Chocolate

Contei que adorei o jantar de confraternização para os voluntários da Macabíada? Logo na chegada, os rostos descansados, as roupas limpas, uma postura mais relaxada, era só comemorar o que tínhamos feito. O pessoal jovem chegou a trabalhar 12 horas por dia, ou mais. Eu, 6. Os dirigentes nos agradeceram pelo esforço, “a melhor Macabíada”. Veio a pizza. Agora estávamos todos normais. Trocamos histórias.

Eu vim com uma idéia, como sempre. Como quando era criança, “tive uma edéa”. Vamos ver no que dá, a moçada gostou. Nos últimos dias, fiquei meio irritada, macambúzia. Será que no fundo também vou sentir saudades?!? Das mensagens no celular, “estou saindo do Einstein”, “quais são os jogos amanhã?”, “tudo bem por aí?” Das equipes de lugares tão distantes, África, Ásia. Do meu clube cheio de gente, música alta, insuportavelmente vivo.

Já tinha me despedido de todos, mas o garçom trouxe a pizza de chocolate e o pessoal me chamou de volta. Eu voltei correndo. Chocolate? É comigo.

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O lugar do esporte

Eu adoro aquela coleção Nemirovski da Estação Pinacoteca, e quase levei 20 australianos – e uma canadense – para lá ontem… Ontem foi um dia ótimo para passear no centro, ensolarado, limpíssimo, com vida mas sem estar lotado, muito legal. Parabéns ao Kassab et al., a cidade está bacana. Se tivessem avisado da operação na cracolândia ter sido perfeito, mas no final não chegamos nem perto.

Depois do tour básico República, CCBB, Pátio do Colégio, 25 de março, Mercadão Municipal, o pessoal se dispersou – em busca de compras – e um grupo pequeno foi até o Museu do Futebol, que é uma coisa maravilhosa! Quem é que falou que esporte tem que ser low brow? Tinha texto do DaMatta, tinha uma recuperação histórica muito bom feita, tinha ao mesmo tempo um culto aos ídolos e reflexão sobre esse culto, tinha 0 (zero) erros de português – e nenhum de inglês que eu tenha visto. (Em português, só um artigo indefinido no lugar de um definido que mudava o sentido da frase, e um ditado que eu, na minha ignorância futebolística, penso estar trocado.)

E estava emocionante também. O Pelé nos recebendo na porta, uns bricabraques eletrônicos legais, o espaço da torcida. Tinha uns vídeos muito bacanas, do goleiro em câmera lenta, o vídeo da entrada mostrando as várias formas de jogar futebol. Algo pensado, pesquisado, criado, muito legal mesmo, não é só pra criança. É mais pra criança, mas é também para todos. Valeu, australianos, pois eu não teria ido lá a não ser de guia.

“Esporte é cultura”, dizia uma campanha brasileira oficial de uma década ou duas. Não sei. Esporte é esporte, cultura é cultura. Esporte é jogar bolinha para cá e pra lá, cultura é jogar palavras (e outros signos) pra cá e pra lá. O lugar do esporte na cultura brasileira eu sei qual é. Australianos: “Esse é um museu único, não existe outro museu do futebol, vamos ver esse!” É um lugar privilegiado, um lugar onde as batalhas são travadas, as habilidades mostradas. A poesia construída. A bola passa a ser mais que uma bola, ela “vira” um símbolo também, e o jogo vira, para quem entra no espírito, uma sinfonia.

Já na cultura judaica, essa cultura intoxicantemente rica, eu já não sei dizer qual é, depois desses dias todos, o lugar do esporte. Lehitraot!

Esperança

Ontem rememorei com uma amiga nosso tempo de natação. Ela lembrou, sem saudosismo, das brincadeiras dos atletas, que hoje teriam o nome de bullying. Chegamos à conclusão: nós formávamos um grupo dentro do grupo. Eu disse que da turma não lembrava nada, apenas o nome e o estilo preferido dos nadadores. Lembrava, por exemplo, de um nadador de costas que só não ganhou ouro numa Macabíada mundial pois bateu na parede com o braço. Só isso. Lembrava dele andando com o olhar distante, altivo, quase como se andasse no mundo de costas.

Depois fui na festa de encerramento, porta-bandeira com a bandeira de Israel, Hava Nagila em ritmo de samba. Frevo com letra em hebraico, músicas de bar-mitzva, rock e até o “Ah se eu te pego”, imortalizado pela coreografia das Forças de Defesa de Israel. Os jovens trocando freneticamente os últimos uniformes disponíveis.

