iTunes U – Brazil

No momento tenho mais questões que respostas sobre iTunes U. Então as listo aqui.

Por que o Brasil não aparece na lista de países? Será que é algo que vai ser consertado logo, ou depende de alguma decisão?

Por que apenas instituições podem lançar cursos? Será que isso será mantido apenas numa primeira etapa, até a plataforma ganhar legitimidade, ou a idéia é essa mesma?

Não pude criar um curso, então não consegui imaginar como são. Tem espaços de discussão, como Moodle, Canvas, ou a ênfase é na distribuição de conteúdo?

Do jeito que está, muda alguma coisa muito profunda na educação? Ou o efeito será mais no mercado de livros didáticos, que a gente usa pouquíssimo?

 

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Dois filmes argentinos

Gostei tanto de dois filmes argentinos recentes que não estou conseguindo evitar escrever uma análise sociológica barata dos mesmos. Pois a gente se pergunta o que esses caras tem que estão fazendo filmes tão bons. E não são mais sobre a tragédia da guerra suja, que dá bons temas, dramáticos. Como “O segredo dos seus olhos” ou “Kamchatka”.

Os filmes são “Medianeras” e “Um conto chinês”. Os dois tocam em temas atuais. Medianeiras fala do isolamento na cidade moderna, minorado capengamente (ou provocado) pela comunicação virtual. Um conto chinês fala das peripécias humanas nessa época de migrações fáceis mas aleatórias.

Temas já tratados em tantos outros filmes. Lembro do filme que não vi, “You’ve got mail”, ou que vi na TV antes de dormir, portanto esqueci. Só lembro do rosto da atriz, inexpressivo, idêntico a tantos outros rostos, mais uma transposição que uma crítica dessa impessoalidade contemporânea.

Teve um outro filme que também não vi, que tratava de inúmeras histórias globais se conectando, não? Não vi pois a sinopse me sugeriu que a trama era muito artificial, construída. E deve haver outros mil filmes tratando dessas questões, bons e ruins, que vi ou que não.

Enfim. Os dois filmes argentinos. Delicados. Engraçados. Verdadeiros. Ficcionais, sem serem artificiais. Quero dizer: levam a gente para o mundo da imaginação sem que nos sintamos manipulados. Tristes. Esperançosos. Como eles conseguem? Como fazem filmes humanos como os brasileiros, com plot bacana como os americanos e… profundos como os europeus?!?

Dá até raiva. Depois que você sai do cinema. Durante, você entra tanto no filme, aproveita tanto, e de tantos ângulos distintos. Melhor cena do Conto Chinês: o vendedor de ferragens finalmente responde em chinês ao imigrante. Sua namorada pergunta o que ele disse. Ele responde sempre mal-humorado que não sabe.

Bom, agora a sociologia. Os argentinos não estão embriagados com a globalização como nós. A sensação de que perderam o bonde, que a estabilidade política é fugaz, que já estiveram melhor antes, que podiam mais. E podiam mais. E aquela mulher brega na presidência, com cara de atriz de novela barata, deve ser um tapa na cara diário.

Argentinos em Israel, na Espanha, nos EUA, até no Brasil. É a hora e a vez dos emergentes, mas a Argentina não é nem primeiro mundo nem emergente.

O primeiro mundo lambe as feridas, abre as portas para nós, tenta manter o número no circo. (Para uma visão mais científica de “tenta manter o número no circo” veja Krugman sobre globalização.) É ocupação tempo integral. Nós, como disse, embriagados. Fazendo filme tipo publicidade, filme de bandido e mocinho, querendo imitar o irmão mais velho, sabe como é? Não vou dizer que “só falta agora fazer filminho de holocausto” porque já fizeram. Primeiro mundo tem que ter filme de holocausto.

