A Primeira Start-Up de Israel

Eles eram craques no planejamento e na administração pública, e não foi de poucas enrascadas que tiraram o gigantesco governo local. Além disso, projetaram e construíram enormes obras públicas, símbolo até hoje da capacidade inovadora e da riqueza do país. Mas há gente que está feliz onde está, e há gente que sempre quer mais. Quem é que não sonha, estando confortável numa grande empresa, em abrir seu próprio negócio, mesmo sabendo dos riscos envolvidos?

O patrão não ajudou. Sabe quando você está na firma há tanto tempo que ele começa a te importunar, o famoso assédio moral? Pois é. Implicou com isso, e com aquilo, e com aquilo outro. Nesses momentos, a gente ou abaixa a cabeça ou parte para outra. E eles não eram de abaixar a cabeça, pois estavam confiantes de que, sim, poderiam se manter por si! Só faltava um líder que aglutinasse todos e propusesse um plano para o novo empreendimento. Um líder que falasse a língua deles, em quem eles pudessem, se tudo desse errado, botar a culpa. Pois essa é a função do líder.

E então foram ter com o Faraó, sacar o FGTS, férias acumuladas, e coisa e tal, com a promessa de que 1% de tudo o que a nova empresa lucrasse seria dele, como retribuição aos séculos passados no Egito e principalmente à acolhida de José numa época de vacas magras em Canaã. O Faraó se contorceu de rir, 1% de nada? Dos lucros de um negócio que nem ao menos existia? Moisés pediu sarcasticamente para que o Faraó olhasse bem aquelas pirâmides, do ângulo que fosse, e repetisse na cara dele que aquilo era nada. Oferecia 1,5% e mais não.

O Faraó se negou.

– Daqui vocês não saem.

Moisés teve medo. Pois todo bom líder tem medo, pondera, decide sem bravatas. Será que o Faraó sabia do que havia acontecido nos acampamentos do Sinai?

O Faraó também teve medo. Não podia perder aquele pessoal de modo algum. Que seria de suas finanças, de seu poder baseado na imponência de sua construção civil? Da capacidade daquela gente, desde José – como detestava que o hebreu fosse mais lembrado que seus antepassados! – de impedir que seus súditos morressem de fome. O silêncio atemorizava Moisés, que desconfiou que o Faraó sabia da tecnologia desenvolvida no Sinai. Um pouco por cálculo, um pouco por justiça, resolveu dar mais.

– Faraó – Moisés falou – somos gratos a tudo o que tivemos no Egito. Na real. Aqui vivemos nossa vida, aqui aprendemos com vocês. Demos também nossa contribuição, mas recebemos muito mais que isso. Recebemos ensinamentos de seus sacerdotes e seus escrivães. De sua gente, de suas mulheres – isso super no bom sentido – e de seus artistas. But we gotta go now. I’m saying now. Let my people go, got it? Então eu te proponho além dos 1,5% oficiais, mais 0,5% como gratidão pessoal. E abrimos mão do FTGS.

Moisés contava com a generosidade do povo egípcio que lhe daria fundos para aguentar até que o retorno começasse a chegar.

O Faraó disse não. Achava que podia reter seus funcionários com contratos caducados. Mas a verdade se desnudava diante dele: os hebreus estavam no Egito por opção, não por ignorância. E haviam decidido ir embora. Então os reteria pela força. Moisés viu que não havia mais espaço para diálogo. Se oferecesse mais de 2%, perderia a moral com os seus, pois essas coisas vazam. Podem demorar, mas acabam vazando.

– Whatever, Faraó – o líder hebreu disse, deu de ombros e retirou-se do palácio. Tinha o produto inovador, tinha uma equipe fantástica, não iria ficar prestando contas em hieroglifos o resto da existência.

Seguiram-se ordens judiciais, confisco de bens, até mesmo acusações de injúria, calúnia e difamação, pois alguns jovens hebreus, e infelizmente algumas jovens hebréias, tinham a língua um pouco solta e de fato falaram coisas do Faraó um pouco desabonadoras, não apenas sobre seus hábitos sexuais, ou falta deles, mas também sobre o modo como gerenciava certos empreendimentos imperiais. O povo hebreu estava resoluto, entretanto. Com liminares em várias jurisdições foram se livrando das ações do Faraó até que este perdeu a noção do ridículo e mandou a guarda imperial baixar o cacete em todo mundo como se o povo hebreu fosse uma turma de black blocs.

