Por que não? Uma homenagem ao consulado francês em SP

Era em plena epidemia de meningite, em São Paulo. E não havia vacinas para todos.

Não vou dizer as causas pois as causas estão nos livros: a periferização da cidade, a imprensa controlada, a falta de planejamento. E a doença, que tem sua lógica própria, os bacilos, os germes, os assassinos de crianças que o homem tenta manejar.

Vou tentar contar o que vi apenas, que era minha mãe ainda bem alta, num corredor de uma casa, que era o Consulado Francês em São Paulo, uma casa que eu lembro como as antigas casas de São Paulo, brancas, com tacos de madeira e muitas janelas.

Era pra nós uma situação normal. Nossa mãe nos levando no médico, mas era também um pouco anormal, pois além de nós dois ela levava também nossos amigos, Rodrigo e Marcelo, como se fosse em excursão.

O consulado tinha um estoque reduzido e atendia os franceses residentes no Brasil naquela emergência A casa estava cheia, não digo lotada, mas cheia o suficiente para uma pequena confusão.

Minha mãe interpelou um homem, que depois ela contava rindo, o cônsul. Saía de uma sala? Veio lhe atender? Não sei. Só lembro dos dois de pé, minha mãe falando alto numa língua que eu não entendia.

O homem argumentava.

Minha mãe respondia.

No fundo, ela achava que a vacina lhe cabia, estava exigindo um direito. Ela merecia a vacina e não sairia de lá muito fácil. Não sei por que achava isso, era uma mulher segura de si.

Formalmente, só saber falar francês perfeitamente e ter dado aulas de francês e ter um dia tirado segundo lugar num concurso que poderia lhe ter dado uma bolsa para estudar em Paris, só isso justificava a vacina aos filhos e aos amiguinhos dos filhos. Mas que importava?

A vacina lhe cabia.

Não sei se era instinto de mãe. Não sei se gostava de argumentar. Todo judeu, quando vê uma bela fronteira, um muro alto, no fundo enxerga uma porta, uma passagem livre. Então para ela bastava falar francês e já queria as preciosas vacinas pra ela.

Era uma mulher bonita, mas não a vi sorrindo para o homem. Não nesse dia. Mas era bonita. Exigia.

E aí sem delicadezas o cônsul me tomou pelo braço, a mim e ao Rodrigo que também era ruivinho, e nos arrancou de lá.

O cônsul havia perdido a paciência. Outras tarefas urgentes o chamavam. Os argumentos o convenceram. Não tenho como saber o que foi.

Talvez em algum momento ele tenha se perguntando: por que não vou vacinar os filhos dessa mulher?

Fomos trazidos depois, já vacinados, para perto de minha mãe, um pouco pedindo perdão a ela mas não sei explicar a razão. Fomos em silêncio para casa. Meu irmão e o Marcelo, moreninhos, tomaram a vacina depois, quando os estoques se refizeram.

É assim então que imagino o cônsul francês em São Paulo, se perguntando por que não vacinar os filhos daquela mulher.

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