A melhor coisa da Macabíada? Ter conhecido o Bruno, a Pati, o Rafa, o Gushi e, paradoxalmente, a Ioná, minha prima. Até sonhei com ela hoje, tão impressionada com sua simpatia, responsabilidade, desenvoltura e serenidade. O sonho era assim:

Eu ouvia um homem dizer seu nome, Leônidas Pires Gonçalves. Aí eu perguntava se ele tinha feito FEA, pois lembrava do nome de lá. Ele dizia que sim, e não continuava a conversa. Aí chegavam outras pessoas, entre elas a Ioná, e tínhamos que fazer uma cobertura jornalística. Ficamos conversando e aí notamos que a Ioná já estava entrevistando pessoas, descobrindo coisas. Ela voltava, os outros reclamavam por ela ter se adiantado, eu ficava orgulhosa. Valeu, Ioná.

Sem uniforme

Afinal de contas, as Macabíadas são reconhecidas pelo COI ou não? No Google parece que sim, mas aí você abre a página e não encontra. Na Wikipedia a Maccabiah é artigo disputado. Ontem já em clima de fim de festa. As histórias dos jovens nas noitadas inspirariam uns bons “Masss como…?” na minha avó. Os nadadores americanos voltaram aos treinos, mesmo a competição já tendo terminado na quinta – nós também éramos assim, precisávamos nadar de qualquer jeito.

Também eu fui nadar ontem, e me despedir dos australianos. Tive uma grata surpresa. Finalmente alguém me perguntou: “Escuta, e São Paulo?” Acabei dirigindo pela cidade toda, algo impensável em qualquer outro dia do ano, ou mesmo da década. Tinha que ter sido domingo, primeiro do ano, e chovendo, para poder fazer de carro tranquilamente Gabriel, Oscar Freire, Augusta, Paulista, Vergueiro, Liberdade, João Mendes, Pátio do Colégio, São Bento, Viaduto do Chá, Municipal, São João, República, Arouche, Augusta, Avanhandava, parada para café e Beth El, Maria Antônia, Higienópolis, Vilaboim, Estádio, Rebouças. Tudo com direito a explicações várias, históricas, sociais e urbanísticas.

Será que foi porque fui sem crachá nem camiseta amarela? Será que foi porque “saí” de 1983? Não sei mesmo. Me garantiram: muitos dos visitantes têm perguntas, queríamos ver a cidade, mas não sabíamos a quem recorrer. Eu também aprendi sobre a África do Sul e a Austrália, países sobre os quais leio muito pouco. (Ainda pensando na minha avó, são muito longe. Ela me recomendou ir estudar em Nova York ao invés de Londres “pois é mais perto”. E não é que é mesmo? Novamente, me interesso por essa sociologia familiar, sem muitos conceitos, apenas com receitas para navegar no mundo global.) Existe uma imigração da África do Sul para a Austrália; os sul-africanos se ressentem um pouco dela; a maioria dos brancos presos durante o Apartheid eram judeus; muitos sul-africanos foram enviados a Angola, e o exército era obrigatório; enfim, houve alguma troca.

À noite, petiscos na Vila Madalena quase fechada, só aquela esquina central da Aspiculta aberta. São Paulo com jeito de ficção científica, abandonada, chuvosa, fria, interessante.

E la nave va.

 

Presente

Bonita festa no clube, apesar da chuva torrencial. No prédio principal, Frank Sinatra. No ginásio, pop em volume alto. Jantar simples, argentinas animadas, conversas esparças. Atletas, dirigentes, fisioterapeutas, colegas do clube. “Vamos ….!”, me disse uma amiga e me puxou pelo braço. “Fazer aliá…?” O barulho era imenso. “Não, vamos galinhar!” Demos uma volta. “Ei, você não é a Rosita?”, perguntei a uma mulher mais velha. A Rosita, que fez o Bat-Mitzva de todas as mulheres do clube. “Que bom que você me reconheceu!” Claro, ela estava igual. “Você também, não mudou nada!”

