Um pouco de poesia

Essa semana percebi que no feici não sou poética. Você lê muito Joselito, muita Cora Ronai, não faz bem. Isso sem contar os suspeitos usuais, os colunistas da Veja, os liberais pulp adotados por nossos jovens, a coisa não faz bem. E descobre coisas estranhas: quer irritar alguém? Corrija-lhe a gramática. Um desses Felipe Monjardim ou algo assim respondeu minha carta à seção, toca nos nervos. Mas eu, eu que toco a alma das pessoas, que já ouvi do Moacyr Scliar que ele ficou tocado com as minhas lembranças do Marcão, eu que perturbava minha mãe com histórias de loucura, eu que ouvi de meus leitores de contos pornográficos que eu escrevia baixaria, mas minha baixaria tinha poesia, eu irritando o colírio Moura Brasil? Não, o feici é um degolador da minha poesia. Por isso volto hoje ao blog.

E volto falando de um bairro escondido de São Paulo, um bairro inimaginável. Uma espécie de periferia dentro da cidade. Um Bixiga, uma Vila Madalena pré-bares, escondido, quase como se entrássemos num elevador e apertássemos o oitavo subsolo e saíssemos andando por ruas muito estreitas, mas repletas de carros, Salas de jantar de porta aberta dando pra rua. Botecos abertos pela rua, com gente do bairro frequentando e você pensando: esse deve ser o lazer de fim-de-semana dessas pessoas, como se elas não estivessem a 15 minutos da Paulista.

Casas muito antigas, com pequenos negócios, costura, pequenos mercados cabendo na sala. Algumas casas viraram predinhos feios sem reboque, como nas favelas, estamos mesmo tão perto de tudo o que chamamos de São Paulo? Mas o resultado é humano, não saberia explicar. É tanta ladeira, tanto sobe e desce, tanta curva, demorei para sair de lá. Um labirinto, uma coisa meio Twilight Zone.

Nenhuma gentrification. Na Rua Novo Mundo, 3 casas no começo da rua mais ajeitadinhas, onde a rua é sem saída. Quer dizer, há uma saída numa escadaria, mas ela só dá para a terceira casa. Uma escadaria João Pé de Feijão, algo mágico. Acho que ninguém viu que o bairro existe. Fui caminhar numa pausa de um seminário numa ONG no bairro, um homem me parou dirigindo e me perguntou onde era a Rua Novo Mundo.

Eu indiquei exatamente, mas ele se perdeu e chegou meia hora depois de mim, era o churrasqueiro. Um bairro escondido dele mesmo. De gentrification, só a ONG, claro, mas era um ONG pouco gentrificada, te digo. A casa mais no estilo Vinicius que Bauhaus. Por que Vila Anglo-Brasileira? Não vou buscar no site, vou dormir com esse mistério, Algum grafite nas ruas, é verdade, mas nada a mais vilamadelênico, nada dilmensteiniano. Todo mundo meio surpreso, já passei perto daqui, nunca tinha notado. Uma ilha submersa.

Contei da etiqueta dos carros? Todo mundo dá uma encostadinha pro outro passar, pois a rua não cabe dois carros mais os estacionados. Calçadas estreitíssimas, impossível andar por elas estilo Le Corbusier, sem pensar (é Le Corbusier, né?). Se eu fosse morar ali, seria estrangeira.

O que seria de S. Paulo se houvesse mais bairros assim?

O prefeito deveria consertar as calçadas? Botar micro-ônibus para as pessoas chegarem no Metrô sem esforço? A Vila Anglo-Brasileira me pareceu um atestado de que o melhor é ser esquecida, sumir do mapa, dos bem intencionados e dos mau-intencionados. Me pareceu um refúgio de planejadores.

Uma idéia meio louca me surgiu na cabeça, pela ambivalência da frase anterior: “refúgio de”. E se fosse nesse bairro, nessa vila urbana, que os verdadeiros donos da cidade morassem, os que mandam nos zoneamentos e nas incorporações, nos traçados do metrô e nas intervenções de promoção do protagonismo juvenil, e se fosse lá que, escondidos em suas casinhas e sobradinhos, se refugiassem do caos que impõem ao resto de nós?, ao resto de nós.

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