Pedras suspensas

E então no Butantã, antes de ouvir as piadas que meu pai faria sobre os grandes intelectuais nacionais, resolvi agradecer o vô Leo pelo belo apartamento que me deixou de presente. São 120 metros quadrados, incluindo uma sala ampla, que depois da reforma ficou como novo. Não tão ensolarado como a Paulistânia, mas é um belo apartamento, e mostrar gratidão não custa nada.

Pus uma pedra no seu túmulo, e outra no de minha avó, que nos faz tanta falta, com suas críticas que nos faziam parecer doces e meigas. “A Adélia é burra. Que Deus me perdoe, como é burra”, ela dizia sobre a irmã que estudou filosofia na USP.

E o leitor que já teve a oportunidade de ir a uma cerimônia fúnebre no Butantã já deve ter se perguntado por que os judeus paulistanos gostam tanto daquelas pedras suspensas no ar marcando o lugar onde se encontram seus entes queridos. Pois no exterior não existe isso. As pedras podem ser de pé ou deitadas, mas não suspensas no ar.

Pois eu sei a resposta. É, eu sei. A história inteira não vou contar, pois apenas entreouvi por acaso num enterro na Vila Mariana, muitos anos atrás. Que os historiadores da comunidade se debrucem sobre isso, os Roneys ou outros. Não vou dar assim de bandeja. Mas eu sei.

Ouvi assim de um senhor: “Minha tia morreu muito jovem e aí resolvi desenhar a pedra. Que burrice! E fiz isso aí. E agora olha em volta: todo mundo copiou. Ai.” Aí ele balançou a cabeça, inconformado. Saudades da tia falecida jovem, da outra que ele enterrava agora, não sei. Talvez saudades de ter feito suas burrices, também muito jovem. Não sei mesmo.

Mas a vida é assim. Às vezes ignoram nossos acertos, copiam nossos erros, e vamos indo. Por exemplo, quando você entra num banheiro público, e vê aquelas paredes que não alcançam o chão, por onde às vezes as mulheres passam o papel higiênico umas às outras, pensa em Frank Lloyd Wright? Não pensa, né?

Não pensa, quando vê o pé do vizinho, puxa vida, o que seria de nós agora se não fosse o grande gênio americano? Pois é, mas foi ele que criou, se não me engano para um prédio em Buffalo derrubado nos anos 1950, o banheiro com parede suspensa, para facilitar a limpeza. Pensa no grande arquiteto quando vai visitar, no outono, a Casa da Cascata, uma poesia em forma de moradia.

Mas o quarto onde você dorme não tem nada de Wright. Já o banheiro do seu escritório tem. E a vida é assim. De concreto sobram só as fantasias.

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