Um balanço melancólico

Está na hora de fazer um balanço, agora que Israel anuncia que fará em breve um cessar-fogo unilateral, depois de várias negociações frustradas e de atingir o objetivo da intervenção, que é reduzir o poder de destruição do Hamas. Um balanço de guerra é sempre algo triste e difícil, mesmo à distância, mesmo sem ter ouvido as sirenes nem perdido ninguém próximo. Mesmo sem dor real, apenas imaginando as perdas dos outros e notando nossas próprias perdas simbólicas.

A primeira coisa que noto é que somos nós, eu e você, na comunidade judaica que temos responsabilidade sobre o que é dito e sobre o que será ensinado às próximas gerações. Nós, judeus brasileiros sem memória de 1967. Os mais velhos se calaram. Alguns tinha razões fortes para tal. Por exemplo, Moacyr Scliar está morto. Os outros, eu não entendi bem, pois na nossa cultura nos apoiamos na serenidade dos mais velhos, na sua experiência de estudo e de vida. Mas eles preferiram se ausentar do debate. Só eles sabem dizer o que houve. Cansaço diante de tudo o que já fizeram. Dificuldade de entender o debate no novo ambiente mediático. Perplexidade diante do anti-semitismo com o qual nunca haviam lidado de fato. Ou simplesmente, como na piada do judeu que fumava no sábado, esqueceram que eram judeus. Deviam ter falado, mesmo que fosse para dizer: não sei o que dizer. Deviam ter dito publicamente algo. Pois sempre há algo para se dizer, na nossa cultura verborrágica e profundamente corajosa.

É eu e você, agora. Se a gente descamba no racismo que tomou a cultura israelense, se a gente se encanta com visões paradisíacas e autoflageladoras da paz, ou se a gente busca construir visões de Israel e do judaísmo que sejam factíveis, humanistas e inspiradoras, é conosco. Não temos guias, líderes, é eu e você mesmo. Geração pós-ocupação, pré-Facebook. Nós. Pra mim, o silêncio doeu. Não sei pra você como foi. Ensurdecedor.

Sobre o anti-semitismo brasileiro, estamos todos perplexos. Foi só efeito Facebook? Existia e foi revelado, aumentado artificialmente, como são reveladas e exageradas outras tolices que lemos na rede social? Pensei ontem que talvez tenha sido um estertor de um certo discurso ameaçado pelas profundas transformações pelas quais passa a sociedade brasileira, que incluem a mudança nas opções religiosas nacionais mas também um novo afeto ao liberalismo, ainda não como alternativa política mas já como opção de vida e trabalho. E que foi exatamente a retirada do embaixador em Israel? Isso tudo ainda teremos que mastigar, engolir, digerir e depois quem sabe entender. Vamos voltar ao trabalho e ter que lidar com tudo isso, vamos voltar para casa e pensar em tudo isso, não foi algo banal.

Sobre Israel em si, eles também terão que fazer seu balanço. A resposta poderia ser tecnológica? Houve má-gestão do programa anti-túnel? Netanyahu deveria ter engolido coalização Abbas-Hamas? Israel deveria ter aceitado heroicamente os mísseis de Gaza? É o balanço deles. Eles sabem o quanto custou a morte dos soldados, eles também sabem o quanto custou a morte de centenas de palestinos civis. Uma coisa é certa: não há resposta certa quando se trata com um grupo terrorista financiado por países que nada têm a perder com a guerra. Deixar a construção de túneis correr sem impedimento não seria certo. Deixar o Hamas entrar na gestão da Autoridade Palestina, que mal ou bem controla a Cisjordânia, seria péssimo. Lembrem-se: Gaza faz fronteira com um deserto pouco habitado. A Cisjordânia com o coração do país! Mísseis e túneis e sabe-se lá o quê vindos da Cisjordânia é o pesadelo de qualquer governante israelense. Você pode criticar Netanyahu. Claro que pode. Deve. Mas vá lá governar um país e permitir um novo 1973 com a consciência tranquila.

