Um trombone delicado

Hoje fui no Boca no Trombone, do Eduardo, um Speakers Corner paulistano. A primeira edição foi marcada para o Largo São Bento, cheguei lá, dei voltas, acabei achando, pouca gente. Mas gente que eu gosto, a Paula, outros.

Os amigos foram chegando, deu massa crítica, passantes foram parando para ouvir e depois para falar. Pensei em falar sobre transparência governamental, mas é tão abstrato. Precisávamos nos revezar para atrair gente.

Quando decidi falar sobre liberdade de expressão, foi fácil. Peguei o megafone e falei do próprio megafone, que era bom falar, que era bom ser ouvida, que deve haver liberdade de fazer isso, simplesmente falar.

E que as mídias devem ser todas livres, para a gente falar o que quer e ver o que quer. Que o único censor deve ser o nosso próprio controle remoto, apenas ele, ninguém mais, no governo ou onde seja. Agradeci os aplausos, forçados ou não, com sinceridade.

Pois estava feliz. Juro, estava feliz. Eu que falo tanto, aula, textos, redes sociais, debates, eu estava feliz na tarde fria paulistana, falando para talvez uma dúzia de pessoas na beira do Viaduto Santa Efigênia. Estava eufórica.

E quando o pessoal começou a falar, fui perguntando, para cada um, o que sentia. Claro que hesitavam, mas quando começavam a falar era tudo de uma total coerência, uma história encadeada, lógica e cativante. Como era falar assim? Descobrir-se um falante?

É isso que perguntei. Você no começo estava hesitante, mas falou bem. O que sentiu?

O que é hesitante?, um deles me perguntou.

Você no começo estava no quero falar, não quero.

Ah.

E essas as respostas que ouvi.

Um jovem que falou sobre a política, sobre a crise, disse que sentiu liberdade por ter falado. Um outro jovem, acho que o primeiro de todos, falou algo tão bonito. Missão cumprida. Estranho, não? Suamos de segunda a sexta, aí em 3 minutos, missão cumprida. Que será isso? Desculpe não contar as histórias relatadas, mas acho que o pessoal vai postar na página do Face.

Uma mulher que se apresentou como representante da periferia e contou uma história de abuso dos fiscais da prefeitura disse que para ela foi um desabafo. Um ex-detento, muito articulado, falou das injustiças que cometeram contra ele, que para nós fizeram sentido. Quando percebeu que estava sendo filmado, disse que não queria mais falar, pois temia represálias. Todos nós dissemos que não iria ser publicado se ele não desse permissão por escrito. Aí ele soltou:

– Então publiquem. Sou sempre do contra. Se não pode, faço. Se pode, não faço.

Ele, com um bom humor que eu não teria se tivesse saído da prisão nessa semana, disse que foi bom soltar a voz. Ao menos alguém me ouviu, ele disse, constrastando com o tratamento que teve num órgão público de assistência aos ex-detentos.

Um jovem paraguaio declamou um belo poema. E disse que se liberou falando para nós. Dizendo isso, mexeu os ombros como quem de fato se solta. Que poder tinha o megafone, o banco de madeira, o lugar de passagem no centro de São Paulo?

Um homem que estava lá desde o começo, com quem insistimos muito para falar, finalmente pegou o megafone, e não queria mais largar. Fiquei até com medo. Falou dos ônibus cheios, dos políticos que não sabem o que é a vida comum das pessoas. Ele, que ao final pediu para chamar a Dilma para debater, me disse ter sentido alívio.

E então você coloca um megafone nas mãos de um homem e ele não é mais o cidadão humilhado, é o debatedor da presidente? Me deu até um certo medo isso. Mas vamos lá.

Logo antes dele, uma moça jovem com um violão nas costas disse que a mudança deve vir de dentro, nos gestos nas filas com os idosos. Não há político nem passeata que nos mude. Só Jesus. Ela aceitou Jesus, e agora está bem. Antes, se feria, tinha distúrbio.

Mas agora com Jesus está bem, e era isso que queria dizer. A voz tremendo, ela tinha distúrbio, ela pedia que a gente entendesse a mudança. Eu, num dia ruim, daqueles quando o médico nos garante que não estamos doentes, mas nos lembra que Chronos também está com muita disposição, até cogitei aceitar Jesus, ou ao menos compreendi exatamente o que a moça, que havia parado de se ferir, dizia.

Por que tudo isso? Por que o alívio, a missão cumprida, a liberdade e a alegria, pois a moça do violão falou da alegria, da alegria de falar de Jesus, por que tudo isso com o pequeno megafone, quando temos todo o resto à nossa disposição?

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