Intelectual funcional

Adoro essa expressão que li hoje no jornal: analfabeto funcional. Ela revela tanto sobre nosso sistema de ensino, acho que nem preciso explicar, né? Um termo um pouco técnico, estilo “colateral damage”, ao invés de dizer a verdade nua e crua. Guerra mata. A escola não ensina. Tem também o intelectual funcional, que é o cara que acumula uma porção de títulos mas que nunca parou um segundo na vida para pensar.

Pois pensar é difícil.

Veja essa pequena história: tive que dar uma aula concentrada, pois à noite, por problemas de divulgação e sala de aula, os alunos chegaram na terceira semana. Então mostrei o Moodle, falei do curso sobre memória, do trabalho, deixei eles no laboratório lendo o texto dificílimo do Krausz e voltei para a sala, com a seguinte recomendação: “Não voltem direto depois de ler o texto; caminhem com calma, pensando sobre a memória.”

Na sala, pouco esperei e lá voltavam eles, sentados, ávidos para debater. “Já?!? Mas vocês voltaram devagar? Não? Então fiquem lá fora, olhando o jardim, pensando na memória, por 5 minutos.”

Esses momentos de espera para mim são um tédio. Mas são necessários. Então, no relógio, quando deu 5 minutos os chamei de volta. “E então?”, perguntei. Um aluno disse: “Achei muito difícil isso.”

O Moodle? O texto de Krausz? A proposta do trabalho? “O texto de Krausz?”, eu perguntei.

“Não, ficar cinco minutos pensando sobre o que é memória. O que é memória?”

Me surpreendi. Mas é isso mesmo. Difícil é pensar. Espero estar fazendo minha humilde parte na redução do número de intelectuais funcionais no grupo dos futuros professores da nação.

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UNESP e a educação global

Aqui vão algumas idéias para a UNESP, retomadas por conta desses novos desenvolvimentos na educação global. Anexos, coloquei uma planilha com algumas interessantes iniciativas passadas e atuais e também um antigo documento meu, mais extenso, de 2010.

1. a Unesp pode melhorar muito a sua comunicação interna, com maior eficiência e também ganhos no próprio processo de produção acadêmica. Isso pode ser feito com sistemas flexíveis e em rede de comunicação, centrados nos membros da comunidade, que permitiriam que todo o seu potencial fosse alcançado.
2. A melhor comunicação interna, e mais transparente, serviria sem custo adicional como mecanismo de divulgação de suas atividades e da sua produção universitária, fazendo da Unesp um referencial universitário para o país.
3. Paralelo a isso, a utilização de um novo sistema de apoio às aulas poderia integrar a universidade à nova cultura universitária global, com oferecimento de cursos em escala global em paralelo ou independentemente dos cursos presenciais normais. Novamente, isso seria feito com custo extremamente baixo, pois estaríamos apenas aproveitando o que já produzimos e disponibilizando, em redes globais de conhecimento, essas práticas.
4. Anexo, a planilha Audacity.xls com algumas das iniciativas que considero interessantes acompanharmos nos próximos meses, que prometem ser de grandes transformações.
5. Também anexo um antigo documento que preparei, Ocarassu.doc. Como o documento é antigo, do primeiro semestre de 2010, pode estar defasado em algum aspecto.
6. Algumas possíveis críticas a essas iniciativas descritas acima não se sustentariam em um debate racional; hoje a comunicação é parte do sucesso de qualquer instituição, e os benefícios que traz em termos de inovação, melhora da sociabilidade, e sentimento de pertencimento dos membros da comunidade, para não falar em eficiência, superam em muito quaisquer desconfortos que tenhamos em ver a nossa instituição representada tal qual ela de fato é.
7. como sugestões práticas, penso que deveríamos: envolver o Everton, da Wikipédia e da OKFn-Brasil. Analisar Google, Elgg para os itens 1 e 2. Acompanhar iTunes U e especialmente MITx. Twitters que vale a pena seguir: a @chronicle, a @OKFN e a @OKFnBR, e especialmente a @GlobalHigherEd. Acredito que o MITx seja a iniciativa mais interessante até o momento para o aspecto didático, por ter uma concepção de ensino global que parte da experiência da sala de aula.

Ocarassu, Audacity

iTunes U – Brazil

No momento tenho mais questões que respostas sobre iTunes U. Então as listo aqui.

Por que o Brasil não aparece na lista de países? Será que é algo que vai ser consertado logo, ou depende de alguma decisão?

Por que apenas instituições podem lançar cursos? Será que isso será mantido apenas numa primeira etapa, até a plataforma ganhar legitimidade, ou a idéia é essa mesma?

Não pude criar um curso, então não consegui imaginar como são. Tem espaços de discussão, como Moodle, Canvas, ou a ênfase é na distribuição de conteúdo?

Do jeito que está, muda alguma coisa muito profunda na educação? Ou o efeito será mais no mercado de livros didáticos, que a gente usa pouquíssimo?

 

Uma nova universidade

Será que a Apple vai revolucionar o ensino superior na semana que vem? Pelo que meu irmão diz, vai.

Eu imaginei um mega Moodle, com mil capacidades, ou com nem tantas, pois o melhor do Moodle com o melhor do Canvas já está bom. E também com uma capacidade de download de texto com pagamento ao autor ou ao periódico, pois aí, pensando prosaicamente, eu nunca mais ia copiar nada na vida.

Tudo num iTunes da vida, ou seja, você acorda de manhã, resolve dar um curso, coloca no troço, estabelece um custo e espera os alunos chegarem. E dá o seu curso, gerando receita para fazer uns outros cursos que você queira, ou seja, tem gente que nunca mais vai trabalhar na vida.

Já pensaram nas possibilidades? Tem o Museu do Futebol, mas agora poderia ter a Universidade do Futebol também. O DaMatta que fez o texto do museu poderia dar um curso, o Pelé – imagine ser aluna do Pelé? – poderia continuar. Isso os grandes temas.

Mas o fundamental seriam os pequenos temas. Aquele estudante de pós que não conseguiu terminar a tese mas é um gênio. O engenheiro indiano que conhece horrores da história do seu país e da sua cultura. O médico que quer ensinar como administrar um hospital para parceiros em Angola.

Sem convênio contrato edital. Com dinheiro ou sem, dependendo da disponibilidade de cada um. Nem sei o que poderia surgir daí. A paz no Oriente Médio. No mínimo.