Bolsonaro, o Frouxo

Durante a votação do Marco Civil, vi o Bolsonaro tendo um ataque apoplético no plenário da Câmara. Fingido. Era tão óbvio que era tudo uma grande encenação, uma grande mentira, que ele não tinha a menor noção do que era o Marco, a internet, a liberdade ou qualquer outra coisa contra ou a favor a qual ele bradasse.

Não que não houvesse problemas no Marco Civil. Mas a postura dele não era a de um legislador. Era a de um membro de torcida organizada xingando o juiz. Não é gente que se leve a sério, e não tive a impressão de que os parlamentares o fazem. Repito: não tive a impressão de que alguém leva o Deputado Bolsonaro a sério no Congresso.

Mas seu histrionismo é funcional. É útil para muita gente. Torna a direita mais palatável. Distrai da corrupção. Aumenta a audiência da TV Câmara. Enaltece seus desafetos. Estou um pouco irritada hoje, então me perdoem se eu disser que quem precisa do Bolsonaro é um monte de lixo que não deveria estar na vida pública.

Quero chamar a atenção para um uso específico do Bolsonaro que me incomoda muito, que é colocá-lo como pilar do machismo brasileiro. Ele é tudo menos o pilar do machismo brasileiro. Como todos as formas de opressão nacionais, nosso machismo é gentil e sutil. Intangível e silencioso. Até que dê o bote.

Se fosse eu no plenário, ouvindo uma sandice daquela, dava o troco e diria que ele só era homem armado, fora isso era um traste, um inútil, um covarde. E pronto, assunto encerrado. O sujeito botava o rabo entre as pernas e a mulherada teria aplaudido. Que processo que nada, que cassação. Ia ter que me encarar todo dia o chamando de frouxo.

É fácil combater o machismo aberto, no microfone, dos Bolsonaros frouxos que há por aí que são, repito, um bando de histéricas. Agora, o machismo brasileiro não é isso. São os partidos que excluem as mulheres. São os líderes respeitados que tratam o direito reprodutivo como piada. São os líderes ultra-respeitados que contratam hostesses com salto 15 para seus eventos.

É todo um clima sutil que diz: você não pertence. Você só é bem vinda como massa de manobra: “Olhe lá as professorinhas acenando as bandeirinhas!” Vá num evento partidário, se você duvida. Os olhares curiosos. As falas ignoradas. Mesmo a mulher menos encanada com o modo como os homens a tratam se sente assim como um peru de Natal.

Pra que olhar de fato para as estruturas partidárias, refletir sobre os ganhos e os limites da Lei da Marta, examinar por que nem entre os jovens elas estão representadas? Por que imaginar modos de fazer da política algo convidativo para mulheres, para minorias étnicas e outras? Tudo isso dá trabalho. Desculpe o leitor, mas isso sim é coisa de homem, de gente que não teme desafios.

Então vamos demonizar, histéricos, um cretino que defende a ditadura. E deixar de lado o trabalho real de construir uma sociedade justa.

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