Portugal Gouveia, advogado

Portugal Gouveia foi um importante advogado nos anos 1930 em São Paulo, mas no pequeno apartamento de minha tia, na Cerro Corá, sua morte foi no dia de hoje lamentada com pesar. Esses são os mistérios da memória, do testemunho (Leiam Media Witnessing), do relato, e o que eu relato aqui é de segunda mão, e sobre os relatos de segunda mão o livro citado esclarece muito.

Os tempos se misturam, e não sei o que de fato houve. Mas, se o livro está certo, não é essa indefinição o critério do testemunhar real? Quando tudo está coerente, não foi arranjado por pessoas que não viram nada? Então tia Guita disse que foi retirar um dinheiro no banco e que a senhora do caixa conhecia o seu Jacó e o seu Miguel, e sacou da gaveta fotos de todos da fábrica. Quando isso aconteceu? Ela me disse que assim que a perna melhorasse iria ao Banco São Paulo agradecer a senhora, que a tinha deixado feliz de verdade, com as lembranças de seu pai e avô, falecidos em 1936 e 1937.

Portugal Gouveia assessorou sua mãe quando o marido e o pai faleceram, nas questões da fábrica. E houve um dia em que o advogado lhe pediu que entregasse um pacote de dinheiro no banco, o que ela, adolescente, fez, “talvez me testando”, ela disse, e eu pensei “talvez querendo ficar a sós com jovem viúva”.

Os móveis eram vendidos para a Casa Alemã, e isso quando as coisas lá na Alemanha já estavam daquele jeito. Mas que teria a Casa Alemã a ver com as coisas lá na Alemanha? Acredito sim que meu bisavô viajou pela Europa com a filha mais velha, e foi até a Alemanhã, e mais um outro país, e acabou preferindo o Brasil, isso acredito, pois meu povo tem faro e para os que não tem a história não foi gentil.

Então o casamento da tia Branca foi na Casa Alemã, imagino uma loja bonita e espaçosa entre a Praça da República e o Mappin mas precisaria consultar documentos antigos para saber. Tia Guita era pequena mas diz que se lembra bem, o casamento da tia Branca na Casa Alemã, que talvez fosse o Buffet França da época. Outra São Paulo. Não sei se mais gentil, pois era a São Paulo onde as viúvas eram gentilmente exploradas, os imigrantes penavam para obter um visto e aqui ainda não podiam…

A fábrica ficou no nome da Tia Guita pois a mãe era estrangeira, e já era a época da guerra e minha avó não podia ter a propriedade? Ou foi artimanha do Portugal Gouveia para que nem tudo caísse nas mãos dos credores? Não sei, só sei os fragmentos daquela tragédia familiar dos anos 1930, a viúva com 4 filhos, dois pequenos, um meu pai.

De todo modo, e isso eu testemunhei, a memória do grande advogado Portugal Gouveia foi lembrada hoje. Sua perda foi sentida, pois homens assim não deviam morrer. E, talvez, nunca morram de fato.

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