Tenque ser

Nunca levei a sério correções de ninguém. Tirei 2 na prova de redação da Fuvest e não me abalei. Uma professora do Bandeirantes disse que não fazia sentido o “diálogo mudo” que dois personagens travavam num conto e dei risada. Só os comentários elogiosos aos meus textos eu levei a sério, e graças a Deus não foram poucos: Moacyr Scliar, Marcos Faerman, minhas sobrinhas, Marcia Kupstas, meu pai, enfim. Minha avó não suportava meus textos, mas isso porque ela detestava a Clarice Lispector (eu entendi isso vendo a peça Simplesmente Eu), então tudo bem. E minhas editoras americanas, Leila Rae e Kyra Ryan, que escreveram coisas tão bacanas sobre meus textos… Imaginem que já tive muito parecer negativo de editora, mas ignorei sem dificuldade e continue escrevendo como se nada fosse.

E quando falam que meu texto acadêmico é jornalístico? Quero gozar de prazer.

Agora, quando escrevi tenque e meu irmão corrigiu, impaciente, isso ficou guardado. Fazem quase quatro décadas, mas doeu. Por que, se m combina com p e b apenas, pois macaco gosta de banana e pular? São duas palavras, ele explicou, como se fosse a coisa mais óbvia do planeta. Fiquei sem ação. Duas palavras. Se fosse hoje, eu poderia ter argumentado:

Que poderia ser apenas uma, como “deve”: ele deve comer, ele tenque comer. Que as novas palavras surgem assim, de contrações de palavras independentes frequentemente unidas: benfeitor, alfaiate. Que algum dia escreveríamos tenque, ele aprovasse ou não. É claro que não vou escrever um email para ele hoje, em 2013, listando todas as respostas possíveis, pois seria passar um atestado de irmã-mais-nova.

Seria assumir que a opinião dele importa. Que as críticas são levadas à sério. Que não dá pra desmerecer como as outras. Só quem é irmã mais nova vai entender esse post; os outros vão achar tolice, frescura, coisa de quem não tem problema maior na vida. Quem só teve os pais para se espelhar, remotos por uma inteira geração, não vai entender o que é uma crítica de irmão mais velho. Ou apenas o exemplo. Tenque ser forte.

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Uma resposta em “Tenque ser

  1. Essa regra de que M combina apenas com P e B é positivista comtiana. Tenque acabar.

    Hannah perdeu pontos numa parte do standardized test de Massachusetts porque comparou o pensamento do texto com a filosofia do Danger Mouse. No resto, faturou. Pergunte mais para ela, você vai gostar.

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