Eu entrei nessa discussão acreditando que as negociações com Abbas devem ter precedência, e saio igual. É importante mostrar aos palestinos que há ganhos em manter diálogo com Israel, é importante tratar a população da Cisjordânia com decência, com respeito aos direitos humanos. Israel entrou na Cisjordânia depois do sequestro dos adolescentes com violência e deveria ter ser criticado por todos os que acham que direitos humanos são algo importante, também pela comunidade judaica brasileira. O crime deveria ter sido investigado com sobriedade e os culpados punidos. Dilma condenou o sequestro e morte dos garotos, o que acabou gerando, no momento seguinte, com um número de mortos muito maior, pressão para que ela fizesse algo mais enfático. Não era caso, na minha opinião, da condenação brasileira; era algo interno. Se houve pressão das lideranças judaicas nisso, foi o maior tiro no pé da história.

Não consigo ver a situação em Gaza e na Cisjordânia como equivalentes. Gaza é governada por uma organização terrorista com financiamento externo, que estoca mísseis e armas em locais de uso civil, inclusive humanitário. Negociar com o Hamas é uma possibilidade para Israel, e se acomodar com o lançamento de mísseis e a ameaça de túneis também. Mas não consigo ser crítica ao governo israelense quando rejeita essas alternativas, pois nenhum país no mundo as aceitariam. Encontrei nessas semanas difíceis algumas vozes que criticavam Israel ao mesmo tempo que compreendiam suas razões, mas não vozes organizadas. Talvez eu não tenha procurado o suficiente, mas eu não vi. Será que é possível articular essa posição?

De positivo, o que eu encontrei nessas semanas foram vozes amigas, de gentios que falaram coisas sensatas, deram apoio, se horrorizaram com o anti-semitismo. Talvez eu deva agradecer, mas agradecer pressuporia que eles não precisariam fazer o que fizeram, e talvez eles o tenham feito por não terem outra opção, por serem quem são, com os valores que têm. Então não agradeço, apenas noto que foi algo bom. Colunistas não-judeus, amigos do Face ou Twitter. Um amigo em especial me disse: não desista pois foi graças aos seus posts que entendi melhor a situação! É minha vocação, como judia, como escritora e socióloga, fazer as pessoas entenderem coisas, então fiquei realmente feliz.

No plano político, agora é torcer para que o governo israelense encontre apoio entre os vizinhos contra o radicalismo, e que essa tragédia toda acabe fortalecendo Abbas. Quem pensou junto com o Hamas achou que essa guerra ia longe. Pois de um modo ou de outro, mesmo inconscientemente, temos nossos alter egos no conflito. Mas a guerra vai chegar ao fim, pois o Hamas é apenas um ator da guerra, e há outros melhores, com mais caráter, entre israelenses e palestinos. Então Israel vai se retirar de Gaza, e Gaza será reconstruída. Quem vai fazer isso? Com que dinheiro? Para a guerra ou para a paz? A ONU vai servir de almoxarife de mísseis, ou vai impedir o rearmamento? O governo brasileiro vai ser ridicularizado por um israelense arrogante, ou vai participar das negociações de modo altivo, como gigantes que somos? Meu alter ego, ao menos consciente, são as minorias israelenses. Aqui sou minoria, sei qual o feeling, e é com os árabes seculares que me identifico, os deslocados duplamente nas sagradas festas religiosas. A paz, e não o Hamas, é o melhor para eles. E são as vozes deles que vou buscar traduzir.

Esse é meu balanço no momento. Ao longo do conflito, saíram dois artigos no Estadão Noite, que a Unesp republica nesses links: Israelenses e palestinos: conflito humano nas páginas da internetQuais os objetivos do Itamaraty?. Assine o Estadão, assine o Haaretz!

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2 respostas em “Um balanço melancólico

  1. Republicou isso em Gabriel Touege comentado:
    Um balanço do conflito entre Israel e o Hamas por uma pessoa que eu respeito e que, como eu, se incomodou com o silêncio. Eu também me incomodei com o fervor das opiniões cegamente orientadas, de um lado e de outro.

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