Me perdi de minha amiga, então decidi fazer o que eu realmente queria, ver os fogos da Paulistânia. Meu clube, meu povo, meu esporte. Mas queria estar em outro lugar. Saí correndo pelas ruas absolutamente vazias de São Paulo, até um pouco imprudente, atravessando sinais fechados de onde eu sabia podia vir um motorista também apressado. Precisava correr. Chegar até uma espécie de presente. Foi o tempo exato, as nuvens embaçando os fogos da Paulista, e depois o bonito show do João Carlos Martins. E o ano começou.

Paz

Comecei o dia hoje ouvindo Peter Frampton, super adequado. Pois ontem lembrei bastante do Vitão. Como é que aquelas viagens com a natação davam certo? Como é que minha mãe deixava ir para Maresias com o Vitão e o Nenê? Corremos até Barra do Una, pois mesmo em viagem tinha que ter treino. Voltamos rebocados na picape do Nenê. Também lembrei do pais dos atletas. Os que participavam, os que se metiam, os que não sabiam do que se tratava. Minha mãe gostava da molecada em casa.

Teve o dia da língua, quando o Gé e a Rê vieram almoçar entre as provas e tinha língua e eles não comeram. Até hoje quando convido para jantar eles perguntam: mas vai ter língua? Teve o dia do estrogonofe, um jantar de Natal com toda a equipe. Mesmo tendo feito quilos de comida, a coisa foi acabando pois nadador adolescente é tipo gafanhoto. Então ela escondou um pouquinho para quando o Vitão e o Nenê chegassem, completamente surpresa: “eu, ter feito pouca comida?”

Depois trocamos presentes ao lado da árvore de Natal, que eu ainda guardava da época da Maria Luísa.

Para o meu pai aquilo tudo era o fim da picada, imagino. Natação? E ter que me pegar na Hebraica à noite, ficar esperando na porta pois o treino atrasava? Meu pai era um santo e eu não sabia. E, além disso, para nada, pois era só ficar andando de um lado para o outro da piscina, imagino que ele pensava. Não estava fazendo ou aprendendo nada. Só me lembro do seu mau-humor quando eu chegava, de cabelos pingando.

Me pegar na Cultura Inglesa era bacana, ele curtia, voltávamos conversando, por isso penso que o problema era a Natação. Apenas um dia ele, digamos, se envolveu. Saindo pela Hungria, me despedi do Vitão com um beijo no rosto. Meu pai veio tomar satisfações. Quem é ele? Não é o técnico? E vocês se beijam, o que é isso? Eu disse: “Pai, você está com ciúmes do Vitão.” E era um ciúmes devido, pois como disse, tínhamos um certo carinho um pelo outro.

E teve também um fim-de-semana em Ubatuba, Debbie, Lara, minha mãe, Eliana e eu. A Lara e a Eliana eu tenho certeza, a quarta me falha a memória. Divertidíssimo. Minha mãe curtia a garotada, aprender palavrões novos com a Renata, essas coisas. Ah, e teve o dia em que ela foi me pegar na Água Branca e foi cumprimentar o Gerson: “Tudo bem, …?” Aí deu um branco e ela não lembrou no nome dele. E o Gerson respondeu: “Tudo Gerson!” E rimos até hoje.

Enfim, ontem trabalhei, organizei um artigo sobre “a civilização judaica” que estou escrevendo, apoiado em três loci: a Flip, as Macabíadas, e o centro de estudos judaicos da USP. Uma sociologia livre, um ensaio, vamos ver como fica. Imbricamentos da cultura judaica, Brasil, globalização, história, essas coisas. Como trabalhar descansa! Também montei meu novo curso de sociologia da cultura, só preciso falar com alguém pra ver se está legal. Vai ser como o curso de artes do ano passado, mas centrado na escrita, na “recomposição” da vida social. Estou montando cursos cada vez mais leves em bibliografia, mais focados no produto final. Menos curso e mais workshop.

Depois fui curtir a minha cidade, andar no Ibirapuera descomprimido, as pessoas dizendo por favor, obrigada, essas normas do convívio entre estranhos. Um silêncio de Deus, uma paz. Na internet vi que são milhões de carros fora da cidade. Que aproveitem bastante, pois a cidade ela mesma merece um descanso, os passarinhos precisam colocar a conversa em dia…

Das Macabíadas, eu tirei o dia de folga. Como quando era adolescente, de repente eu sumia. Uma vez no Parque Nacional de Itatiaia, fomos o pessoal da FEA passar a Páscoa. Estava a Karla, que reecontrei do Bandeirantes, o Antônio Paulo, o Rafael, aquele cara do PT que era super radical e foi trabalhar na bolsa, Sergião!, enfim, nós. Divertidíssimo, se perder na floresta à noite, varrer o chalé empoeirado, aventura. Mas um dia fui caminhar sozinha, fico confusa com muita gente em volta muito tempo. Até hoje, quando a semana de trabalho é muito dura, uma hora simplesmente paro e choro, não de dor, mas de vozes.

