Algum Kissinger em Israel?

Tem, ou teve, algum Kissinger em Israel? Alguém que pensasse estratégias diplomáticas de modo corajoso, inteligente, determinado?

Pergunto porque me parece que ao longo da história houve muitos Kissingers, judeus cuja experiência e inteligência os fizeram grandes estrategistas em seus países, conselheiros de reis e presidentes. Ou não?

Mas de Israel mesmo ouvimos falar dos cientistas, dos escritores, das startups dos jovens, do serviço secreto, dos pacifistas e dos militares. Mas quem desenha a política externa? Quem traça as estratégias, tipo “vamos lá pra China que aí os russos vão se enfraquecer”? Quem pensa nas jogadas de xadrez 3, 7, 11 jogadas a frente?

Outro dia li que o atual ministro das relações exteriores era um pacifista aí viu que Arafat era um mentiroso e virou de direita. Isso eu entendo num homem; a decepção, o rancor. Mas relações exteriores não se dão em outro plano, o plano dos acordos, dos jogos, do complexo tabuleiro? Não há escolas específicas para a diplomacia, não é algo quase técnico, ou ao menos uma arte cheia de códigos, de balizas?

Quem fez as opções de política externa israelense? Que triunfos os diplomatas israelenses já obtiveram? Triunfos de diplomacia mesmo, não apenas acertar acordos depois de guerras suadas e garantias americanas. Não que seja fácil, com aqueles vizinhos, mas quais foram as tentativas, os lances arriscados, as vitórias?

Tem a tal “hasbará”, a propaganda, que é algo frágil, superficial, não é parte central da política externa de um país. É o futebol. Tem a ajuda humanitária em desastre, que é muito bonito mas também não é política externa em si mesmo. Tem as relações com as comunidades diaspóricas dos outros países, mas isso também não é exatamente relações internacionais. É uma conversa mole e gostosa, entre pessoas que se admiram e se gostam e às vezes assinam um cheque para uma bela biblioteca. E, claro, há a relação com os Estados Unidos, mas essa parece às vezes acontecer apesar da diplomacia e não como produto dela. Se a superpotência fosse outra, a relação já teria ido para o espaço há tempo.

No fundo quem toma as decisões são os militares, não? É o cálculo dos riscos, da força, e não a sagacidade, a inteligência da estratégia, não é isso? Ou estou errada? Os valores são a bravura, ou o outro eixo, a moralidade – pois por mais que detestem a ocupação, o impressionante é que a Palestina não é uma Argélia.

Sei, por exemplo, que para contornar o isolamento pós-independência eles investiram muito nos países africanos também recém-independentes, e não deu muito certo. Hoje eles vêem a estratégia como ingenuidade. Mas está aí uma decisão de política internacional, ainda que não muito bem sucedida. Dizem que Israel até apoiou os islamistas palestinos, para fazer frente à OLP. Isso é diplomacia, acredito. Ruim, burra, mas é. Estilo americano no Afeganistão.

E também, acredito, para vencer o isolamento internacional, Israel investe muito nos organismos internacionais. Fizeram recentemente um bruta esforço para serem aceitos na OCDE, por exemplo. Nós somos apenas parceiros da organização, e acho que não estamos nem aí. Quando formos aceitos, vai dar uma linha num discurso presidencial e pouca mídia. Muito legal ser membro da OCDE, mas no que isso conta exatamente? Ou será que Israel é minúsculo no Oriente Médio, a ponto de ter realmente que apenas se defender, sem ilusões quanto a mudar as regras do jogo? Não sei.

Há também as relações sem acordos; parece que parte do comércio do Oriente Médio passa por Israel, mas passa mesmo por debaixo dos panos, ou seja, Israel faz negócios com países que não o reconhecem oficialmente. Isso não significa que a diplomacia está aquém do país? Ou apenas testemunha o cinismo global?

Existem as posições de força, indispensáveis na região, e usadas por Israel com serenidade e comedimento, aliás. Tá. E existem as posições éticas, vamos fazer o que é certo. Tá. Mas onde o gênio de um Kissinger? Força e moral são coisas bíblicas. Rei David, etc.

Imagino, a partir de descrições, a cara espantada de Barak quando Arafat largou as negociações de paz abraçadas por Clinton. Largou literalmente, saiu andando indignado pois tudo o que ele havia exigido tinha sido aceito por Barak e ele não tinha mais o que dizer, não tinha justificativa para a guerra sórdida que estava planejando.

Mas o sujeito não era um terrorista de carreira, um sujeito que nunca tinha administrado uma padaria ou comandado um batalhão na vida? Estavam lhe roubando o sustento. A lógica é que ele fugisse mesmo. Então me pergunto se os assessores de Barak eram mesmo diplomatas, pessoas que sabem ler as intenções dos outros e não julgá-las por seus próprios valores e ideais, e que a partir dessa leitura montam estratégias de ação.

O país está aí, vivo e forte. Então algo estão fazendo muito bem. Mas apenas não me parece vir do Ministério das Relações Exteriores.

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