Eu me coloco nessa embriaguez também. Globalização, new media, global culture, etc., etc., etc. Crescimento econômico, nova classe média, que legal, o novo Brasil. Mas entrando nesse carnaval a gente perde a crítica, perde a perspectiva. Como caberia um personagem como o do conto chinês no Brasil? Mau-humorado com crediário aberto? Precisa ser alguém que conta os pregos que recebe do fornecedor. Alguém que acha que não está recebendo seu “share” nesse cassino global.

Temos nossas mazelas, mas elas são espetaculares. Cracolândia. E tudo vira festa, churrasco na cracolândia, planos da prefeitura, tudo mega, tudo em ritmo de Copa do Mundo. Ainda o personagem: “se você não sair daqui em 7 dias, eu vou explodir. Bum.” Alguém que já pastou muito, está no limite. No limite de sua intolerância, mas também de sua humanidade. Ele está a um passo de voltar a ser gente. Nós, eufóricos. É diferente.

Conhecimento livre e hierárquico

Fui no sábado na reunião dos editores da Wikipédia, no CCVergueiro. Um grupo muito comprometido com o sucesso da Wikipédia em Português, um grupo bacana, acolhedor, de profissões variadas. Estava lá também o Barry, da Wikimedia Foundation, um tipo de globetrotter que vai ajudando as Wikipedias iniciantes a se desenvolverem. “Qual Wkipedia você comprara com a do Brasil?”, eu perguntei. “A da Polônia?” Falei brincando, pensando nas polonetas do regime militar, no Rei da Polônia do Ubu Rei, enfim, you got it. Ele se animou: “Isso, a da Polônia!” Disse que muitos editores brasileiros provavelmente usam mais a versão inglesa, e ele mencionou que na Índia isso é muito forte. Legal essas comparações internacionais, dá muito o que pensar.

Achei, a partir desse encontro, que o grupo tem um relação ambígua com a universidade, com o conhecimento adquirido formalmente, digamos. Por um lado, tem algo libertário, como disse o próprio Barry. A Wikipedia em inglês começou assim, meio contra-cultura, agora é mais mainstream. Mas como toda reação, já dizia o velho Freud, traz dentro de si seu oposto, vi no grupo, nesse encontro, alguns elementos conhecidos de quem passa a vida na educação formal. Aquela doença endêmica no Brasil, já conhecida antes dos portugueses chegarem à América, por exemplo, a pinimba cavejá. Estava lá, inesperada. E uma certa convicção a respeito do que deve ser o conhecimento, como obtê-lo e apresentá-lo, algo tão familiar para nós, lá também.

Leitores alunos em busca de temas: muita coisa a ser estudada na Wikipedia. Será que os artigos convergem? Por exemplo, se você estudar o artigo sobre a descoberta do Brasil, será que as sucessivas edições levam em conta dados das Wikipedias em outras línguas? Será que a forma de contar as várias independências, tão particulares para cada país, mais heróica, sofredora, cômica, sagaz, etc., acabam se interpenetrando na Wikipedia nas respectivas línguas?

De muito interessante: o grupo está envolvido não apenas com a Wikipedia mas também com questões ligadas a software livre e informação aberta. Para o Brasil isso é fundamental (a informação aberta) pois num país desse porte, com o Estado sendo tradicionalmente visto como inimigo, é importante termos informações sobre como nosso dinheiro é gasto e como o aparato estatal é administrado. Eles têm vários projetos em andamento, muito bacana mesmo.

Sobre a Wikipédia em português: seria legal ter mais editores. Caso você use a Wikipedia em inglês, faça um esforço para melhorar a em português, peça aos alunos para fazerem o mesmo. Nesse próximo semestre, vou provavelmente incluir uma tarefa na Wikipedia em português no curso. Na verdade, confesso, estou um pouco hesitante. Tenho receio que os alunos sejam muito corrigidos pelos editores e acabem desanimando do esforço de construção coletiva do conhecimento. Ou que as hiper-correções acabem prejudicando o meu trabalho de orientação. Pois é engraçado como na luta contra a super-hierarquias do conhecimento no Brasil, a gente acabe sempre criando novas hierarquias…