A Empregada

No domingo a Joelma me liga e diz que não vai mais poder vir. Mas é por que passamos a uma vez a cada quinze dias, Joelma? Se for isso, a gente volta a como era antes… “Não, Dona Heloisa, é que eu encontrei um trabalho fixo, segunda a sábado, imagine que eu ia largar a senhora na mão desse jeito.” Resignada, desejei de coração boa sorte, pedi para ela ficar em contato e mandei um beijo em seu filhinho.

Minha segunda foi melancólica. A cada pedaço da casa, eu pensava: a Joelma não vai trocar a roupa de cama. A Joelma não vai limpar essa pia. A Joelma não vai arrumar esses mantimentos. Fiquei surpresa com meus sentimentos, pois conheço a Joelma a menos de um ano, apenas como diarista.

Ela chegava às 6 da manhã na Paulistânia, e ficava até a uma hora, acredito. Na Martinico, chegava às 7, para não me acordar tão cedo, e saía ao meio dia e pouco, pois o serviço já tinha acabado. Falava pouco, de si ou de sua família. Também perguntava pouco, e quando eu pedia para não mexer em algum canto, por ter muitos papéis que eu não queria que misturassem, ela simplesmente obedecia.

Não era, então, “da família”, como minhas outras empregadas. Eu não sabia dos sobrinhos, cunhadas, mães e doenças. A Joelma não sentava comigo para almoçar, ela preferia fazer tudo corrido e voltar para casa. É verdade que quando lhe dei uma cesta de Natal ela foi quase efusiva: “Puxa, Dona Heloisa, não precisava. Deus lhe pague.” – o que me surpreendeu um pouco naquela pessoa tão compenetrada.

Mas não era como a Terezinha, obviamente, cuja família conhecemos de cabo a rabo. Já fomos até chamados no Ministério Público, para dar nossa opinião sobre uma briga de família em relação ao melhor tratamento dado à Terezinha, há muito aposentada. Nada mais íntimo que sentar com uma promotora e desfiar todas as relações entre nós e uma outra família e entre os membros desta família que conhecemos como primos, lhes sabendo dos méritos e defeitos.

Depois teve a Márcia e a Lúcia, cujos nomes confundo, como apontam minhas sobrinhas: “Tia Lô, você está falando da Márcia ou da Lúcia?” Duas mulheres independentes, cheias de vida, um pouco doidinhas, que me ajudaram a arrumar aquela cobertura maluca onde vivi tantos anos. Sentavam para comer comigo e falavam dos homens, me convidavam para ir visitá-las, justificavam suas brigas com o mundo de tal modo que eu me via nelas; eu seria uma Márcia sem meus óculos, digamos.

Aí teve a Maria que cozinhava como uma Terezinha mas era um pouco herdada da Renata, e que numa dessas misturas de casas e famílias eu acabei levando de emergência no Einstein, mas tudo bem pois senti que era em parte minha responsabilidade. Agora, quando ela disse que estava mandando vir a irmã doente do Maranhão para nós ajudarmos também, eu disse que não e assim foi.

A Joelma era um respiro dessas intimidades todas. Era apenas uma faxineira; eu não precisava controlar sua pressão. Cobrava caro mas não cobrava extras. A pessoa que me indicou era uma mulher de um site de indicações de empregadas na internet, que talvez me conheça do clube mas talvez não; não temos laços de amizade ou parentesco. Mesmo que a Joelma quisesse fofocar, o que não é do seu feitio, não teríamos de quem falar.

A Joelma era apenas uma faxineira. Só isso, apenas uma profissional, que faz o serviço que eu demoraria 2 dias em apenas 5 horas. Mas a minha melancolia era de alguém que se despediu, bem, de alguém da família.

 

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São Paulo: deixe-a e ame-a

Então ontem (sábado) comemorei o aniversário da cidade, pagando o IPTU da Martinico e depois indo ao Ibirapuera logo no começo do dia. Estava cheio, até lotado, mas muito agradável. Adorei ter visto um engavetamento de bicicleta numa das ciclovias, ninguém avançando na parte dos pedestres, nem reclamando das freadas do da frente nem dos encontrões do de trás, todos rindo, pois é mesmo engraçado um engavetamento de bicicleta. Depois um show patrocinado pela Globo, com lugares para sentar à sombra, tudo muito chique, músicas emocionantes, doação de árvores, um clima alto astral. E fui pensando em como gosto dessa cidade.

