Lembrando tragédias coletivas

Hoje e amanhã os israelenses lembram o Holocausto. No resto do mundo, a tragédia é lembrada em outra data. Lebrei da data pois o Haaretz tem um anúncio comemorativo, talvez deles mesmos ou talvez do próprio Museu do Holocasto.

Recebi por email também alguns links sobre a data, mas compartilho dois outros muito interessantes que li recentemente, questionando os mitos de heroísmo que foram construídos em torno das ações de judeus no período.

Esse artigo, http://www.haaretz.com/jewish-world/jewish-world-features/.premium-1.564834, questiona a decisão de alguns ativistas iniciarem uma revolta no Gueto de Varsóvia, no momento em todos esperavam o fim da guerra.

Esse outro compara a vida de dois húngaros que arriscaram o pescoço para salvar judeus em perigo durante a guerra, http://www.haaretz.com/weekend/.premium-1.557024. A que morreu sem salvar ninguém virou heroína; o outro, que salvou um trem inteiro de gente e ainda ajudou milhares de outros, acabou assassinado em Israel.

Difícil contar uma história dessas sem buscar heróis. As situação é tão absurda e caótica que você precisa de âncoras. Mas nem é sobre isso que eu queria escrever.

É que tenho notado uma adoção de alguns procedimentos dos rituais de lembraça do Holocausto, seja em Israel ou no resto do mundo, em tragédias outras. Falo do tom sóbrio, reflexivo, e principalmente da ênfase em buscar cada pessoa atingida e lhe dar nome e rosto, quase que um oposto ao “Monumento ao Soldado Desconhecido”.

No caso do Holocausto, isso é tão obcessivo que já temos dois terços de todas as vítimas identificadas. Hoje acho que o sistema deve estar com sobrecarga, mas na internet http://db.yadvashem.org/names/search.html?language=en pode-se buscar pessoas nessa lista.

No 11 de setembro vi essa ênfase na recuperação das vidas perdidas, mas claro que nunca pesquisei o assunto, não sei se era comum isso antes nos EUA em catástrofes naturais ou man made. As fotos, as histórias de cada vítima nos jornais, e depois nos aniversários da tragédia a leitura dos nomes.

E, no Brasil, vi isso na tragédia de Santa Maria, todos tão sóbrios, compenetrados, exigindo justiça e esclarecimentos. Antes, quando eu era criança, no Brasil, lidava-se com as catástrofes de modo muito mais emocional, as explicações eram dadas de modo religioso, e eu não me recordo desta busca pela perda específica, individual, particular de cada família. Era algo mais coletivo, genérico, que afetava a comunidade mais que a pessoa. Estou errada?

Não há dúvida de que o Holocausto é parte da memória coletiva, mesmo entre os negacionistas. Um fato irrelevante não é negado. Mas acredito que a forma de rememorar o Holocausto também já foi aceita como forma de rememoração de tragédias coletivas.

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