Ética Judaica

Acho que eu deveria ser rabina, pois adoro narrar histórias e tirar daí lições de moral. Mas sou apenas blogueira, então lá vai.

Quem conheceu meus pais sabe de sua pouca familiaridade com os textos sagrados e preceitos religiosos. Passaram a vida estudando outras coisas, vivendo outras coisas. Acho que meu pai era ateu, mas não tenho certeza pois nunca falamos de Deus em casa. Sou atéia por “default”, ou seja, vim da fábrica assim. Se Deus não era nunca mencionado como explicação de nada ou fonte de sabedoria ou inspiração, então era porque ele não existia e falávamos a palavra, “Deus”, como falávamos “Nossa!”, ou “meu!” ou “caramba!”: interjeições que se referiam obliquamente a uma religião ou outra, a um tempo ou lugar.

Mas até mesmo por estarmos numa família, digamos, religiosamente parcimoniosa, o que era dito tinha minha atenção completa.

Minha mãe dizia rindo, irônica, que as mulheres não tinham que usar a kipá pois estavam aí visíveis os homens que lhes eram superiores. Na risada havia uma crítica, mas na frase uma verdade. Era assim. O mundo era assim.

Também dizia que não se devia levantar falso testemunho, o que devia ser distinto de fofoca, pois fofoca se praticava em casa. Então vi que falso testemunho devia ser algo grave, com consequências. E que pelo Talmud não se devia cometer plágio, o que me indicava que uma idéia tem a consistência a um objeto: não deve ser roubada.

E essas coisas ficaram gravadas.

Meu pai, menos religioso ainda, que vi poucas vezes numa sinagoga, dizia simplesmente que “judeu não bate em mulher”. Ele não era de dogmas, mas nessa frase havia todos os dogmas que você pode imaginar. A definição sem poréns do que fosse judeu, a idéia que judeus têm comportamentos padrões, a idéia, enfim, que judeu não bate em mulher, normativa ou descritiva.

Mas não era uma idéia apenas. Era uma prática. Uma vez, no meio de uma briga, minha mãe partiu para cima de meu pai. Antes que ela o alcançasse, ele segurou seus pulsos no ar. Mas minha mãe era forte e as mãos poderiam alcançar seu rosto; meu pai desviava a cara a cada golpe, e assim foi essa briga tão teatral. Teatral pela intensidade e pelo jogo, pois não houve pontapés, nada que de fato pudesse machucar meu pai. Mas não importa. O que importa é o ato de segurar os pulsos longe da cara, que me fascinou.

Se meu pai revidasse, ele se daria mal: perderia ou o dogma, e mesmo o mais iconoclasta dos seres humanos precisa de suas certezas, ou a identidade não como judeu, mas como homem, e talvez como pessoa também. Pois judeu era seu jeito de ser gente, e se judeu não bate em mulher e ele bateria, então é porque não era gente. Por isso ele arriscava um soco na cara, um óculos quebrado, algo assim. Não era altruísmo.

Os homens são superiores às mulheres, e judeu não bate em mulher. Para mim, os dois dogmas se misturaram. Se você estiver por cima, apenas segure os pulsos de quem te bate.

Publicidade

Shalom Ashav!

Caramba, nas férias a memória leva a gente para cada lugar! Eu fui do Paz Agora Brasil, em 1987. Tinha acabado de chegar de Israel, e foi o que soterrou meu interesse pelo país por 20 anos. O Paz Agora. Tinha voltado cheia de pique, querendo fazer alguma coisa. Então descobri eles, não sei através de quem, não tinha internet na época. Claro que cada um tem uma história. Um conhecido meu, um gay americano, se apaixonou pelo West Bank mais ou menos na mesma época e fez sua carreira acadêmica escrevendo sobre os check points. Eu não consegui ver algo tão interessante sozinha, nunca fui autodidata.

Há alguns meses li um livro da Sipora sobre um escritor judeu do finalzinho da Era de Ouro e talvez seja isso que tenha acionado minha memória. Na introdução vários textos sobre a tradutora, que teve uma morte triste e precoce. Quem a conheceu sofreu muito, como hoje devem estar sofrendo os colegas do Pisa. Ela era esposa ou namorada do líder do grupo no Brasil. Tinha acabado de falecer, se não me engano, quando entrei no Paz Agora. Seu marido apareceu talvez uma vez, ou nenhuma, nas reuniões que participei; estava abalado.

No grupo, vários psicanalistas, um casal que tinha acabado de se converter ao judaísmo, e de mais jovem só eu mesma. Paz Agora. Era mais um grupo de luto, de apoio, que um grupo político. Healing, os americano chamam. Eu não tinha absolutamente nada para heal, queria ação. Ainda existe, o Paz Agora Brasil? Ou algo do gênero? O tom melancólico do grupo na época também podia ser devido a questões políticas, era a 1ª Intifada, ou seja, a ocupação já era algo consolidado. Mas agora a coisa já esteja 10 vezes pior e ainda há quem proteste, se anime, tweete, arme barraca.

Enfim, as reuniões eram num porão em Perdizes. Me olhavam como se eu perturbasse um velório. Aí fui embora, e se passaram 20 anos. Pena. Devia ter estudado hebraico ou história judaica, e deixado a paz para depois.