Os riscos do diálogo

No domingo fui ao teatro.

E como é difícil ir ao teatro.

Mais difícil ainda ver uma peça experimental.

Então a peça já começa com uma mulher sendo arrastada à força para a platéia, o que por alguns segundos, antes que nos demos conta da farsa, é profundamente perturbador. Mesmo quando percebemos que a mulher é uma atriz, incapazes de dizer ao cérebro que é tudo um faz-de-conta, ainda sentimos um mal estar pela violência, pelos gritos, uma vontade de ir lá e parar com aquilo. E aí ela se senta, e diz que gosta de muitas coisas, menos teatro. Pudera. E o seu algoz diz sarcástico que ela gosta de novela, pois não há meio mais fácil de valorizar algo do que desvalorizar outra coisa, como nos reclames de sabão em pó. Omo lava mais branco. Teatro é mais profundo que novela. Ford é a velha geração de automóveis então compre carro coreano.

Aí se dá a primeira parte da peça, com a mulher se negando a ir ao palco pois lá é muito perto e ela pode até bater no ator, e depois ela no palco se negando a voltar à platéia pois essa é muito hostil. O que é tudo verdade. Como é difícil subir ao palco, estar junto com outras pessoas. Claro que se alguém da platéia de fato aceitasse o desafio e subisse ao palco seria visto como um estraga-prazeres, um tolo, um despeitado, um ingênuo, sei lá. Não era pra ninguém subir ao palco. Era para estarmos lindos e invisíveis, presentes e silenciosos, inteligentes e passivos num teatro escuro e bem financiado pelas contribuições obrigatórias ao serviço social do comércio. Era isso que se esperava de nós, nada mais.

E também é difícil descer à platéia. Ser mais um quando antes estávamos na ribalta. Ouvir os comentários dos outros e ter que retrucar sem a autoridade de antes. Difícil. Pensei que a peça fosse se desenrolar por aí, explorar essas dificuldades do junto, do separado, do palco e da platéia. Seria um peça interessante, mas as dificuldades expostas eram apenas uma introdução a uma peça experimental, onde um texto era lido completamente no escuro e depois com um menino imóvel no palco e depois com vários slides projetados num grande e lindo telão branco. O texto escuro eu não consegui prestar atenção. Lá pela metade do texto do menino me resignei que não veria peça alguma e achei vagamente interessante. O texto dos slides eu gostei muito. Era como uma leitura coletiva, onde não precisávamos ir no Google para saber que cara tinham os lugares descritos pois alguém já o tinha feito.

Era leitura, ou eu sou a Greta Garbo.

Por isso no escuro não consegui ler. Não achei a peça ruim, não. Achei muito interessante, apropriada para aquele espaço que não é comercial, não precisa ser “novela”, cativar milhões. Apenas noto que depois de dizer o quão difícil é estar no palco, e estar na platéia, fomos convidados e ficar mais quietos e inertes ainda que numa peça normal. Convidados a ler no escuro, sozinhos e desamparados. No segundo texto, eram várias vozes que liam juntas; aí podíamos até ler “cada um no seu ritmo”, digamos, cada um seguindo uma voz entre as duas ou três que falavam o mesmo texto. No terceiro texto estávamos em terreno mais confortável, de um documentário inteligente passado em alguma TV pública. Mas não tivemos que nos imiscuir em nenhuma humanidade, tudo era distante. Tudo era literário. Nada era teatral, em nenhum dos textos. Apenas no começo horrível, onde a atriz é levada à força à platéia, e aí também não era bem teatro, estava fora do palco, era mais uma farsa do que um exercício de interpretação.

Não sou crítica de teatro, não me julguem por essa análise. Mas sou professora e cientista social. E a tese do começo da peça me parece muito válida. Como é difícil falar. Como é difícil escutar. Às vezes precisamos berrar de longe para que alguém escute, e isso é legítimo, ainda que difícil, dói a garganta. E berrar no ouvido de um professor? Aí é mais fácil, pois não se espera nenhuma compreensão do que se diz, nenhuma resposta. Diante das dificuldades em ser escutado, você pode continuar tentando, aguardar uma brecha, ou se refugiar na ausência ou na violência. É, estou falando do meu mundo, dos alunos que fazem greve e destroem. Das ausências e violência. Sim, os reitores não escutam, isso é patente. Os diretores, mesmo os professores. Ao invés de gritar e estar presente diante desta recusa em ouvir, a ausência e a violência. Que é o que aprendem conosco, decerto, não acredito em geração expontânea. Acredito em exemplos mal dados de greves irresponsáveis e na falta de exemplos de ações construtivas. Mas como é mais fácil gritar no ouvido de um professor, entupir um corredor de cadeiras, do que se engajar num diálogo que pode dar certo ou não. Pode dar frutos ou não. Pode mostrar caminhos ou mostrar que erramos de caminho. O risco do diálogo – apenas simbólico, sem consequências físicas ou penais – é paradoxalmente maior (para alguns) do que o risco real da perda das aulas e das sanções. O risco do diálogo.

Então ficamos ali no escuro, parados, sem nem prestar atenção, juntos mas isolados.

E termino esse post um pouco desconjuntado com aquela história bizarra, que por alguma razão me veio à memória, do nosso rabino que foi para Miami e afanou umas gravatas de uma loja de departamento. Na época, a versão que se deu, e que eu achei completamente plausível, é que ele não estava bem, talvez sob efeitos de remédios tarja preta usados indiscriminadamente, e daí o furto. Era coerente com a imagem que eu tinha dele, de um homem público que para manter a imagem que ele mesmo tinha de si poderia se valer de todos os recursos possíveis e não tão bons à saúde: esse perpétuo pé no acelerador teria provocado um desgaste, o patético e inócuo roubo das gravatas. Mais recentemente, ele disse que essa versão foi uma farsa criada por amigos generosos, e que ele tinha deliberadamente furtado as gravatas em pleno juízo da consciência. Um homem é responsável pelo que faz, ele agora afirma. Sim, um homem é responsável pelo que faz.

Mas continuo acreditando na versão anterior. A linguagem não busca a verdade. A ciência busca a verdade, e talvez as formas linguísticas anteriores à ciência também busquem a verdade. Mas a linguagem está aí não para saber se um sujeito roubou ou não gravatas deliberadamente. A linguagem está aí para continuarmos juntos; sua finalidade é a mesma de andarmos de mãos dadas, e por isso ligamos para o tio em Sorocaba, falamos oi para o porteiro ou deixamos um bilhete para a filha. O que eu falo ou o modo como escuto não está aí para enganar ou ser ludibriada, mas não está aí também para apurar um fato objetivo. O que eu falo ou escuto é um laço humano. Difícil.

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