A solidão do esporte

Se por acaso nos próximos meses eu aderir ao Candomblé, mudar para o Espéria e começar a lutar tai kon do, não é infecção cerebral nem nada grave. Só um certo esgotamento de minhas identidades e hábitos mais antigos. Hoje fui nadar e ver a natação. E torcendo e aplaudindo as medalhas brasileiras, me lembrei da profunda solidão que eu sentia na época dos treinos intensos de natação, de 82 a 84. Meus anos de Bandeirantes também, 82 a 85. Em 81 eu já nadava, mas era com o Tarcílio, era moleza. 82 com o Nenê, 83 e 84 com o Vitão, o meu técnico, o único com que tive um “bond”. E em 85 mudei para o Pinheiros pois o Vitão ia pra lá, mas acho que nem eu nem ele nos adaptamos.

Eu torcia, mas torcia imitando, olhando os outros torcerem e fazendo igual. No fundo concordando com minha mãe, que perguntava: “mas chegar um segundo mais cedo que diferença faz?” Essa era a cultura esportiva em minha casa. Que diferença faz? Adolescente, não tinha um nome para aquele sentimento, de torcer imitando. Em inglês chamam de “peer pressure”, talvez. E a Hannah Arendt tem esse conceito super legal, “false public”, que é um monte de gente fingindo estar junto, mas cada um miserável em sua solidão, o que eu vi na faculdade lá em Pittsburgh. Só que ninguém me pressionava a nada, nenhum governo totalitário, e realmente se me perguntarem por que eu fazia natação vou ter dificuldade em dizer.

É que eu tinha medo dos livros.

Pronto, disse. Custaria alguns parágrafos, mas me veio essa frase sucinta, que dói mais mas pelo menos passa mais rápido. Eu tinha medo dos livros.

Era uma solidão intelectual. Numa viagem para Joinville, por exemplo, foi aquela tortura, o pessoal jogando fliperama e eu não tinha com quem/o que conversar. Salvando esse momento divertidíssimo: fomos ver um filme no centrão, de putaria. Aí apareceu o Ney Latorraca todo ensanguentado, um close na tela gigantesca. Aí um nadador gritou: “Dá chocomilk para ele!” Caímos na risada, em Joinville só tomavam chocomilk, era a febre, chocomilk e fliperama. Uma coisa dolorosa, um medo de nunca ter minha turma, meu grupo, as pessoas com quem eu pudesse falar. Se eu pudesse falar com aquela adolescente, dizer: olha, relaxa, vai ter o povo da Fea logo ali, na New School vai ser demais, e até no Unibanco e em Pittsburgh você vai ter a tua turma, e no final tudo acaba bem, não se preocupe!

Mas o adolescente é essa pessoa que não escuta, que está solta no mundo.

Eu tinha pai e mãe presentes, irmão amoroso, amigos que estão comigo até hoje, Rê, Andréia, Gé, a Márcia Kupstas, professora do Bandi, adiantava? Uma solidão de amargar.

E o medo dos livros. Clarice só fui ler em 1987, quando a Karla me deu. Antes tinha medo de me perder nos livros e não sair mais. Então a natação era, a gente dizia, uma alternativa às drogas. Mas pra mim era uma alternativa aos livros. Uma espécie de flagelo? O melhor eram as palestras do Vitão, tem essa que sempre conto. Ele nos orientava sobre a travessia do canal de Santos. Eu gosto de travessia até hoje. Não que as termine, mas gosto. Perguntas: o óleo faz mal? Não, o canal está mais limpo. E hepatite, pega? Não, é água salgada. E os navios, podem pegar a gente? Não, o canal está fechado para a travessia. E a derradeira: Vitão, tem perigo de tubarão? O Vitão: Tubarão, com aquela poluição!?! De jeito nenhum. Foi ótimo.

