Sergio Bernardes

Acabei de chegar do filme Bernardes, que está em cartaz na Mostra de Documentários de São Paulo. Tenho críticas ao filme, mas recomendo muitíssimo a todos vocês que o vejam, por inúmeras razões.

Me emocionei muito com o filme, aprendi muito também, vou tentar contar um pouco para meu irmão, que está no estrangeiro e lá não vai poder ver, mas para me ajudar a pensar também.

O filme é sobre o Sergio Bernardes, importante arquiteto brasileiro da metade do século 20. Meu pai, pelo que lembro dele contar vagamente, “trabalhou com Sergio Bernardes”. Não era uma época sobre a qual ele falasse muito, acho que se estivesse vivo agora falaria.

Nessa entrevista do Eduardo de Almeida tem mais sobre o Horizonte Arquitetura, onde trabalhavam os wrightianos paulistas. Provavelmente naquele livro sobre Artigas, duas viagens, tenha algo também. No Google, busque além de Eduardo de Almeida, Sergio Bernardes e meu pai, Arthur Fajardo Netto e Dácio Ottoni, todos de São Paulo menos o Sergio Bernardes. Não sei de quando a quando o escritório funcionou: imagino que de 1958 (pela entrevista) a 1969, mais ou menos quando meu pai passou a trabalhar na Ajax.

Se o escritório paulista foi criado pelos jovens arquitetos ou se Sergio Bernardes os procurou, não sei. Imagino que ele trouxesse projetos aos jovens, e os jovens aprendessem com ele. Nem sabia o nome do escritório, mas sento todos os dias nas cadeiras Bertoia que foram espólio do empreendimento. Acho que nossa mesa de jantar também é do escritório, e talvez minha mesa de trabalho.

Mas no filme não há menção desta parceria, e os diretores nem haviam ouvido falar de Eduardo de Almeida. Tudo bem. O importante é resgatar esse importante arquiteto, sua obra, o que parece que está sendo feito na UFRJ por uma pesquisadora extremamente dedicada.

A personalidade dos arquitetos daquela geração é muito forte. Você fala com um e parece que falou com todos, e isso não vem de um espírito de manada mas do contrário disso: um individualismo enorme, uma confiança brutal em si mesmo e por tabela em todos os outros que sejam um si mesmo. Individualismo com ideologia, como fé. Eu sabia quando meu pai me olhava como um “si mesmo”, era muito específico.

O filme podia ser mais sobre arquitetura, e mais sobre o homem Sergio Bernardes. Não entendi exatamente por que, mas o filme foca num neto do arquiteto que não traz um ângulo interessante à personalidade do avô. A gente sai querendo ver mais obras, e mais profundamente. Quer saber o que ele representou para os wrightianos em São Paulo, por exemplo, ou para os arquitetos em geral de seu tempo.

O resumo da ópera é que ele tinha um escritório extremamente bem sucedido, fez alguns projetos grandes e depois projetou prédios públicos para o regime militar, incluindo prédios para o exército. Isso o queimou definitivamente para a esquerda, como aconteceu com o economista Delfim Netto, que nunca mais fez nenhuma consultoria nem escreveu para jornais importantes, com a diferença de que esse assinou o AI-5 e portanto fez por merecer o banimento.

O problema é que os prédios eram muito bons, e a arquitetura talvez não tenha o poder transformador que os arquitetos querem, mas tem parte dele. Os militares perceberam isso e não construíram os prédios, nem pagaram os projetos. O escritório faliu. O mastro de Brasília é desta época, e no meu passeio na semana passada eu já havia reparado que o tamanho destoava.

Tocante a leitura da carta de Sergio Bernardes à esposa apaixonada, pela absoluta frieza e egoísmo, que abalou a família. Ele rompe, como diz uma neta ou filha (o filme é muito sobre os netos de Sergio Bernardes), com uma estrutura mais que com uma mulher e seus filhos. Essa carta meu pai deve ter escrito algumas vezes no Passat branco que o trazia na Dutra da Ajax, mentalmente, mas nunca pôs no papel, nem nos enviou, e muito menos largou tudo para ir à Nova York.

