O cadeiraço: mais que privatização do espaço público

Leiam o comunicado abaixo, extremamente importante. Meus comentários aqui:

“O “cadeiraço” é um instrumento de privatização do espaço público”, consta no comunicado da política da USP.

Muito bem colocado. Mas o cadeiraço é mais. É a humilhação ao professor e ao aluno, a imposição da derrota da comunicação entre gerações. Quem já entrou numa sala de aula de fato sabe que essa comunicação é frágil, que ela se estabelece ou não. Quando ela não se estabelece, aprendemos com os erros e chegamos ao próximo encontro cheios de idéias. O cadeiraço diz aos participantes desse diálogo que eles são uns nada, que são uns incapazes, que não se lhes vai ser dado o direito de tentar.
E o direito de tentar é a base da comunicação humana. A esperança renovada, mesmo que tantas vezes frustrada, de que podemos ser ouvidos e compreendidos.
Apenas a frustração surge da impossibilidade física, de antemão, deste diálogo. A sala fechada.
A descrença no diálogo em geral e no diálogo entre gerações, que é a essência do ensino.
Não entendo o que passa na cabeça de jovens que impedem com as cadeiras a entrada em sala de aula, mas nas dos adultos que os estimulam eu sei, e preferia nunca saber, pois são coisas muito feias de se ver.

Copiando de um post do Face o comunicado abaixo

Comunicado do DCP-USP

Pelo resgate da liberdade acadêmica e dos espaços públicos na USP.

À comunidade acadêmica e à sociedade

Nós, professores do Departamento de Ciência Política, em consonância com o que já foi expresso por colegas da Filosofia, vimos a público afirmar que:

1. A crise da USP é de extrema gravidade e desafia nossa capacidade de encontrar soluções para problemas de grande complexidade.
2. A banalização da greve nos últimos anos, particularmente na FFLCH, tem degradado o ambiente acadêmico e comprometido negativamente a formação de gerações e gerações de estudantes.
3. Repudiamos veementemente os métodos da greve, baseados na coerção, intimidação e violência. Estamos hoje sob censura prévia do movimento e impedidos de entrar em sala de aula por conta do “cadeiraço”. Em vez de gerar mobilização, tais métodos afastam professores e alunos e resultam no esvaziamento do prédio.
4. O “cadeiraço” é um instrumento de privatização do espaço público por parte daqueles que querem impor seus interesses e visão sobre a universidade. Como tal, ele institui uma nova forma de poder que será exercida sobre todos enquanto durar a greve. Seu objetivo não é a mobilização do maior número, mas essa captura de poder para conduzir o próprio movimento.
5. A censura prévia e os bloqueios aos quais estamos submetidos constituem assim um atentado às liberdades de ir e vir, de expressão, de reunião e de pensamento.
6. Tais métodos deslocam a política para o campo da ação direta. Reagir nessa mesma moeda seria promover uma escalada de degradação e violência que nós, professores, temos a obrigação de evitar.
7. Conclamamos a todos pelo resgate da liberdade acadêmica, pela reabertura dos espaços públicos e pelo fim do jugo que humilha e rebaixa a todos, solicitando a imediata suspensão da censura prévia e do bloqueio das salas de aula.

São Paulo, 29 de agosto de 2014.

Assinam (individualmente e em ordem alfabética)

Adrian Gurza Lavalle
Alvaro de Vita
Bruno Wilhelm Speck
Eduardo Marques
Elizabeth Balbachevsky
Eunice Ostrensky
Fernando Limongi
Glauco Peres da SilvaJoão Paulo Candia Veiga
José Alvaro Moisés
Lorena Barberia
Marta Arretche
Paolo Ricci
Rogério Arantes

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