Formamos, agora nessa Macabíada, uma turminha de voluntários muito bacana, que se ajuda, troca informações, gosta de comer junto. Pessoas muito legais. É bom vê-los no clube. Mas entendi a presa fácil que eu era para qualquer tubarão que aparecesse na água, lá na outra Macabíada. Juro, entendi hoje. A isca um verniz de cultura, um passaporte mais carimbado. Não era preciso muito, mas ainda assim a isca era das boas. E eu fui devorada, um Jonas sem Deus para lhe atormentar ou salvar. Só um adolescente, um adolescente só.

Um passeio no Einstein

Hoje não tem muito o que falar. Queria ter tirado o dia ontem para ver os jogos, mas só deu pra ver um tiquinho da natação, ver a Adriana nadar, e um restinho do Brasil x EUA no futsal à noite. Vida de voluntário é fogo. Primeiro a natação: os tempos não eram incríveis, na maioria. Alguns tempos legais, mas não em todas as competições. De qualquer forma, é bonito de ver! O gozado são os nomes. Daniel Feldman, da Venuzuela. David Rottemberg, do Peru. (Estou inventando.) E assim por diante. Estados Unidos, Brasil, Canadá, os nomes são idênticos, muito gozado. Só mudam as raias mesmo.

Falei um pouquinho com o atleta paraguaio, com seu chimarrão ao lado, que ia nadar no revesamento brasileiro, e que já participou das Macabíadas em Israel em outro esporte, acho que atletismo… Captura bem o espírito dessa competição, imagino. Não importa muito como você participa, o importante é estar lá. Essa coisa de modalidade, nacionalidade, é secundário. E depois me chamaram para ajudar num atendimento médico. Nada grave, poderia ter sido tratado no clube, mas taca a tropa toda ir ao Einstein. Tropa toda mesmo: socorrista, médico, enfermeira, membros da delegação, nem cabia o paciente! Ai já no pronto-socorro esse socorrista, falando um português com um sotaque indefinível, começa a fazer propaganda da empresa dele, que está se expandido. E eu tentando entender os procedimentos e traduzir. Gente demais.

Enfim, hospital. Exames, esperas, médicos, aquela coisa. O pessoal muito atencioso, o hospital é supimpa mesmo. Os médicos todos devem saber inglês, o pessoal de enfermagem e técnico aos poucos terão que saber. Legal. Em hospital, vocês sabem, o tempo passa de outro modo. Então às 3:30 percebi que não tinha comido nada, e fui traçar uma empadinhas no lobby do “shopping”, como disse o pai da Renata uma vez: “Nunca estive nesse shopping.” Aí dei de cara com uns americanos, fiquei preocupada, o que houve? Por que vocês estão aqui? “Estamos no tour judaico, o Einstein é parte.” Rimos. Só judeus para colocar um hospital no tour. Será que vão pra Vila Mariana também? É legal.

Mas o hospital realmente é impressionante. A máquina de raios-x parece uma coisa de ficção científica, nunca tinha visto. Lê até a sua alma, dependendo do ângulo. Voltei exausta para o clube, pois apesar de não ter sido nada, sempre é um stress. A Renata com aquela fofura da Luba estava no sushi. Conversamos, ela me disse que Macabíadas sempre foram caras, por isso nós não fomos para Israel na época da natação. Almo-jantei no restaurante dos empregados, estou curtindo ser empregada. Você vê o mundo de outro modo, aprende a ser tolerante, aguenta desaforos com uma certa superioridade, não sei bem explicar. Se sente, paradoxalmente, uma pessoa melhor. Vi o jogo desses dois países que amo, Brasil e EUA, até onde vi estavam empatados, basquete. disputando ponto a ponto. Brasil fez cesta de 3, e peguei o carro.

Acabei o dia num encontro sobre “Open Knowledge”, de uns amigos do Twitter, uma rapaziada que quer introduzir o conceito aqui no Brasil, muito legal. Não entendo muito bem quem fala da alienação e consumismo atual dos jovens de hoje, pois no fundo eu os invejo, estão fazendo coisas tão bacanas! Projetos sociais, ativismo político, mil coisas. Os ingleses pediram um pizza de javali. Ah, era tudo o que eu queria, um javali!

Ouvi dizer que uma equipe foi ontem até esse jogo beneficiente no Morumbi, que apareceu na TV hoje pela manhã. Fiquei contente. Legal que eles também estejam curtindo essa cidade incrível que é São Paulo, além dos muros da Hebraica.

