Sobre o fim simbólico do PT

Escrevi no dia 4 de agosto, após a prisão de Dirceu.

Aécio não comemora nem lamenta as prisões, mas louva o funcionamento das instituições. Como disse por aí, eu fiquei meio baqueada com a prisão de Dirceu, não por alguma solidariedade que eu tenha com o criminoso, mas porque encerra um ciclo que é um ciclo meu também, além de ser do meu pais, de minha época.

Eu nunca fui petista. Nunca fui de tendência, no movimento estudantil éramos totalmente independentes, e gostava mais dos comunas antigos, aliás filhos dos comunas antigos. Eram afinidades sociais e pessoais, mas vejo também que eram políticas, de compreensão da política como lugar da democracia e do diálogo, em busca de ideais humanistas.

Mas eu fiz campanha pra Erundina, pro Lula no segundo turno de 1989. Estávamos de algum modo do mesmo lado, pensávamos. Depois, ainda fiz campanha pro Nabil Bonduki e pra Marta, e nunca mais votei neles. Sei que cheguei a votar em Mercadante em algum momento, gostava do modo simples com que ele explicava economia para o povo, que hoje sei que era um populismo desonesto. Nunca, jamais, me decepcionei com o presidente Lula. Sempre soube quem ele era. O Genoíno que todos adoravam não me dizia nada, então não me decepcionei por absoluta falta de expectativa.

Mas a Marta decepcionou, o Mercadante, a Erundina, o Bonduki. O Suplicy é aquela geléia, não há como se decepcionar. Apenas dá pena. Mas confesso, eu algum dia acreditei em alguns petistas. Estavam do meu lado, seja lá o que isso fosse.

E se passaram então muitos anos, a maioria, como disse, votando em outros partidos. Mas já votei no PT. O PT sem o voto de gente como eu, os iludidos das grandes capitais nos anos 1980, não existiria. O PT, sem o voto de gente como eu, não existiria.

E ontem foi preso o chefe deles, uma ladrão contumaz de acordo com as provas que chegaram às mãos do juiz. Não o dono do negócio, mas o chefe do negócio. Preso mesmo, esse aí não vê a luz do sol muito cedo. Preso. O chefe.

Fiz uma tabela de votos, e acho que das 16 eleições que já pude participar, votei neles em apenas 3. Em outras 3 estava nos EUA. Comecei em 1986 no PMDB, votei no Freire PCB uma vez e nas outras 8 votei no PSDB. Três eleições é pouco, mas ao mesmo tempo não é. Esse povo todo que está sendo encaminhado ao cárcere, nós íamos nas festas, encontrávamos pela cidade. lembro de uma vez ver o Genoíno no ponto de ônibus em Ubatuba, aguardando o ônibus para S. Paulo que sua mulher tomaria. Ocupavam o mesmo espaço que nós. Estão em cana.

Como assim, não sentir nada? É a história no meu país, é a minha história. Eu sinto sim. Quero chorar. Eu estou triste. Não por um ou por outro, se tomam banho frio ou se as supostas esposas vão lhes abandonar. Não. Estou triste por mim. Pelo poder das idéias, idéias que eu prezo tanto e que serviram apenas para enganar. Pelo poder do dinheiro, dinheiro que serve para unir as pessoas em empreendimentos comuns e foi usado para denegrir a todos, a jornalistas, a cientistas, a deputados, talvez a magistrados. Todos no Brasil estão sob a pecha de “suposto”, como disse o Juiz Moro.

Não me entendam mal, não lamento a derrocada do partido ou de suas figuras. A sorte deles não me diz respeito. Mas o país hoje está livre dessas figuras, recomeçando como uma esposa abusada por muitos anos que deve começar do zero. Então há talvez a alegria da liberdade. Mas há um certo pesar, sim, um luto pelo tempo passado espoliada.

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