O tempo pára: sobre a vida da tia Guita

Para amigos e familiares que a conheceram, e também para os que apenas ouviram falar, comunico que faleceu ontem minha tia Guita, irmã mais velha de meu pai. O enterro foi hoje no Cemitério Israelita do Butantã e faremos em breve uma cerimônia de Shloishim. Foi uma cerimônia bonita. Estavam lá 3 dos 4 sobrinhos e 3 dos 4 sobrinhos-netos, por sorte no Brasil, além dos cônjuges. Cada qual lembrou um aspecto da vida e da personalidade da tia Guita, e fiquei espantada em ver que tínhamos lembranças tão diferentes. Estavam lá também alguns funcionários antigos, que tiveram a gentileza de vir prestar essa última homenagem.

Em cada um de seus rostos, vi outros funcionários, ainda mais antigos, alguns já não entre nós. Vi a Maria, irmã da Terezinha, que minha tia adorava! Vi a própria Terezinha e a Rita, a quem minha tia recebeu como visitas ilustres certa vez no apartamento da Melo Alves. Vi a Margarida, uma outra Maria, a Mara e a Silvia, com quem minha tia teve relações melhores ou piores, mas sempre muito intensas. Quando ela chamava alguém de Maria, era sinal de enorme apreço, enorme apreço mesmo. Vocês não têm idéia. Vi também os profissionais que só conheci de nome, o famigerado gerente da fábrica de meu bisavô, que fazia móveis para 4 aposentos e vendia o quinto por fora, o que levou o negócio à falência nos difíceis anos 1930.  O advogado que cuidou muito bem da papelada, a quem minha avó visitava levando a adolescente tia Guita. Médicos ilustres que cuidaram de familiares. Um farmacêutico que negou emprego à tia Polinha e um médico que reconheceu o trabalho da tia Raquel, minhas tias avós estudadas.

Pois vocês sabem, minha tia não tinha memória. Não é que lembrasse de coisas passadas. Apenas relatava o que em sua mente se passava ali mesmo naquele instante, não importando se em nosso calendário se haviam passados 4, 5, 6 ou 7 décadas. Não era doença, era um modo de ver o mundo, a vida, os acontecimentos. O passado não ficava para trás. A conta aberta no Banco São Paulo, onde a caixa havia conhecido seu pai. As lojas onde a tia Raquel a levava, no centro de São Paulo. O cheiro de café queimando e empesteando a cidade toda, coisas de livros que os relatos de minha tia tornavam visceralmente reais. Os crochês que sua tia Raquel, psiquiatra, havia ganho das pacientes doentes mentais, a quem tratava com respeito, como gente. Os crochês estão lá, enfeitando a mesinha da sala, espero que guardem para mim, absolutamente conservados, não é um milagre?

Não é um milagre que o tempo não passe? Ou que em alguma dimensão psíquica não transcorra? Pois era assim com a tia Guita. Os traumas também não passaram, é verdade. Em especial o falecimento precoce de meu avô, em 1937, menos de um ano após o falecimento de meu bisavô, o patriarca. Um trauma, a perda dos arrimos da família e do status que tinham, de doadores da comunidade a gente humilde, que tinha que lavar e passar a roupa de um dia para o outro pois não havia reserva. Que escondia ter tido tuberculose, doença de pobre. Mas com a tia Guita era assim, o tempo parava quando queimavam o café e às vezes soluçava pra frente, retornando ao seu natural, o ontem.

Com a tia Guita soube do circo que se instalava perto da Alameda Lorena, acompanhei a construção do Hospital das Clínicas do outro lado da Rebouças, que antes era um barranco onde as crianças brincavam e voltavam sujas, para desespero das mães. Fui até o Municipal com toda a comunidade judaica, em procissão, ouvir um cantor ídish famoso que se hospedou na casa de meu bisavô.

Vivi os anos 1930, portanto, talvez até mais que com minhas outras tias-avós, cujas fascinantes memórias se voltavam para dentro, para o rico ambiente familiar e emocional que compartilhavam, as tramas de expectativas e as sutis interpretações. O cheiro do café queimando – que coisa mais profundamente paulista, que ferida essa em nossa história, talvez tão forte como a do avô e do pai indo embora antes do tempo. Sem conhecer, conheci o tio Henrique, Henrique Mendes, também psicanalista que se casou com a tia Raquel e fez as vezes de pai ao meu pai e até de sogro para minha mãe, que o ouvia e respeitava.

Fui de trem ao Rio, ficar com a tia Eva e tia Branca, que faziam tudo para a tia Guita. Houve momentos, claro, que a tia Guita pode olhar para trás como quem olha para trás e pensar em sua vida. Mas foram momentos raros, numa circunstância especial. No mais, vivia o passado como presente, com a mesma dor e prazer com que eu e você viveríamos uma aventura atual. Claro que assim o presente – esse lugar onde de fato executamos nossos planos – fica prejudicado. Não cabe assim o presente na vida. Mas vou lá eu julgar? Falar, todos falávamos, em toda a família. O presente, para a tia Guita, pelo que ela demonstrava com suas críticas ferinas que podiam atingir o Silvio Santos, uma empregada, um parente que não se comportou bem ou outro alvo aleatório, o presente não estava à sua altura, digamos.

Mas as falas diversas da cerimônia hoje, que talvez se repitam em todas as cerimônias, nos lembram que cada um tem um jeito próprio de ver as coisas. Cada um mora num lugar diferente do mundo. E talvez cada um more também num lugar diferente do tempo, conforme lhe apetece e lhe é possível. Em algum lugar ainda constroem o Hospital das Clínicas e queimam café nessa cidade. Um cantor ídish se apresenta no Municipal. Tia Raquel recebe presentes de suas pacientes do Juqueri. Um funcionário engambela uma viúva, um circo é montado nos Jardins, um jovem arquiteto traz os amigos para almoçar em casa na Major Sertório.

Tia Guita está lá.

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