Se eu disser que foi por obrigação, vai ser mentira. Se eu disser que foi por amor, vai ser piegas. Acho que foi por ver que ali naquele apartamento da Paulistânia havia, como ele, três pessoas que eram “si mesmos”.

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8 respostas em “Sergio Bernardes

  1. Me perdi no “O problema é que os prédios eram muito bons…” Eram bons, continuando a ironia do parágrafo anterior, ou não eram tão bons assim?

    Verdade, se o pai tivesse vivido mais, a gente conheceria melhor essa história, passando um pouco mais de tempo ele contaria.

  2. Eu vi rápido no filme, me deu a impressão de que eram bons prédios modernistas, o que tornaria realmente difícil o aprendizado das doutrinas militares da época. No filme eu me imaginei um cadete tendo aulas com militares de direita num prédio do Sergio Bernardes e eu me vi um pouco desconfortável, distraída pela vista. O palácio do Itamaraty (do Niemeyer) te dá uma sensação muito boa, é algo muito poderoso. O Mastro eu realmente não gostei.

  3. Eu posso estar fantasiando, mas o momento em que o Bernardes se envolve com projetos dos militares coincide com o fechamento do escritório. Pode ser que ele tivesse colocado em segundo plano os projetos menores, ou que já houvesse começado um afastamento dos clientes. Isso explicaria um pouco o pai falar tão pouco desta época e do Sergio Bernardes em particular; não é muito agradável ver um mentor se envolver com o que você mais deplorava no país, ainda mais se isso significa um prejuízo ao seu trabalho. Isso sem caça às bruxas nem nada, pois realmente não é o caso, apesar do clima atual no país em que até pra time de futebol estão pedindo satisfações.

  4. Realmente os militares acabaram com o escritório de meu pai sim, foi um prejuízo enorme pq houve cancelamento de projetos em execução.Meu pai foi muito punido por todos por trabalhar com os militares, mas o que ele realmente queria era “fazer o que ele amava,projetar”, e quem sabe mudar algo na mentalidade dos militares. Por não seguir o que os militares impuseram na época, foram cancelados os projetos. Ele já havia pago diversas passagens para todos no escritório, topografias, e empenhou o escritório da Sernambetiba na barra no banco do brasil para cobrir os gastos com o projeto.Nesta época havia o” lic”(laboratório de investigações conceituais), o qual tb era bancado por meu pai.Ele queria melhorar a qualidade de vida nas cidades e no mundo.
    Quanto a perda de clientes importantes, isto aconteceu na separação com Clarice, sua primeira mulher, muitas pessoas romperam com ele também nesta época, mas o que houve na verdade e que se envolveu e foi viver com a sua melhor amiga Clarinha, quem foi sua segunda mulher, e não se isolou como conta o filme. Por isso muitas pessoas do mesmo circulo social ficaram contra atitude de meu pai e cortaram relações, principalmente de trabalho.
    Minha Mãe, Christina Guarana foi sua terceira mulher. E em 1975 meu pai tinha 59 anos quando nasci. E novamente foi questionado por ter outra filha.
    Meu pai não se abria muito comigo e nem com ninguém pq ele sempre dizia que passado era igual a merda, tem que se dar a descarga e não ficar carregando por ai. Mas eu que estava ali ao seu lado pude presenciar tamanha tristeza em seu olhar. De saber tanto e tantos não o compreenderem. Quando eu e minha madrasta fomos ao escritório da sernambetiba pegar o que restou de anos de trabalho foi muito triste, muitas pranchas e maquetes roubadas, tudo quebrado….pq meu pai não queria nada.Acho que depois que houve a perda do escritório da sernambetiba ele nunca mais se recuperou.
    Um homem maravilhoso, um arquiteto brilhante, que so fez estudar para melhorar a humanidade.

    • Ficamos contentes com seus comentários, Bernarda, coincidentemente postados no aniversário do meu pai que teria feito 85 se estivesse vivo. Mas, como seu texto lembra, certos pais se afastam mas morrer mesmo, não morrem. Ficam com a gente, tanto pelas obras que realizaram como pelas que deixaram para os que vierem depois.
      A história cultural da ditadura ainda precisa ser escrita, a história feita de gentes, de decisões, de pedaços de vida.

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