Um aviso luminoso

Voltando para casa ontem, pela marginal, um aviso luminoso dizia: “Atenção motorista: manifestação na região da Paulista. Evite a região.” Algo assim. Quis fotografar, símbolo de que tudo nessa cidade apressada se reduz a um problema de trânsito. Mas os carros andaram e andei eu também.

Não fazia idéia de que o caos tinha sido tão grande. Eu e a Renata decidimos ir às compras, depois do almoço, lá no centro. Vamos à pé, ela disse. E como trazemos os pratos de volta, eu perguntei? Mas no fundo eu queria o carro. O conforto, a conversa.

Singramos a 9 de julho sem problemas. O tanto para falarmos dos problemas do trabalho, de quanto eles se relacionam com quem somos. Aos 45, falamos sem angústia. Quando um assunto começa a ser muito pesado, uma pessoa muito incômoda, dizemos:

Pára. Isso é uma L. Essa L. é uma conhecida que me ligava contando que a gata tinha recebido um diagnóstico de câncer e que havia vomitado a noite inteira. E eu ia desabafar com a Renata, e um dia ela disse: “Você só tem mais 2 minutos de L.”

E assim descobrimos juntas que há pessoas que nos transtornam tanto que atrapalham as outras amizades. Pela Renata, cortei relações com a L. E mentalmente corto relações que “nem a Renata vai conseguir ouvir essa”. Saber que ela não vai aguentar me lembra que há coisas que eu não preciso aguentar.

Não conseguimos achar o que queríamos. Eu queria um conjunto completo de faqueiro, que tivesse talheres de sobremesa. É meu desejo, nunca tive. E não posso por quê? Mas estavam faltando os garfinhos. Então vou ficar sem, nessa existência, não há problema. Vou usar o faqueiro pequeno que meu irmão me deu no doutorado.

Mas quando já íamos comprar, eu perguntei: tem certeza que vai me dar isso? Claro, eu nunca te dei um grande presente. Mas e eu, te dei o quê? Ah, agora não me lembro… A escultura do seu pai! Mas eu não paguei nada por isso, e vivo filando bóia na sua casa.

Então ficou assim, nós duas sem nos lembrarmos exatamente que grande presente uma deu à outra, nesses 33 anos de amizade. Na volta, pela mesma 9 de julho, passando pela casa do Vitão, que na nossa memória ainda ouve Santana na vitrola de último modelo, revisitamos os problemas todos, falamos do sucesso e do fracasso, rimos, quase brigamos.

Estamos nessa fase: quase brigamos, aí a mente já está 4 passos à frente da conversa e antes que a briga se consolide já a terminamos. É o tempo, é a vida. Nos chateamos pelos garfinhos, mas tudo bem. Os presentes.

Eu ri muito, não sei bem o que tenho, talvez a greve tenha me dado a sensação de férias, não sei. Talvez a mudança, que da primeira vez me deu “insonía”. Olhamos para a 9 de julho subindo e pensamos nos nossos clones, e em nós agora descendo. Contentes.

E o dia foi isso, atravessando uma cidade em caos, mas dentro do carro pondo ordem em nossas vidas, que fluem sem problemas.

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