Minha alma Kitsch

Meu medo era não ter distanciamento suficiente para falar do clube que é praticamente uma extensão da minha casa. Que nada. Enquanto voluntária, almoçando com os funcionários do evento, policiais, jornalistas comunitários brasileiros e de fora, de repente virei funcionária. Ontem fui nadar até meio escondida, com medo de “ser pega” usufruindo um clube onde apenas trabalho. Obedeci a um senhor que me mandou de modo indelicado fechar as portas da piscina. Entrei na persona e foi algo totalmente inesperado.

E aí vi o clube de modo diferente. Transitando entre Hilton, Iguatemi e Credicard Hall, em ônibus fretados, com as equipes visitantes, a princípio achei desperdício de dinheiro todo aquele luxo. Por que não ficaram nuns aparts em Pinheiros, poderiam vir a pé ou de ônibus para o clube. Mas a funcionária Heloisa olhou para a Hebraica e viu que ela também é parte desse luxo. Ela, a Hebraica. A Heloisa tira por ano 100 mil reais bruto. A Hebraica lhe toma 4% da renda. Não há transição entre a Hebraica e os hotéis e shoppings caros da cidade.

A transição estava na minha cabeça, pois as imagens que tenho do clube ainda são as dos anos 70, a piscina lotada nas manhãs de domingo, as sócias jovens com tanga, cabelos hippies, tomando sol. Um bom clube, sem luxo. E com alguns lugares estranhos, a sauna, as quadras do fundo, o castelo na areia. Lugares meio inexplorados, remotos, tapumes. Agora o clube está todo ocupado, colonizado, pronto. Sempre em construção, mas sempre pronto. Esse é o clube hoje. 3 piscinas semi-olímpicas aquecidas. 1 olímpica. Fora as outras.

Então ontem me dei um certo descanso, pois depois de 5 dias de trabalho intenso estava fisicamente exausta. Pela manhã escrevi um roteiro turístico em inglês para o pessoal da África do Sul, e depois tirei algumas dúvidas práticas das meninas do futebol, ajudei outras a sacar dinheiro, troquei eu um pouco também, e pronto. Conheci uma brasileira que foi voluntária em 83. Vi a Soninha, sócia que participou não de esportes, mas da festa. Vi a Debbie, que nadou nas Macabíadas. Ainda estou atordoada com meu reencontro…

Depois fui a uma festa. Alguém me convidou para passar no clube à noite, mas a festa estava boa e fui ficando. Falando dos amigos de faculdade, um faleceu. Mas ele era tão engraçado, tão divertido, que aparece nos sonhos de nosso amigo comum, em situações cotidianas, num bar, no carro, dizendo: “Cara, é muito estranho estar morto!” Eu ri. Era como se ele estivesse lá, me fazendo rir novamente. E depois falando do hábito vegan, com conhecidos, e concordamos todos: o exagero é que é ruim; comer menos carne é bom. Conversa simples, brasileira, sem profundidade. Alívio. Bater papo.

A cidade de calçadas feias e ônibus desconfortáveis me pareceu mais acolhedora que o clube murado. Então sempre é possível obter o distanciamente sociológico, concluí. Pois a mudança na nossa posição muda o olhar. Talvez até nas firmas devam de vez em quando trocar as funções, colocar o presidente na cantina, o ascensorista na presidência e assim por diante, é bem pedagógico.

Cheguei cedo, vi a novela, e depois uma dessas entrevistas com ator antigo da Globo enaltecendo a história da teledramaturgia nacional. E percebi que minha alma kitsch é brasileira. Gosto de novela, gosto do enaltecimento à novela. Kitsch aqui no sentido de cultura de massa, símbolos fáceis, nada muito pejorativo, gosto mesmo. Digo isso pois cultura judaica é algo para mim o oposto de kitsch. Cultura judaica, para mim, é algo schmaltze, como dizem os americanos, sentimental, as histórias de imigração, os reencontros, os beigalahs da tia Tuba, ou cultura judaica é a história milenar, a literatura, os princípios éticos, a complexidade intelectual.

Não consigo bem compreender como se pode construir o kitsch a partir do schmaltze e do intelectual. Como os eventos incríveis da história judaica – mirabolantes, nas palavras de um aluno – podem virar slogans fáceis e melodramas baratos. Mas a cultura de massas faz milagres. Especialmente em Chanuka, ou Januca, que é a época dos milagres!

