Um turco gostoso

A primeira aula que tive contra o pensamento dogmático da USP foi dada pela minha mãe, ao final dos anos 80, e conto agora. Foi uma aula boa; devo me lembrar sempre, quando ouço meus colegas e alunos, que dificilmente eles terão aulas assim, antídotos fortes à burrice, e que se não fosse essa minha professora eu poderia, facilmente, ter virado uma Leda.

Era no tempo da televisão. Mesmo o horário gratuito, víamos, pois a democracia era novidade. E na TV falava o Guilherme Afif Domingos. Eu mastigava na cabeça as lições de um professor meu, o Paulinho, um marxista carioca que abraçou o capitalismo quando o Quércia o chamou ao governo e que me ensinou a ler e analisar textos de economia. O pior não era o grande capital. Era gente como esse Afif, representando a mentalidade mesquinha da pequena burguesia. Eu pensava essas coisas com desprezo, com um certo rancor até, pensava e ouvi minha mãe, que fazia algo com as mãos, não sei se tricotava ou se corrigia provas e apenas lançava os olhos na TV.

– Puuta merda, mas que turco mais gostoso!

Olhei para ela surpresa e depois para a tela de TV, e vi. Vi um homem já feito, com gestos determinados e lábios grossos falando coisas. A camisa entreaberta mostrava uma corrente de ouro apoiada em pêlos escuros. Era um turco gostoso que minha mãe via pois era isso que estava na tela, apenas isso. Um turco gostoso, falando na TV.

Se fosse um sujeito inteligente, ela diria: “Puta-que-o-pariu, por que não pensei nisso antes?” Se fosse um sujeito desonesto, ela diria: “Aqui pra você!” Faria aquele gesto com os braços e completaria: “Tenho muitos anos de janela…” Se fosse um sujeito inseguro que não quisesse se comprometer, sua melhor expressão: “Esse aí não fode nem sai de cima”, uma expressão tão grosseira que chega a ter sua poesia.

Tudo era simples e taxativo, descrições do que ela via de verdade na TV. Já eu via um fantasma a partir de teorias que meus professores não muito letrados me enfiavam na cabeça, e para ver um homem na tela alguém teve que me sacudir.

Os palavrões, o leitor deve colocar no contexto da época; minha mãe era daquela geração de mulheres que mudou um país, as verdadeiras terroristas que saíam todos os dias para a guerrilha urbana e quando voltavam para casa aí sim cometiam os seus atentados. Algumas destroçaram os casamentos com traições na época sem valor e hoje talvez sem nem lembrança. Minha mãe, por amor a nós ou mesmo ao meu pai, abusava dos palavrões, para desespero da geração mais velha e constrangimento nosso. Mas a família ela manteve intacta.

Foi, de qualquer forma, uma grande aula.

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