A praça de Gamão

Tocado com as saudades da filha, meu pai resolveu me aparecer hoje no clube, na forma de um faxineiro fanho. Compenetrada com emails a responder, eu apenas ouvia, como se fosse de muito longe, a voz alta, afetada pelo defeito de fala, do senhor que varria as folhas do clube perto da praça do gamão. Levantei os olhos uma vez, e posso até ter pensado que meu pai acharia graça no homem, depois me distraí novamente em textos, conexões e respostas.

Mas o homem estava indignado, explicava algo a um funcionário mais graduado que o ouvia simpático e condescende. Era difícil compreender o quê. O sotaque nordestino, a fala desarticulada, mas também um raciocínio intricado e o tom exaltado não me informavam exatamente o que havia acontecido. E foi aí que ele me apontou ao funcionário, dizendo que eu tinha visto tudo e ia comprovar seu depoimento.

De repente, eu era testemunha de algo. Eu sabia que ele estava certo. Algo em seus gestos firmes, sua estatura pequena, seus braços curtos, algo me dizia que ele falava a verdade. A história, pelo que entendi, era que uma mulher havia passado por ele e reclamado que havia tropeçado na vassoura, vassoura essa que ele apenas manipulava para varrer folhas e não para fazer tropeçar sócias. Fazia sentido. Ela que prestasse atenção no faxineiro em seu trabalho e desviasse da vassoura.

Eu disse que não havia visto nada, estava distraída, o que era meia verdade. No fundo, sabia que o homem tinha razão. Era indignação de homem, era justa, e não merecia condescendência. Meu pai, vocês sabem, já contei várias vezes, adorava imitar esses tipos. Mas não eram só tipos, eram algo mais profundo. Eram uma espécie de alter ego de meu pai, o arquiteto imaginativo, o homem interessante, o pai piadista.

Na maior parte das vezes, homens assim garbosos têm dentro de si um canalha. E, sem enxergar direito o avesso, muitas vezes me apaixonei errado, buscando parceiros de vida nas páginas da Interpol. Entretanto, olhando bem meu pai, atentamente, talvez por décadas, era possível ver ali meio cômico um ser muito parecido com o faxineiro do clube. E, naquele gesto orgulhoso do homem, vi também, pois quando decido ver, eu vejo, um arquiteto brilhante.

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