o cerne do grupo é uma fidelidade aos princípios históricos do partido, falaram muito em Montoro, por exemplo. Desceram a lenha na redução da maioridade. Debatem de tudo: a política nacional, o impeachment, as manifestações, a relação entre partido e sociedade.

Muitos batem na questão programática, ideológica, como se fosse possível no Brasil eliminar esse sambismo político. Não ficou claro pra mim se era só coisas dos líderes querendo criar uma bandeira, se era um desejo do grupo todo, mas achei que era mais uma questão de identidade que de crença. Não tem name-dropping como nas reuniões do Onda Azul, onde todo mundo almoçou ontem com o Bloomberg. É mais popular e não tão jovem. A questão dos meios de comunicação, por exemplo, não é muito falada. Mas tem uma vitalidade, tem uma abertura, não sei explicar. Gostei.

Acho que têm uma familiaridade com a vida partidária, mesmo que de modo crítico. Querem um partido mais forte, não apenas trampolim eleitoral. Acho que é isso que gostei. Relatam que a questão da democracia interna é falada há muito tempo, sem avanços. E discutiram muito a pesquisa que botou os partidos na rabeira das instituições de respeito no Brasil. E, assim como no Onda Azul, falam do Instituto Teotônio Vilela como possível lugar de debates partidários.

Uma parte do fundo partidário, só pra explicar, é destinada a institutos de formação política. O ITV do PSDB; o Perseu Abramo do PT; e os outros veja aqui, no site do TRE-RJ, que tem alguns dados mais fáceis de achar, por alguma razão. Acho isso muito bom, esse resgate de fóruns de discussão. Pelo que andei assuntando, esses institutos são usados hoje mais pra dar cargo pra cacique que não se elegeu, o que é uma pena, pois se o cara não se elegeu seria ótimo voltar pro escritório, pegar no batente, se inteirar do que está acontecendo na sociedade pra voltar renovado.

Enfim, a coisa é essa. É que nós temos um caciquismo tão arraigado, que queremos entrar nos partidos via Rue de la Sorbonne. Queremos “ser chamados”. Talvez o caminho seja entrar nos diretórios mesmo, e também se agregar aos grupos nacionais, tendências existentes ou mesmo criar novas tendências – Tucano Livre, alguém topa? Pois a sociedade mudou, novos temas surgiram, nada errado em trazer novas bandeiras ou mesmo, por questões de grupo, criar uma nova agregação.

O desafio, pelo que compreendi de modo bem provisório, é tentar dissolver o caciquismo que tem impedido os partidos de dialogar de modo mais intenso com a sociedade, que torna o ganho eleitoral mais provável no curto prazo mas no longo prazo descola o partido da sociedade. E às vezes nem funciona, como no caso da candidatura do Serra para prefeito “porque precisava de um nome forte pra derrotar o Haddad”. Não vamos dissolver o caciquismo se aceitarmos a falta de democracia interna. Mas se quisermos todos virar caciques, também não vai funcionar.

Acho que a democracia partidária pode ser reforçada com mais abertura, com acolhimento a novos filiados, com uma visão doutrinária onde o cerne está claro mas o sambismo é permitido, com o uso de novos meios de comunicação que dêem transparência às discussões e decisões partidárias e provavelmente com reformas do estatuto que promovam decisões mais democráticas. O PSDB precisa construir uma cultura partidária, sem ter o PT dos anos 1980 como modelo, pois aquilo foi, ao fim e ao cabo, um engodo. Uma cultura partidária que proporcione o pertencimento em bases racionais e não meramente simbólicas.

Então fica o convite para você se filiar a esse partido, que pode ser feito pela internet. Hoje, a vida partidária é muito pouco digital, então para a nova geração pode parecer que há um muro. Mas ela existe e ontem fiquei com a otimista impressão de que ela pode se modernizar. Pois o que é importa, no fundo, é gente. Finalizo o texto, como sou professora e alguns de meus alunos lêem o que escrevo, dizendo que a minha opção é pelo PSDB. Busque a sua. Vá ao diretório do partido ou dos partidos em que você votou nas últimas eleições. Frequente um tempo, fuce, faça perguntas, observe como as pessoas reagem, o que esperam de você. Filiado ou não, participe, questione, colabore, decepcione-se, reencontre um ideal, e vá caminhando buscando respostas para esse Brasil.