Os homens da minha família

Ainda na série “Homens da minha família”, onde tenho escrito sobre meu pai, o vô Leo e o Simon Dranger, falta falar sobre um tio de minha avó Carlota, que é daquele ramo antigo aqui no Brasil. O contexto:

Os tataravós Lea e Carlos Pretzel chegaram ao Brasil em 1889, da Polônia, e mais não sei. Vi uma bonita foto do casal na casa da tia Adélia, mas não chegou a mim quando ela faleceu; o Carlos Pretzel lembra bastante meu irmão. A boca é idêntica.

Minha bisavó Rosa é filha desse casal e em algum lugar na internet há uma árvore genealógica com todos os seus irmãos. Sei que um era agiota e por isso foi excluído das relações. Acho que isso fala bastante sobre as relações de estigma em grupos minoritários: aquele sujeito que incorpora os estigmas atribuídos ao grupo é bem mal visto.

Mas havia outro tio, e desse não sei o nome e muito menos a profissão, pois não a tinha. Não trabalhava pois, segundo ele, “não compensa”. E como vivia então?, me perguntou um visitante estrangeiro a quem decidi falar do tio-bisavô. A pergunta me surpreendeu, pois eu não acho tão absurdo assim uma pessoa não trabalhar. Fazer uma greve por tempo indeterminado.

Parece que vivia na casa dos cunhados; um tempo na casa de um e um tempo na casa de outro. Diziam-lhe: mas trabalhe ao menos para comprar sapatos novos! E ele olhava os sapatos e retrucava: “Os sapatos estão bons assim, não é preciso.” E ia vivendo.

Era uma época de ouro para a cidade de S. Paulo. O dinheiro chegava, as modas, as tecnologias, os imigrantes, tudo mudava a cada instante. E meu tio-bisavô? Como socióloga, digo que resistia a esse impulso capitalista, talvez na companhia de outros como ele ou talvez solitário numa “Paulicéia Desvairada”.

Gostava de futebol. Mas depois que o esporte começou a se profissionalizar deixou de ir aos jogos, pois “não me daria prazer algum ir ver pessoas trabalhando”. E coloco as aspas pois foi assim que minha avó me contou, sorrindo como se o visse, e com uma fonte dessas não é necessário conferir.

É só isso que sei desse homem, uma antítese ambulante da São Paulo industriosa que conhecemos. Em algum lugar desta cidade está enterrado, provavelmente na Vila Mariana, ao lado de judeus que orgulhosamente contruíram nossa metrópole com muito suor. Mas é meu antepassado, e em meus dias de aparente indolência eu apenas o homenageio.

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2 respostas em “Os homens da minha família

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