Uma xícara de café

Na praia do Lázaro, provavelmente no Bar do Peres, me enchi de coragem e pedi um café depois do almoço. Meus pais deixaram. E diante da xícara de café preto eu sorri orgulhosa e me senti gente. Mas a euforia durou pouco. Aquele passaporte para o mundo adulto me botou a cabeça para funcionar e perguntei ao meu pai:

– E seu pai?

A mãe de meu pai nós visitávamos sempre. Eram visitas sem graça, em que passávamos boa parte do tempo sonolentos pedindo para voltar para casa. Entrávamos no carro e começávamos a brincar. Meu pai reclamava:

– Vocês ficaram reclamando que estavam com sono e agora essa bagunça.

Mas e seu pai?

– Meu pai morreu cedo.

Para as crianças, qualquer ano faz diferença. Cedo quanto?

– Quantos anos você tinha?

– Seis.

Fiquei em silêncio. Pensei em minha própria idade pequena e escondi aquele sentimento proibido que é ter pena dos pais. Olhei a xícara de café e com as palavras de criança devo ter associado tudo, pois me lembro agora de tudo junto: o mundo adulto onde eu entrava e as coisas que doíam de saber.

Não parecia ter deixado sequelas, aquela perda. Estava lá meu pai forte, nos levando para passear, ao lado de minha mãe. De que modo ele tinha se criado sem aquilo que até o momento eu julgava imprescindível?

Pensei, já adulta, que me pai inventou um pai com sua imaginação e com seus estudos, uma espécie de super homem que era um misto de seu avô Jacob Schnaider com Filippo Brunelleschi, metade rabínico e metade renascentista. Entretanto, fisicamente, meu pai era muito parecido mesmo com seu pai, com aquele seu rosto atraente de gângster de filme americano.

Agora, olhando para trás, vejo que não pode ter sido exatamente assim. Um pai não se descobre nos livros. Aprendemos a ser quem somos com aqueles à nossa volta e, para o bem e para o mal, não conseguimos facilmente nos libertar de seus modos de ser, de agir, de pensar. Seguimos todos, ainda que não no CRM, as profissões de nossos avós.

Devidamente enterrado no Cemitério da Vila Mariana, acudiram os filhos de meu avô os tios e tias dos pequenos, devolvendo algo que lhes havia sido roubado. Mas deram tanto e com tamanha generosidade, que acabaram superando em muito o que meu avô mesmo podia lhes oferecer como pai.

Meu pai adolescente acompanhava com os olhos as baratas que os alcoólatras viam subir pela parede, na sala de espera do consultório psiquiátrico do Tio Henrique. Talvez lá tenha desenvolvido seu desgosto com a bebida ou, mais profundamente, uma compreensão do que pode fazer um diploma para ajudar as pessoas, lição também dada pela Tia Raquel. Eu os conheci só de nome. Mas os homenageio aqui do fundo do coração.

Enfim. Os dois irmãos criados pelos tios amorosos cresceram corretos e, no caso de meu pai, genial. Talvez seja por isso, eu conto para a menininha que tomava café pela primeira vez em Ubatuba, que não havia nenhum trauma aparente, nenhuma sequela naquela ausência que pode até ter virado uma bênção.

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