Em Brasília Dia 3.0

Quem disse que em viagem dá tudo errado? Resolvi tomar um táxi até a UnB e quando sentei para abrir meu computador vi que o barulho que vinha do toldo era uma bela chuva; se eu tivesse vindo de ônibus, estaria perdida nesse campus enorme tomando chuva de blazer de linho. Acordei um pouco atordoada com toda a movimentação de ontem, e depois de uma noite mal-dormida, desconfortável. Então demorei para planejar meu dia, li os textos dos alunos sobre Manoel Antonio de Almeida, percebi que não havia ainda falado com nenhum tucano e fui para o Congresso em busca. Na verdade, eles estavam todos numa reunião aberta, que é como a gente chamava na época do centro acadêmico essas audiências públicas, transmitidas hoje pela internet. Existe um debate para saber se o internauta pode participar ou não, mas acompanhar pode. Era um Ministro falando dos planos para banda larga, telefonia, telecomunicações. Sala cheia, repórteres, deputados, funcionários de empresas. Cheguei tarde, na hora das perguntas dos deputados. Algumas perguntas decepcionam, outras dá vontade de chorar mesmo, mas a reunião é séria e o interesse público parece estar na cabeça de todos. Pelas perguntas, a impressão é de que o Brasil é um país rural, pois todos estão preocupados com sinal de celular em áreas rurais. Todos. E falam como se o ministro fosse uma espécie de provedor de internet ele mesmo, que fosse “trazer” a internet para os rincões. Claro que há modos de impor isso em licitações e tal, mas se você estivesse lá entenderia o que estou dizendo. Os deputados basicamente pediam celular. Um do Maranhão abusou, e pediu ainda que as telefonicas avisassem quando alguém troca de operadora para que o sujeito que tem TIM não ficasse ligando para o amigo que tem Claro. Juro. Acho que ele nunca ouviu falar em aplicativo na vida dele. Mas esse foi o piso, as outras perguntas procediam. Além de sinal de celular nas áreas rurais, também estão preocupados com sinal de celular na Copa. O ministro assumiu que as pessoas querem internet móvel. É isso mesmo? As pessoas querem internet móvel? Eu preciso de internet fixa, móvel pra mim é luxo. Não dá pra saber. E quem tem que saber isso é o ministro? Você ouvindo os caras, o Brasil é um país de economia planificada. Não posso te dizer exatamente qual era o contexto, se era um plano específico do governo, um planejamento para os próximos anos, licitações, não sei. Mas o discurso era de que eles iam ali pedir ao ministro que levasse o país ao primeiro mundo na canetada. Interessante, não me levem a mal. Interessante o debate, as perguntas, o diálogo com o ministro, o ritual, digamos. Alguém disse um pouco en passant que as agências reguladoras estão na mãos nas empresas. Mas ficou por isso mesmo. O deputado do Maranhão, cujo grau de abstração possível não era muito elevado, afirmou que nas agências os gabinetes são melhores, e que se ele reclamar das condições de trabalho na câmara seria tratado como bandido. Há algo um pouco cômico, talvez prosaico seja a palavra mais adequada, ao mesmo tempo bonito que aquelas pessoas se tolerem, sentem juntas, debatam, briguem (ontem teve briga, vocês devem ter visto as imagens), e de vez em quanto até passem leis importantes para o país. Eu me coloquei no lugar do presidente da comissão, o Ricardo Tripoli (vejam se ele é presidente, se só estava dirigindo a sessão, etc., esse não é um texto informativo), ouvindo o maranhense, e outros ainda, e calmamente passando a palavra aos outros, e pensei que eu não conseguiria uma coisa dessas, afinal porto é onde os navios atracam e aeroporto onde os aviões pousam e não me diga que é o contrário pois isso me irrita bastante e eu acabo manifestando essa irritação. Então é nisso que há essa beleza, no exercício do diálogo, da tolerância, mesmo que eu queria na verdade que São Paulo tenha representação proporcional à população pois aquela coisa de sinal de celular em área rural me cansou, ainda mais que fiquei duas horas de pé. Claro, você deve estar pensando, faltou o principal, a discussão sobre outros países, como fizeram, que regulamentações têm, o que deu certo, por que não estamos fazendo, onde intervir, onde não intervir, e assim por diante. Claro. Mas vendo aqueles homens (havia só duas deputadas, pelo que vi, uma delas Erundina que ficou talvez meia hora) você percebe que estão fazendo o máximo que podem. Talvez o Brasil mereça mais. Talvez o Brasil precise de mais. Talvez até o Brasil possa mais. Mas aqueles homens fazem o máximo que podem. Depois breve café com Augusto, do Ministério que cuida da INDA, e com Nitai, os dois ligados à Open Knowledge, excelente, deu uma dica importante para nosso questionário, a de perguntar como candidatos vêem a Iniciativa para o Governo Aberto. Augusto também lembrou que as ONGs acabaram criticando muito o Marco Civil tal como foi votado, mas algo nesses dois breves dias em Brasília me fez entender a política, no sentido mais cotidiano do termo. Tem que ter voto, e aí os políticos usam um método que minha mãe usava para avaliar provas de alunos, e que tenho com relutância adotado: no final a gente abre as pernas. Ah, teve um deputado na audiência pública que pediu a volta da Telebrás! E hoje começa o congresso sobre comunicação, o ICA, na UnB.

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