Fui lembrando do que é voltar para São Paulo, dos lugares de onde voltei para São Paulo.

Uma vez voltei do Peru, e em Lima me diverti às pampas, conheci muita gente, muito legal. Mas voltar para São Paulo, ir à Oscar Freire, onde não posso fazer compras mas só saber que existem coisas bacanas na minha cidade já está bom.

Voltei também uma vez da Argentina, e no meio do vôo perguntei à aeromoça: escuta, já estamos em espaço aéreo brasileiro? Ela respondeu que estávamos sobrevoando Florianópolis. E respirei feliz.

Voltei também de Cuba, que meu pai tinha alertado que seria como um outro estado brasileiro, só que pior. E o alívio de não estar num estado policial não foi pequeno.

Recentemente voltei de Israel, e ao meu lado um jovem israelense olhava pela janela embasbacado. Grande, né?, eu perguntei. Verde, ele disse. Verde. Mas para mim o principal era que era grande, Israel te dá claustrofobia, pois você cruza o país de norte a sul e aqui mal teria chegado em Araraquara.

No Ibirapuera uma feirinha que não conhecia ainda, pedi que me fizessem um estojo de caneta e lapiseira, vamos ver! Namorei um jogo de mesinhas no MAM, mas acho que não seria certo gastar tanto dinheiro agora. Voltando para o carro, um guarda de rua soltou: Calor, hein? Você está uma alemãzinha. Em geral isso me irrita, me confundirem junto com quem. Estou o quê? Uma alemãzinha, ele repetiu, toda vermelhinha. Mas ontem me divertiu. Um lugar em que te confundem com seu algoz mais brutal – isso tem algo de cômico, de inocente. Toda vermelhinha.

Voltar de Nova York, confesso, nunca me fez assim tão deslumbrada. Eu gosto de Nova York. Quando chego lá sinto que estou voltando também.

Mas de uma outra cidade americana… Cheguei e dei de cara com um mega engarrafamento na Marginal do Tietê, daqueles que o taxista quer contornar e te leva pra Atibaia, uma coisa linda, uma coisa espetacular, um milagre urbano-social. Fiquei nesse bliss, que pensei que ia durar duas semanas, por seis meses. Tudo me encantava. Corruptos na TV, enchentes, o padeiro fazendo pão, a faxineira do prédio vindo tomar café, tudo me emocionava.

Da Europa voltei poucas vezes, não sei te dizer que emoções me trouxe. Acho que muitas vezes eu voltei para Nova York, então não foi uma volta completa. Da Europa mesmo, vocês sabem, eu gosto dos programas policiais franceses que passam na TV a cabo, não sei se me traria grandes emoções ir ou voltar de lá.

À tarde fui ver Paulinho da Viola na República, foi realmente espetacular. Como ele é doce, como a presença dele não é de star, é um amigo ali no palco que resolveu cantar para você, vestido normal, contando histórias normais e cantando coisas maravilhosas, que todo mundo seguia. E falam tanto da segregação de São Paulo, mas acho que as pessoas que escrevem isso podiam ao invés ir no show gratuito do Paulinho da Viola. Que mistura. Hoje você vê duas pessoas de mãos dadas e não tem a menor idéia da relação que elas têm. Uma mulher mais velha com um jovem que não se parece com ela, amigos, namorados, filho adotivo, o quê? Tudo misturou. Gente vendendo cerveja, recolhendo lata, avisando da mochila aberta, fumando maconha (não gostei, mas enfim), mulheres arrumadas, tatuadas, idosos, hippies vendendo artesanato, tinha de tudo. Tinha de tudo.

E lembrei de uma outra volta, que se contei aqui não contei a quem deveria ter contado, mas é que não deu tempo.

Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar.

Em 1987, logo depois de estourar a primeira Intifada, fui para Israel. Minha mãe ficou no deixo, não deixo, depois deixou. Um dia chego em casa e vejo que ela havia ligado para a agente de viagem. Perguntei por quê. Ela disse que achou tão barato que resolveu checar se eu não tinha comprado só a ida. Me fiz de indignada. Mas eu pensava em ficar por lá mesmo.

