Desculpe, Yoani!

O que salta aos olhos quando vemos Yoani falar é sua serenidade, sua fala articulada, seus modos doces e seu cabelão largo jogado de um lado só. Eu queria – eu devia ter pego aquele microfone e dito isso: Que privilégio ver Yoani falar com essa serenidade, com esse raciocínio límpido, com sua doçura, que constrasta tanto com a selvageria dos manifestantes dentro e fora do cinema da Livraria Cultura onde ela deu uma entrevista hoje entrecortada por gritos de guerra.

Também se ela não se intimida com um Estado autoritário nos seus pés, vai se intimidar por bobagem? Mas às vezes se notava em seus olhos uma mágoa, pois não deve ser fácil sair de seu país para dar um recado ao mundo e se ver também nesse mundo silenciada. Então para começar o post queria pedir desculpas, pois me senti profundamente envergonhada pelo que vi, e até mesmo pelo que eu deixei de fazer. Nao foi por medo, pois vocês sabem que não tenho medo de microfone, simplesmente fiquei sem ação e aí a palestra foi interrompida: os manifestantes ganharam.

Yoani respondeu perguntas sobre a economia cubana, sobre o embargo, sobre a liberalização a passos tortos, tudo isso ao meio de gritaria. A primeira pergunta, na qual nos deliciávamos quando fomos interrompidos, era sobre a origem do blog: era música a historia que ela contava. O blog começando, sendo traduzido por americanos voluntários, até meio aleatórios, e depois… E depois a gritaria.

A gritaria não era pouca. Antes havia perguntado ao soldado Figueiredo se isso era esperado, espremida na porta de entrada. Ele disse que não. Uma palestra de uma moça, eu disse. Ele fez aquela cara de claro, que ridículo. Perguntei se eles teriam feito diferente se soubessem. Ele disse que sim. Isso para dizer que, em grande parte, o fracasso da palestra foi devido aos gritos dos manifestantes. Mas acho que não apenas a polícia foi pega desapercebida. Quem botou a Gancia naquele papel? Sem profundidade, sem sagacidade, sem presença no palco, ela foi um presente para os manifestantes. Parecia dar espaço para a gritaria, que – acredito acima de tudo no que chamo de desejo comunicativo, desejo de ouvir e falar – quando Yoani falava, acalmava.

Como se no fundo todos, mesmo os manifestantes, quisessem ouvir. Pois ouvir Yoani era bom.

Vocês tem medo de ouvir!, gritaram as pessoas na platéia, para os manifestantes. Vocês não sabem o que foi a ditadura, disse um senhor de cabelos brancos. No Estadão foi bem melhor, me disse a moça do lado.

Parece, nesse texto anódino no blog, que foi algo bonito, que houve algum debate, ainda que caótico. Mas te digo: fiquei com medo. Pois a democracia é algo frágil, é algo que precisa ser cuidado, protegido, reinvigorado. A Yoani estar lá foi uma vitória dela, dos jornais que a apoiaram, dos leitores, editores, de todos nós! Mas o teor destrutivo das manifestações contrárias nos dão um gosto ruim na boca, pois havia algo errado naquela interação. Não era um carnaval de perspectivas, era um embate entre duas ideologias muito claras. Uma que quer ouvir, e outra que não quer ouvir. Ponto.

Me preocupou o despreparo. Não será um sinal de um despreparo maior? A Gancia com aquele banal pô gentê, vamos lá. Quando se viu o teor da manifestação não poderiam ter escalado alguém mais preparado? Ou o caos era bom pra dar notícia? A polícia não poderia ter um plano B, tentando manter a fila e a manifestação fora do Conjunto Nacional? A Livraria Cultura não poderia – novamente, foi tudo muito inesperado, eu não teria feito nada melhor – criado um esquema mais inteligente para o evento? Não estou culpando ninguém, estou me perguntando o quanto temos que nos preparar para defender o direito de ouvir, de falar, seja em lugares públicos, no legislativo, na internet, onde for.

A gente constrói a democracia em cada um desses lugares, e essa palestra falida dá o sinal: é possível silenciar uma moça doce na base do berro. Como vamos reverter o sinal?

Não sei quem jogou a toalha e terminou a palestra, convidando para a assinatura de autógrafos. Me senti mal por não ter dito o que queria, um gesto de carinho ao menos. A turba toda foi em direção ao palco.

Na saída, o vereador Pesaro e o Zé chateados com o ocorrido. Saí com eles. O vereador se volta para trás e diz: até para nós será difícil sair. Eu: Não é por nada, mas você não deveria ficar? Pode haver confusão, eu argumentei. O vereador foi loquaz: deu as costas e saiu em disparada. Os olhos claros são bons para o foto no santinho, mas não servem para falar em público, liderar, vencer pela palavra, cativar, agregar, acalmar, entusiasmar, enfim, fazer política? Claro que a Yoani era sem dúvida a mais corajosa entre nós, mas nem um pingo de vontade de ficar, de “fazer a diferença”?

Espero que esse não tenha sido um evento emblemático, que tenha nos revelado a todos nós: forças de segurança, imprensa, público, indivíduos e representantes. Apenas uma palestra de uma moça cubana, interrompida por uns meninos que ainda vão crescer. Mais uma vez, desculpe, Yoani. Fiquei sem ação também eu.

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3 respostas em “Desculpe, Yoani!

  1. No Facebook rolou uma discussão interessante, posto aqui:

    Rafaela Barkay Obrigada, Heloisa! Sensível e doce. Tenho ouvido de tudo um pouco, blogueira falsa, inventada, serena, sutil. Meninos revoltados, esquerda que não se dá conta do seu papel, imberbe ainda. Vai que a chave de tudo é a barba mesmo. Nos deram essa mega exposiçāo e nāo sabemos ainda o que fazer com ela. Ficamos entre o silêncio e o berro.
    20 minutes ago via mobile · Like

    Heloisa Pait Ah, no meu post eu nem tinha pensado em machismo. Notei o gênero dela, o quanto ela é feminina. Mas não tinha pensando o quanto isso pode ofender as pessoas (além da coisa maior da liberdade de expressão, que é o cerne da coisa). Pois é um mulher muito feminina mesmo, muito doce. Nossa, você pegou na coisa. Isso realmente deve irritar os brucutus. Aquela coragem toda sem levantar a voz, sme perder o raciocínio, sem cortar os cabelos! De dar ódio mesmo. Vou colocar isso no meu blog, tudo bem? Teu comentario tb?

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