Um copo de Vodka

Ela chamou o elevador enquanto ainda conversava com o novo cliente, mas não mais do projeto, apenas as banalidades do tempo e do trânsito que os paulistanos falam quando o trabalho cessou.

Foi aí que o vizinho da frente abriu a porta e a intimou:

– Entra, vamos tomar uma vodka!

Karina quis dizer não mas já era o fim do dia, não tinha desculpas. Chaim sempre insistia com a coisa da vodka e ela recusava, era muito ocupada. Isso no clube quando se encontravam. Mas com ela ali, o trabalho acabado, que desculpa?

– Kátia, vamos, vamos! – E olhando o vizinho que tinha o rosto inclinado e as sobrancelhas franzidas de espanto, explicou:

– Kátia é minha amiga do clube!

A arquiteta corrigiu:

– Karina.

– Karina – Chaim repetiu, como se fosse uma concessão. – Karina, Karina.

Sorriu sem graça para o cliente e entrou no antigo apartamento de Chaim, com os ombros encolhidos como se entrasse no castelo de tijolos que havia no clube nos anos 1970, com seus túneis úmidos e pontos cegos. Tomaria a vodka com Chaim.

Ele estava animado. Sacou da estante uma garrafa escondida atrás dos livros e buscou dois copos na cozinha. Ela espicaçou-o:

– Sua filha não deixa você beber, Chaim?

– Nããão – ele respondeu, com aquele sotaque indefinido do leste europeu. Eu escondo essa vodka boa dos amigos! Essa é só para as mulheres! Viu? Só para as mulheres!

Ela riu. O dia havia acabado, os clientes atendidos, as reformas andando, as paredes pintando, os pedreiros cobrando, tudo ia bem. Agora ia tomar uma vodka com o Chaim, já tinha aceito e é o que ia fazer.

– Não vou ficar muito – avisou.

– Por que você fala isso, hã? Por que?

Ela não respondeu. Ele colocou a vodka nos copos, contrariado. Mas quando serviu já sorria com seus olhos azuis, grandes, as sobrancelhas brancas caindo nas pálpebras. Ela retribuiu o sorriso, depois olhou em volta do apartamento.

– Você faz reformas, então? – Sem esperar ela responder completou: – Arrumou um cliente duro, viu? Esse sujeito é uma praga.

E virou a cabeça pra trás, rindo:

– Uma praga! – E mudou de assunto: – Estou contente por você estar aqui. Que acha do meu apartamento? Lugar de velho, não? Mas eu gosto. Eu gosto de morar aqui, perto de tudo, minha filha. Eu gosto. Morei em muitas cidades. Ih, muitas cidades! Você também, você é uma moça viajada. Eu também. Que cidades você morou?

– Morei em Chicago, e pouco tempo em…

– Chicago é bom. Estive em Chicago. Mas é muito frio. É a Rússia. Não é bom. A Polônia não é tão frio. Mas não sei se é bom também. Não é. Pra mim foi bom, um tempo foi bom. Eu nasci na Polônia. Você sabe, não? Eu nasci na Polônia. Já contei?

– Por alto, contou. – Ele já havia contado.

– Mas conta de você, onde mais você morou? Já morou em Israel?

– Não, só fui uma vez…

– Eu morei em Israel! Ivrit, fala ivrit? Minha irmã depois da guerra foi pra Israel, eu fui para Israel. Gostei. Mas não é bom. – Fez um gesto com a mão espalmada e subiu as bochechas como se não recomendasse a compra de um casaco para um cliente. – O Brasil é bom. Aqui em Higienópolis é muito bom, você não gosta daqui?

– Muito, eu…

– Eu não sabia que você morava aqui. Nunca vi você aqui! – Chaim disse indignado, com se ela tivesse se escondido o tempo todo. – Você mora aqui afinal? Pensei que morava longe.

– Moro aqui no bairro sim.

– E não é bom? Por que não é bom? Higienópolis é muito bom sim.

– Sim, é um bom bairro – Karina pensou. Gostava do bairro, das reformas, das pessoas. Tudo a espantava, mas nada a surpreendia.

– Eu acho bom. – E por um momento Chaim ficou em silêncio.

Os dois respiraram fundo, olharam em volta, sorriram um para o outro e ele retomou:

– Você não fala nada, o que tem você?

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