Carol e o Repentista

Hoje tive uma experiência tão bonita, tão bacana, não sei se vou conseguir transmitir a vocês. Gravei um pedaço, mas não foi o melhor pedaço e o vídeo não capta o que foi estar naquele ônibus descendo a Rebouças no final da manhã.

O ônibus tenha um repentista. Que ia brincando com os passageiros, e arrancando sorrisos e até risadas. Brincava e pedia dinheiro do jeito que os repentistas sabem fazer, vão descrevendo as pessoas e suas ações no que há de mais visível e talvez verdadeiro e vão construindo versos.

É bonito de ver. O moço tinha um sorriso também bonito, não sei dizer se ele era bonito. Naquele momento era lindo.

Não havia politicamente correto. Falava do negão, da loira bonita, do doutor advogado, da japonesa, falava de todos os passageiros, uma era a cara da Patrícia Pillar e outro era irmão de algum jogador de futebol, ele não hesitava. Ríamos. O senhor que mora bem e onde eu moro não vai nem a Rota.

Mas não era crítica social, era uma coisa toda alegre. Ao fundo dando o ritmo uma voz de criança, a Carol. Ao final, ele falava com a menina, tudo no repente. Olha só minha Carol, agora vamo simbora. E assim por diante.

Eu filmei e ele logo viu, falou que eu ia por no YouTube e ficar muito famosa, tudo sem perder um verso. Mas não apertei o botão direito e só comecei a filmar mesmo depois.

Todos sorriam no ônibus.

Isso é que era o melhor. Alívio da crise, do compromisso, de tudo. Ele era especial, com aquele humor dele, brincando com todos, fazendo todos se desarmarem. Mas não podíamos ter mais disso? Ai, como São Paulo merecia!

Perguntei, com sorriso, mas sabem como sou, sou meio chata, perguntei se a Carol vai pra escola. Ele no repente disse que a Carol ia sim, que a aula é à uma e meia e que já estão indo lá.

Depois, quase descendo do ônibus, saiu dos versos, tirou o sorriso, agradeceu a pergunta, disse que se chegasse um pouco atrasado a diretora deixava entrar, era só fazer um repente, disse que era bom ter alguém se preocupando com as crianças, e disse também que a Carol ajudava o pai e depois estudava sim, não falou em orgulho mas pra que falar, era orgulho sim, era uma gratidão.

A menina era pequena, podia talvez estar brincando, se aprimorando na vida. Mas o repente do pai, o dinheiro ganhado justo, aquele carinho todo e os versos aprendidos, não era de condenar. Era só de apreciar, nessa São Paulo tão dura, que pai e filha alegrem, o paulistano na rua…

Carol e o Repentista

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