Conheci um poeta

Minhas andanças por Nova York não pareciam dar em nada. Valiam só pelas andanças, por conversas que ouvia de estranhos e me lembravam das entranhas daquela cidade. Mas as coisas turísticas, o passeio no Soho ou a exposição sobre arte em 1993 não diziam nada. Então voltei meio correndo para casa, onde o Mick havia me prometido um encontro com um poeta. A poet, he said. I met a poet.

Então vamos lá, um poeta. Cheguei e já estavam todos se apresentando. O poeta perguntou quem eu era e já notei algo assim diferente. Como se ele realmente quisesse saber. Quem é você? E durante algumas horas conversamos todos, nos apresentando, dando opiniões, falando de nossas carreiras. Ele elogiou a comida que a mulher fazia, e vi nesse elogio algo muito antigo, um cavalheirismo de outra era. Ele era, de fato, de outra era. Tinha nascido em 1928, era da geração de meu pai. Mas seu cavalheirismo era ainda mais antigo. Fiquei achando que ele era daqueles homens que vivem num tempo maior que o deles mesmos. Gente grande, expandida pelo caráter ou pelas experiências.

Ele tinha sua fama, então havia entre nós um certo desejo de impressioná-lo. Havia trabalhado com Marshall McLuhan, feito projetos mediáticos para museus no mundo todo. Mas falava de um jeito manso, e do nada perguntava coisas. E essa escultura, o que é?

Incluí na conversa a menção a um conto que escrevi, mas é mentira que apenas quisesse me exibir. Queria me mostrar àquele homem, o que é um pouco diferente. Queria que ele me conhecesse. E, como o desejo fosse sincero, a menção saiu despretenciosa, e no mais ouvi a conversa sem ânsia de preencher todos os silêncios.

Na verdade, era difícil ver seu rosto, com o skyline de Nova York atrás de si. Via só sua silhueta, e era claro que o homem não era parecido com meu pai. Nem o olhar, nem os gestos, nem a serenidade. Só aquela curiosidade de criança, de menino, sobre tudo e todos. Isso sim, era do meu pai.

O homem tinha uma barba longa, e não se podia saber se era de hippie, de rabino ou de quê. No momento, fazia uma coleção de poemas de todas as festas judaicas. Para Yom Kippur já tinha centenas, mas para Simchat Torah ainda falta um bom leque de escolhas.

Esteve em São Paulo nos anos 40, no país a bordo de um navio. E não gostou, assim como não gostou da cidade nos anos 60. Falou assim, objetivamente, e compreendi perfeitamente o que quis dizer. Não feriu meu patriotismo, apenas disse: não gostei.

“Eu nasci lá, e gosto”, eu disse. “Claro”, ele respondeu, como se dissesse: na vida que eu tive não gostei de São Paulo. Se tivesse vivido outra, gostaria com certeza.

Aí conversamos sobre os meios de comunicação, e sobre as relações que muitas vezes são “one-way” apenas. Ele disse que as relações devem ser “two-way”, e que se não há reciprocidade não há por que mantê-las. Eu disse que não pensava mais assim. Que tem gente para quem só eu ligo, e tem gente que só liga para mim, e a vida é assim mesmo.

Ele olhou para mim, com aquele olhar fixo que talvez não seja nem de hippie nem de rabino, apenas de um sábio que viveu muito, e concordou. Afinal, por que as relações devem ser recíprocas? E vi que ele ouvia as pessoas, e ouvia as mulheres, e isso é algo que eu julgo importante.

Era como se ele tivesse pulado o século XX, quando as mulheres abriram espaço às cotoveladas entre os homens. Ele era de antes, quando as mulheres recebiam elogios, e de depois, quando serão ouvidas sem reparos. O poeta era de um tempo no qual ele mesmo não havia vivido.

Aí contou que foi dar uma palestra na Alemanha, e perguntou o que tinha sido o prédio onde estava. E disseram que tinha sido uma fábrica de torpedos. E ele sabia que o navio no qual ele tinha saído da Alemanha, garoto, tinha sido numa viagem posterior afundado por um daqueles torpedos. E nessa história de vida e destruição se juntavam, como numa fita de Moebius, duas narrativas. A história de fuga e a história do profeta. A história do menino perseguido e a do intelectual cujas idéias se lançam por todos os lados. O torpedo que não fere, apenas nos marca.

E então nos gostamos. A ponto de a esposa dele ficar meio ouriçada. O que não era de todo injustificado, pois o poeta ia casando com mulheres sempre da mesma idade. Mas não se aplicava a essa situação, pois era um amor paternal. Claro que no fundo, no fundo, ele não era meu pai. Estava claro que não. Eram duas pessoas distintas, eu sei. Mas meu pai poderia ter viajado o mundo num navio. E o poeta poderia ter crescido em São Paulo. Dentro de si talvez ele tenha crescido em São Paulo, e por isso o modo tão familiar de desgostar da cidade. Assim como dentro de si meu pai tinha inventado maluquices pelo mundo afora.

Então descemos todos pela rua molhada e ele do nada me beijou a bochecha, enquanto todos falavam coisas. E vão dizer que não era meu pai? Ah, vá! Quem é que ia me beijar a bochecha daquele jeito?!? Depois segurou meus ombros, e disse, finalmente: “You take care!” E eu não pude responder, pois tinha um nó na garganta, por ter conhecido um poeta.

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