Aí fui indo, conhecendo o lugar, suas gentes. Ainda te perguntavam na rua quando você ia morar lá, e no começo eu respondia animada e depois cada vez mais hesitante, mudando de assunto. No final, era certo que eu usaria o trecho da volta.

Na chegada, tenho certeza que não contei essa história para minha mãe. Depois já não tenho tanta certeza; acho que não, pois foi tudo muito corrido, ela ficou doente e tudo o mais. Então nunca lhe disse que, de fato, na minha cabeça a passagem era só de ida.

Dinheiro na mão é vendaval, é vendaval.

Não sei o que me impediu de contar, que constrangimento. Pela mentira sobre minha intenção. Pelo apego à mordomia da Vila Madalena. Talvez por meu amor abafado pelo meu país, minha cidade.

Desilusão desilusão danço eu dança você.

Brazilian leader to run for National Student Union

Brazilian political leader Jose Serra, who was beaten twice in presidential elections, announced yesterday he will leave his party to run for president of the Brazilian National Student Union UNE (Uniao Nacional dos Studantes), in a move that shocked politicians and voters alike in the South American country.

Mr. Serra was thought to be considering running for mayor in his native São Paulo this year or running for president once more in the national elections, two years from now.

Close friends of the former student leader, exiled in 1964 when a military junta took power, were not as surprised. They recalled Mr. Serra expressing his desire to “go back to his roots” since a moving experience teaching elementary students while he was occupying the mayor’s office, years ago.

“His roots are with UNE,” a close friend said, whose widow insisted on anonimity. “Nothing makes more sense than closing his career there.”

Mr. Serra said he will broaden his alliances going beyond the Communist Youth Union and the Catholic Youth Union, registering his running team as “Alegria, Alegria”, in reference to the contemporary rebellious Tropicalia cultural movement.

“We need new ideas, new forms of doing politics,” said the new student activist, who has been mayor, governor and minister of health. In national politics, Mr. Serra has suffered from the absence, due to recent political events, of president Juscelino Kubitschek, a major source of inspiration and support.

Students around the country welcomed the news, seeing in Mr. Serra’s move a sign of youth power. Some hoped the seasoned politician would be able to bring Brazil’s battered UNE to the level of Chile’s fierce student movement.

While his UNE campaing is pregnant of new ideas, Mr. Serra often betrays his old nationalistic roots: “The United States of Brazil,” he told defiantly the new American consul to São Paulo, while her newborn played with her nipple during an official cerimony, “is not the Unites States of America!”

Paródias

Meu pai era um grande imitador. Imagine crescer com um Chaplin, um Woody Allen, um Chico Anísio dentro de casa. Foi minha infância. Um dia, crianças, voltando de Ubatuba, aquele trânsito infernal na Dutra logo saindo de São José, meu pai emendou uma imitação em outra e nós no banco de trás nos contorcíamos de tanto rir. Minha barriga doía muito. Mentalmente eu pedia para ele parar. Minha mãe, no banco da frente, sorria orgulhosa por ter feito par com um homem que sabia contar piada, assim como suas antepassadas das cavernas se orgulhavam de ter ao lado um bom caçador.

Algumas imitações me marcaram. Tínhamos um disco com grandes discursos da história, e meu pai, quando chegava a hora de Adolf Hitler, aumentava o volume e fazia os trejeitos e as caras do líder alemão, bem didático, explicando, quanda o disco passava de um discurso para outro, como o homem ia perdendo a cabeça ao longo da guerra. Acho que nos manuais de linguística isso seria uma paródia, não sei. Não me deu menos medo dos ditadores. Sei do que são capaz: silenciam o luto das mães, com medo que suas lágrimas ameacem os filhos sobreviventes. São gente ruim e perigosa, mais que ridícula.

Mas ver seu pai imitando Adolf Hitler muda algo. Não te tira o medo, mas te dá um certo senso de superioridade quando aos que gostam de fazer discurso e mandar nos outros. Você até pode ouvir seus discursos, e dependendo da situação até concordar com suas idéias, mas há uma distância entre você e o fulano, uma condescendência criada pelas risadas que você está reprimindo. Enfim, é uma imitação que está presente nas minhas relações hierárquicas, para simplificar, tanto com os de cima quanto com os de baixo.