Foi a gota d’água. Agora, era botar Deus na parada ou iriam ficar a existência toda comendo areia nas margens no Nilo. Deus, vocês sabem, é aquele cara hiper conectado com tudo com quem é melhor não mexer. Conhece todo mundo e sabe-se lá como está sempre a par de tudo o que acontece e até de resultados sigilosos em véspera de publicação. Mas, nesse caso, só Deus mesmo. Moisés pediu a Deus que usasse todo o seu poder, que não era pouco, contra o Faraó, até que ele visse que o melhor era assinar a homologação sem delongas.

E Deus, sabe-se lá por quê, pegou pesado. Com seu jeitinho de eminência parda, nunca aparecendo pra ninguém mas sempre dando um jeito de ser ouvido por todos, conseguiu a aprovação de um pacote de obras públicas justo num momento em que era preciso parcimônia. Aí proibiu a importação de tecnologia, coisa que nunca deu certo mas exatamente quando o setor tecnológico estava se globalizando era a pior coisa do mundo. Sem que as massas pedissem, falou com um e com outro e obteve o aumento dos programas de distribuição de grãos; quando o trigo fez falta, os silos estavam vazios. O Faraó se enraivecia, mas não enxergava quem estava por trás de todo esse desmando.

As outras pragas você já conhece, pois são contadas de geração em geração: a regulamentação da produção do papiro, a importação de escravos da ilha de Creta, o fim dos projetos de recuperação da irrigação fluvial, a Deus não faltava imaginação. Eliminou todo o tipo de registro contábil, em papiro ou pedra. Conseguiu passar um decreto secreto a que apenas parte da máquina do Estado tinha acesso, causando enorme confusão. Obteve a própria nomeação como Chefe da Casa Civil, sua grande ambição. E, por fim, atrasou a tabela do SUS, o que causou uma verdadeira calamidade pública no Egito.

Que tinha ele a ver com o povo hebreu? Nada. Por ele, que se lixassem todos. Mas estava de olho nas perspectivas da startup, e era um pouco mais esclarecido que o pobre Faraó. Além disso, com seus contatos, sabia o que havia se passado no Sinai: tinha o que chamamos hoje de “informação privilegiada”. Sabia por relatos muito precisos que uma nova forma de escrita estava sendo gestada, e queria parte no negócio. Mesmo que não fossem benefícios financeiros, queria ser citado como autor, na licença Attribution Alone (BY). Isso era non-negotiable. O impacto seria tremendo: milhares de pessoas sabendo ler, a escrita ao alcance de qualquer tolo. Idéias circulando por todo o Mediterrâneo, gerando mais negócios, a coisa ia longe. Parecia coisa de ficção científica. E Deus no centro de tudo. Por isso infernizava a vida dos egípcios a partir da Casa Civil.

A Deus, veja bem, não interessavam os negócios. Só o poder incomensurável que o alfabeto poderia gerar. Ele seria um César.

Os hebreus não tinham com que se preocupar. Com Deus a seu lado, as coisas fluíam, desde que mantivessem a contrapartida. Era mesmo como Moisés pensava: tinham um produto inovador e uma equipe fantástica. Não havia o que temer. Era só ter fé, o negócio era plenamente sustentável. Podia demorar um pouco aqui e um pouco acolá, bumpy road to success. As irmãs Savrim podiam acabar sendo um problema: por terem vindo com a idéia, queriam gerir a empresa. Tá. Moisés pensaria em algo, proibir o feminicídio, algo assim. Alguma concessão.

Isso era pra depois. Agora era ter fé, pensar no poder da nova tecnologia e de tudo o que ela poderia gerar. Do que ela poderia gerar. Finalmente se instalar no novo headquarter, rodar o app em todos os suportes, pedra, cerâmica, papiro e, pasmem, pele de carneiro, super smooth. As crianças crescendo já familiarizadas, exímias redatoras, meninos e meninas. Fazendo o diabo, precisam de ver. Coisas que nem sonhamos.

Escrevendo o Ensinamento.

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