Um filme mudo

Há uma história que meu pai contou mil vezes, a do lojista americano que o abordou na rua. Foi assim.

Era 1977, o verão americano. E meu pai foi aos Estados Unidos, a passeio mas também a trabalho, trazer idéias. E numa cidade, que provavelmente era Chicago mas pode ser que tenha sido Nova York ou Pittsburgh também, eu não me lembro, quem sabe meu irmão se recorde, meu pai saiu de uma loja de produtos fotográficos e passou a fotografar um prédio em frente. Acho que a sequência é essa. Pode ser que ele apenas estivesse fotografando um prédio em frente a uma loja.

E o dono da loja saiu na calçada, e ficou olhando meu pai, e depois o abordou e conversaram. Meu pai disse o que fazia, e de onde era. E o homem disse que havia estado em São Paulo, mas há muito tempo. Na casa do Jacó Schnaider. Meu pai ficou maravilhado. Mas não é possível, Jacó Schnaider é meu avô. Seu avô?, perguntou o homem. Pensei que você fosse alemão. O lojista também era ídish. Ficaram então os dois surpresos, com aquela coincidência, e se a loja não era de produtos fotográficos não importa muito, pois a essência da história é que aquele lojista que observava meu pai tirar fotografias de prédios, imagino o centro de Chicago, aquele calor abafado, havia estado em São Paulo nos anos 1930, e entre todas as casas de então, na casa do meu bisavô.

Éramos crianças e ainda um pouco inconscientes da largura do mundo, ainda mais que o homem já havia pisado na Lua. O que havia de tão difícil em encontrar um lojista que tivesse visitado um avô nos escapava. Então olhávamos respeitosos mas não muito convencidos para aquele entusiasmo tudo. Crescemos e podíamos aí ter compreendido melhor a história, mas aquela suspeita infantil permanecia e portanto era em vão que meu pai recontava a história.

Agora podemos ver que era mais que uma coincidência. Não chegava a ser um milagre, entretanto. Ou melhor, era o milagre comum de que é feito o povo judeu. Mas para meu pai era a prova de que seu avô, tal como lhe contavam, homem importante e conhecido, que recebia visitantes de fora, de fato havia existido. Para quem mal havia conhecido o pai, essa prova tinha uma importância enorme. Então seu avô existia, e talvez então seu pai, e portanto ele mesmo, ele mesmo era quem ele achava que era, não era impressionante?, ele perguntava a nós, mas para nós o pai era bastante concreto, palpável, prescindia de narrativas distantes. Sim, é impressionante, dizíamos por obediência.

Mas por que falar destes homens todos agora, os homens da minha família? É que me apareceu um homem e quando olho seus gestos, seu olhar, o modo como se expressa, parece que vejo projetado em minha frente um filme mudo, com sorrisos para a câmara e partes emendadas, com esses homens todos em cena, sua inteligência e vaidade, seus sonhos e decepções, seu humor e rancor. E quando ele me segura pelo braço, firme como se eu quisesse escapar, quase doendo, eu sinto esses homens em torno de mim, num abraço cheio de carinho.

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