E tinha imitações de velhos judeus, de judeus cariocas, de Jânio Quadros, you name it. “Dôquinha, Dôquinha, vamox no c’sino da Urrca!” Muito gozado. “Guga, me conta de novo desse moço cinza de Nova York,” ele me pediu. Era um homem todo cinza que encontrei num supermercado em Nova York, a roupa cinza, a pele cinza, os modos cinza. “Guga, quem é esse Raulizito que você nunca me falou?” Era um personagem meu e da Renata, um paulistano simplório e consumista. Engraçado ele ter ciúme de um personagem, não?

Uma vez pedi para ele imitar o Jurgen Habermas, nossa, foi demais. Escrevi essa história num conto. Ele disse inicialmente que não podia fazer isso, mas depois cantou o Ode à Alegria como gago. Foi realmente genial. O próprio Beethoven aplaudiu.

E ele imitava o Celso Lafer também. Sem o carinho que demonstrava nas outras imitações de judeus. Ele recriava as frases do Lafer, empoladas e vazias, repletas de admiração por si próprias. Não era tão engraçado. Talvez houvesse aí alguma competição masculina, ou um genuíno desprezo por quem usa a cultura para enrolar, não sei. Só sei que quando leio um texto empolado penso no Lafer/meu pai. E quando leio um texto do Lafer me pergunto como é possível, em inteiras 2 colunas de jornal, não dizer nada.

Doações

São Paulo em janeiro é cruzar os Andes sem sair do lugar. A cidade é outra. Os motoristas de táxi viram guias turísticos, os motoristas param na faixa, a metrópole fica íntima, como se “só a gente” tivesse ficado aqui. Os moradores de rua expulsos do centro perambulam sem incomodar ninguém. Então dá vontade de fazer boas ações.

Ontem fui doar sangue no Einstein, normal, faço isso todo ano. Te tratam super bem, tem cafezinho na saída, estacionamento pago, é uma doação de luxo. Aí me animei e hoje fui me cadastrar para doar a medula. Aqui na cidade de S. Paulo só tem o cadastramento na Santa Casa; no interior tem o mesmo serviço em vários lugares, inclusive Marília!

É muito rápido, muito fácil. Se eu fiquei lá, no total, 10 minutos, foi muito. Não é o luxo do Einstein, mas em compensação a agulha é bem menor. Eu realmente recomendo. Aí fui na Liberdade me dar um sushi. Adoro o Tanabe, mas queria ir na Liberdade há um tempão. No restaurante me deu uma certa euforia. Das férias? Da expectativa do sushi? Ou da possibilidade de doar a medula?

Provavelmente, de ter um pepel significativo no tratamento de um outro ser humano. Saí de lá e enchi a sacola com produtos natura e comidinhas japonesas. Encontrei um aluno. E pensei: e se me chamam, como é que fica? Me pareceu muito. O risco de morrer é pequeno; você tem que ter muito azar e ser atendida por péssimos médicos. O risco de levar um raio na cabeça deve ser parecido.

Agora, e o risco de de fato ajudar a pessoa? Esse é alto. E aí é que dá medo. Não fiz medicina por isso. Eu, com todos os meus defeitos, ir lá e salvar uma vida? Não aguentaria o peso. Ir lá e realmente ajudar alguém? Cada um com seus limites.

Ser professor é um bom meio-termo. No geral, você ajuda todo mundo. A ter uma certa disciplina, a ler uns textos, a escrever uns outros, a pensar por si, a conhecer melhor os colegas, enfim, nada muito grave. Além disso, os alunos já passaram pelo vestibular, então você não está tirando ninguém da sarjeta pra começar a história.

Quando você realmente ajuda alguém, digamos uns 5% da turma, é com algo muito específico. Um apoio numa hora crítica, um voto de confiança. Um modo de pensar que outros professores não tinham apresentado. Uma avaliação do trabalho do aluno que destaque uma habilidade não-reconhecida. Não passa disso.

E isso está no meu nível de doação. Mais, eu não poderia. Mas, como o moço do Einstein disse, quando me contava que tem gente que sai frustrada porque descobre que não pode doar plaquetas, o nome mesmo já diz: é doação. Não é sacrifício, não é algo que está além do que podemos. É doação.

Então, se você está de bobeira, passando pelo centro, e for compatível com seu nível de bondade, por que não? Dê uma passada na Santa Casa de Misericórdia…