Uma grade e uma jaula

Hoje o ativista verde Fábio Feldmann retuitou um artigo com o seguinte comentário: “Construtoras e arquitetos que gostam tanto dos vidros blindex deveriam levar isso em conta: http://ow.ly/qKGa1“. O artigo trata do sofrimento causado aos tantos pássaros que se chocam contra vidros blindex, imagino que sem caixilhos, que uma simples grade de fácil visualização poderia evitar. Eu senti a coisa na pele, não sei explicar. Me identifiquei com os pássaros que vão de encontro a uma parede sem a menor dica de que isso fosse acontecer.

As grades são melhores.

Não sou a pessoa mais ecologista do planeta, é que a situação, não sei, alguma coisa me tocou nela.

Vocês sabem que passei 25 anos me chocando com as grades curriculares, como aluna e depois como professora. Como aluna, encontrei o silêncio e a indiferença burocrática. Já como professora, a situação foi distinta: encontrei o silêncio e a indiferença burocrática. Algumas propostas alvo deste silêncio estão nesse blog. Há questão de poucas semanas, me dei conta do verdadeiro blindex no qual já me arrebentei algumas vezes.

Percebi que os professores não querem exatamente enjaular os alunos numa grade sem opções. Isso é consequencia. Pode até ter vantagens, mas é uma conseqüência. Vantagem de você ter seu público cativo, por exemplo, ou de não ter que pensar, afinal, que curso você dará e que será relevante para os alunos que estudam no dia de hoje com você. O objetivo da grade não é exercer algum tipo de opressão sobre os alunos, mas claro que se isso acontecer, se você puder criar falsas identidades entre grupos distintos de alunos e se isso te beneficiar, pode até ser bom. Mas é, como disse, secundário.

O objetivo é evitar que os professores tenham a liberdade de escolher que disciplinas darão. Pois aí o que os impedirá de simplesmente não darem as disciplinas necessárias ao andamento do curso? Se não houver a grade – aquela enxurrada de obrigatórias -, quem segurará os professores? Como será distribuída a carga didática? Hoje, você pode exigir que um professor dê aula, pois “tem a grade”. Mas e se não tiver? Então um lado maduro dos professores, antevendo esse problema que é seriíssimo, impede a flebilização curricular, o que tem, como disse, vantagens. Mas não são por essas vantagens e sim pelo medo do caos curricular que a grade não é levantada.

Não há como mudar as pessoas. Se esse medo – esse auto-medo, digamos – é legítimo, então pode ser que uma flexibilização radical acabe realmente muito mal. Acabe sem o curso. Seria um tipo de Experimento Summerhill, só que para os professores! Eu não sei, pois sinceramente nunca me passou pela cabeça, nos vários lustros de reflexão, que esse fosse um problema. Achei que como eu cada um quisesse dar a aula mais bacana e que a grade atrapalhasse apenas.

Mas você não pode transformar todos em adeptos de Summerhill, concordam? Não dá.

Então ou você reduz a flexibilização, vai indo aos poucos, para que as pessoas vejam que – tipo Summerhill – dar aulas de disciplinas necessárias é bom, ou então você cria mecanismos de avaliação dos professores, ou os dois.

A sugestão é simples, já deve ter sido feita em outras universidades, e hoje com a internet é mais fácil ainda. Criar uma plataforma de avaliação de disciplinas, estrutura curricular e estrutura acadêmica, a ser preenchida semestralmente. Essa avaliação é importante de qualquer modo, mas a questão da flexibilização curricular a exige. Isso daria uma baliza aos professores em suas disciplinas, aos departamentos em suas prioridades e aos gestores quando ao funcionamento da universidade.

Como disse, não é uma idéia brilhante nem nova! Mas é essencial que tenhamos alguma base para podermos sinalizar à universidade como anda a graduação. E a pós também.

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2 respostas em “Uma grade e uma jaula

  1. Os professores da USP têm uma tremenda paúra de que os alunos tenham uma disciplina eletiva por semestre no currículo. Isso não contradiz necessariamente a tese de que o maior motivo para impor grades é enjaular aos próprios professores, mas acho que é um argumento mais forte para a explicação tradicional – que os alunos ao decidirem ir para uma aula ou outra vão desafiar as estruturas de poder tradicionais.

    Por outro lado já ouvi diversas vezes alunos argumentarem que m determinado curso deve ser obrigatório, apesar de não ser essencial, porque senão ninguém vai fazer, apesar de ser interessante e útil. Esse é o argumento espelho do seu – os alunos querem a grade como Ulysses pede para ser amarrado, os professores idem.

  2. Enjaulemo-nos todos pois!
    Mas deixe o Ulisses de lado, pois ele era um verdadeiro homem, e se pedia para ser amarrado era por querer se aventurar sem se destruir. Nessa jaula – esse é o problema – não há aventura (só paúra, como você disse). Bion sim pode explicar melhor a coisa, com sua idéia de grupo de trabalho. Quais as condições para que um grupo de fato trabalhe (no sentido mais amplo do termo)? E que mecanismos esse grupo encontra, que líderes apoia, para evitar o que ele chama de trabalho?

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