Martinico Prado

Martinico era filho de Martinho Prado, ambos parte daquela família que deu rumo a São Paulo num certo momento da História. A rua Martinho Prado fica no centro, deve ter sido em algum momento uma rua bonita mas agora é apenas uma passagem de um viaduto a um túnel. E Martinico Prado fica indecisa entre o nobre Higienópolis e uma tal Vila Buarque. “A Martinico”, na minha casa, queria dizer o apartamento onde eu e meu irmão nascemos e moramos até 1975, quando nos mudamos para “a Paulistânia”.

Na Martinico, onde volto a morar em breve, era que os duendes apareciam à noite, depois que o tempo passava a andar devagar, no quarto grande, atrás dos brinquedos. Me passou pela cabeça a idéia estranha que eles podem voltar a aparecer agora, na hora de dormir. Na sala da Martinico eu largava minha lancheira chegando da escola e ia correndo pegar meus bichos de pelúcia, colocá-los em meia lua na mesinha de centro e ficar lá os olhando, a tarde toda, imaginando histórias.

Mas hoje meus medos são outros e ao invés da pelúcia o computador.

Na Martinico dei o maior susto que meu irmão já levou. Eu tinha o hábito de ir até o banheiro, depois deixar a roupa no quarto e voltar para tomar banho. Mas um dia abri a porta do quarto e lá estava meu irmão de tocaia, esperando eu sair do banheiro para me dar aquele susto. Percebi a importância do momento. Quando eu disse “bu!” vinda do lado oposto ao que ele imaginava, ele saltou os três metros do pé direito do imóvel. Quem é caçula sabe o triunfo que é superar um irmão. Triunfo repetido a cada vez em que conto a história e vejo que ele também não a esqueceu…

A Martinico foi um presente do meu avô ao meu pai, seu genro. Na hora do divórcio, foi o pára-raios de todos os conflitos. Pois o resto era dos dois, construção conjunta, suor conjunto, não tinha como discutir. “Ele nunca pagou um aluguel na Martinico!”, minha mãe berrava. Como se ela houvesse pagado. “Se a Martinico ficar com a Rosa, a Paulistânia também, eu não fico com nada?”, meu pai perguntava. Na época não me envolvi, mas meu pai tinha razão. Não por esse argumento, mas por meu avô ter colocado o imóvel no nome dele, ou seja, o bem era da família, não era da Rosa. Não sei qual a relação que os dois homens tinham, mas havia o reconhecimento de que meu pai e minha mãe seriam logo um casal.

Na sala aqui da Paulistânia, de pé os dois, eu sentada olhando como se fosse um teatro – meus pais eram um teatro – os dois discutiam até que racionalmente um dia a respeito do apartamento. Minha mãe invocava os argumentos do advogado. “O Tupinambá disse isso, o Tupinambá disse aquilo…” Meu pai a olhava sério, com a sobrancelha franzida e o rosto um pouco inclinado como o de quem presta atenção. Aí do nada solta essa, balançando os braços e a cabeça:

– Ah, Rosa, mas “Tupinambá”? Onde é que você arrumou um advogado com esse nome?

É difícil brigar de verdade com alguém que se ama. Mas não é impossível. Brigar com alguém que nos faz rir é impossível. E minha mãe riu. Pois onde é que ela tinha de fato arrumado um advogado com esse nome? E como levar a sério um advogado que atende pelo nome de Tupinambá? Um Fritelli a gente leva a sério. Ainda mais um Rabinovitch. Mas Tupinambá? A barriga foi para trás, o rosto para frente, um pouco para o lado se escondendo, ela riu. Depois se endireitou e retomou o argumento, mas não era a mesma coisa. Foi indicação daquele analista, “o Pessanha”, meu pai deve ter pensado.

E assim, depois da risada, eles viveram um feliz divórcio ainda por muitos anos, com amor e respeito, algumas incompreensões que eram parte da vida deles, mas sem peçonha e sem se devorarem. A imagem que guardo dos dois, no entanto, não é deste quadro sereno. Nem propriamente das brigas e berros. Lembro de uma vez que minha mãe perdeu a calma e foi para cima do meu pai, fisicamente. E meu pai tomou-lhe os pulsos apenas desviando o rosto de seus golpes. Eu, novamente, de platéia encantada. Pois mesmo sem palavras via o cavalheirismo necessário para segurar, com delicadeza, os pulsos de uma mulher ensandecida.

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