Um Requiem

Ontem foi um longo dia. Achei que daria tempo de dar uma nadadinha, mas vai ficar para hoje. De manhã, comprar os chips para os sul-africanos. Que time mais bonito! Que gente mais alegre! Depois ver o jogo da Austrália contra o Brasil, no clube Pinheiros – a Austrália perdeu -, descobrir algumas coisinhas: onde é a fisioterapia, quem está fazendo as tabelas dos jogos. Almoçar rapidinho, encontrar o pessoal da Austrália e ver se está tudo OK – está, eles compensam a desorganização do evento. Ficar um pouco pelo clube, ajudando as pessoas a encontrar coisas, parabenizando os jogadores vitoriosos: fica estampado na cara, a vitória. Ter ganho. Como é bom. Criança, jovem, adulto, velho. Ganhar é muito bom. Compensa as perdas, ser melhor simplesmente, em qualquer coisa, hobby ou profissional. Aí dar um tempo, ler o texto de uma amiga para me lembrar que sou professora, não sou voluntária profissional, e ir para o hotel nos prepararmos para a abertura.

Tudo um pouco lento, esperar os ônibus, entrar nos ônibus, descer dos ônibus, e aí a espera maior, no frio decembrino inusitado, nas costas do Credicard Hall. Até o hotel, deixa eu contar. Um esquema de segurança impressionante, com a polícia militar parando o trânsito para os ônibus. Uma escolta mesmo. Sem entrar no mérito da coisa, a necessidade deste aparato todo. Impressiona a importância da coisa, a dimensão da segurança. Tem um rapaz da segurança, um moço alto, bonito, bem articulado em várias línguas, que é o cara mais cool da organização. Quando ele fala todos fazem silêncio, e depois brincam com ele, amigos. Sem entrar no mérito da coisa, mas qual o significado do cara mais cool do pedaço ser da segurança?

Fico me perguntando – ouvi isso de alguém durante o evento – se a segurança não virou algo cool… Mas o sorriso do mexicano vencedor me lembra que os jogos é que contam. Ganhar. Perder. Enfim, esperando no frio, não sei bem por quê, talvez uma hora. Desânimo. Aí uma outra voluntária diz: “Mas a paquera já tá rolando solta.” Aí vi os jovens em círculos, as equipes misturadas, e uma moça da Austrália com o blusão da Argentina. As trocas de uniformes.

E aí eu me vi no grupo, tive a epifania que é na verdade a razão de eu estar colaborando nesse evento. Aí eu me vi na Macabíada de 1983, trocando uniformes, lembrei de nomes. Seth Baron, Robert Katz. Nomes imponentes, americanos gigantescos, esportistas, midwesterns. Caramba, a delegação americana daqueles jogos, onde estarão agora? Me lembrei de seu jeito à vontade, confiante, dos corpos grandes, esses caras são judeus? Eles diziam Gdlk tday e nós demorávamos para entender. Aí resolvemos contra-atacar e dissemos um dia: gdlk tday e eles responderam: “Thank you!” Então aprendi inglês.

Sim, que importavam os tropeços da organização? A paquera tava rolando solta, os uniformes trocados. Nunca conseguir “falar” com meu eu adolescente. Não o entendo, não sei que língua fala. Como se um ser outro tivesse entrado no meu corpo dos tantos aos tantos anos e depois ido embora, sem deixar saudades. Mas no frio dos fundos do Credicard Hall, a escultura do meu pai solta do outro lado, me vi com 15 anos, absolutamente sem rumo, extática. Estava ali. Era eu.

Depois o frio incomodou, os chefes das delegações nos pediram para ver a razão da demora, um argentino desmaiou, esperamos um pouco mais, o evento começou, discursos, ideologias, shows interessantes, música alta. Tarde. Não importa. Ter me visto foi bom. Talvez entender, talvez desculpá-la por alguma coisa, não sei bem. Foi bom. Adeus.

Não acho que seja possível ser exatamente feliz adolescente. Não desejo também a “felicidade” para essa fase que minhas sobrinhas entram agora. Desejo sim que sejam isso, adolescentes, que troquem muitos uniformes, que se percam nas multidões, e que na hora de entrar na faculdade, em que finalmente decidam o “major”, decidam o principal, sintam um certo alívio, uma certa segurança, possam enfim caminhar numa linha reta, numa direção, ainda que provisória, que é a vida.