Rosa Goehler Pait (1939-1992)

Vocês vão ficar surpresos, mas faz 20 anos que minha mãe faleceu.

O presidente era Fernando Collor de Mello. Mário Covas se preparava para sua primeira eleição ao governo de São Paulo. Eu tinha acabado de entrar na pós. 15% dos paulistas ainda não tinham nascido.

Tenho pensado muito nela nas últimas semanas, e quis escrever esse texto com algumas memórias e reflexões. Sei que muitos têm saudades dela, então fica aqui um lugar para expressarmos esse sentimento. Querendo, escreva algo nos comentários, vou gostar muito. Ou apenas leia o texto. Ou simplesmente lembre.

Minha mãe era mais que apenas mãe e dona de casa. Sei que ela teve impacto na vida de muitas pessoas, e mesmo depois de tanto tempo esses seus vários papéis ainda vão me chegando. Outro dia, por exemplo, encontrei um amigo de meu pai, que me contou como meu pai ficou encantado quando conheceu a Rosa, com a beleza dela. Muito depois, meu pai me disse, talvez com um entusiasmo semelhante: “Viu como a Rosa está bonita, com os cabelos ficando brancos?” E mexeu os braços no ar, como se desenhasse numa escultura.

Minha mãe era parte daquela geração de mulheres um pouco alopradas, que fizeram (ou sofreram?) a revolução feminina. Falando palavrão, fumando e bebendo, ganhando seu próprio dinheiro, dirigindo, vestindo calça e deixando os vidros de esmalte secando na gaveta, foram fazendo um país diferente do que o encontraram. Ela era parte de um grupo grande mas para nós era também única, pois fazer tudo isso não era para todas, entende? Em cada pequeno grupo havia uma Rosa, e no nosso era ela.

Olhando à distância me pergunto como meu pai agüentou.

Era muita energia, muito concentrada. Às vezes a coisa explodia e ela entrava gritando em casa, ou chutava a porta do elevador na saída. Mestrado, trabalho, casa, mãe, o Henrique que também não era fácil, filhos, médicos, era muita coisa e por isso às vezes a coisa explodia. Na escola não dávamos trabalho, então não me sinto exatamente um fardo. Mas era muita coisa.

O que eu realmente invejo na Rosa é a simpatia. Puxei o olhar atento da tia Polinha, o humor do meu pai, a crítica da vó Carlota, queria ter um tico da simpatia da minha mãe. São momentos raros em que sinto que estou “simpática como a minha mãe”. Não era aquela simpatia Sandra Annenberg, aquela compaixão de plástico, Madre Teresa posando para a Playboy, tão comum na cultura brasileira. Tinha elementos disso, mas era diferente.

O que era aquela simpatia? Não sei. Uma vontade de agradar, de ser querida: “Me respondam: vocês preferiam ser filhos da Lilian?” “Você gosta de mim?” Era uma alegria de estar ali, uma alegria sem poréns, gostar do mundo e das pessoas como eram? Não sei. Me lembro muito dela com o olhar um pouco bêbado, na casa do tio Jaime e da tia Maria Luiza, aquela overdose de carinho que tinham por ela lá, Tota, Totinha, o copo de whiskey na mão, uma expressão absolutamente relaxada, como se não precisasse ser ou fazer nada além de estar lá na casa do tio Jaime.

Claro que ela enfrentava problemas, que tinha gente no trabalho querendo ferrar com ela, que ela encontrava anti-semitismo e fila no banco, enfim, que o seu mundo apresentava desafios como os nossos. Nesse sentido ela não tinha a falsa “simpatia da mulher brasileira”, não era uma santa imaculada. Tinha suas lutas. E daí os gritos. Mas tinha uma força – não sei que nome dar – que parece que as coisas não “pegavam” nela. Não sei, não ficava cozinhando os problemas. Chutava a porta e soltava um palavrão e entornava um copo e exorcizava tudo.

E podia aí ser simpática sem ser falsa nem sonsa. É que os problemas tinham mesmo ido para outro planeta. Conosco em casa ela era muito divertida e muito generosa mas também muito exigente, caramba, como era. Havia uma expectativa de uma correção moral um pouco exagerada. E não era correção nas aparências, de trepar ou não trepar, era no duro, ali, no que importa. Impossível.

Nisso acho que ela era bem política. As exigências eram para nós. Para os outros havia uma certa condescendência, uma compreensão que a permitia navegar sem problemas num mundo imperfeito. Não era puxa-saco, falava na cara, mas não a todo tempo. Acho que o mundo como um todo não lhe perturbava; só alguns detalhes. Eu já concordo com meu pai: o mundo devia ser diferente.

Uma cena me veio à cabeça: ela veio me pegar um dia na escola e o tio Reinaldo pediu carona. Ela deu, foi super legal, bacana ver a mãe e o professor de matemática conversando, aí em casa ela ria: “Xi, será que ele percebeu que eu estava de pijama por baixo?” Ela tinha ficado a manhã em casa e só botou uma roupa por cima para me pegar. E se divertiu com aquilo dias. “E aquele dia que eu dei carona de pijama para o Reinaldo?” Se divertia.

Sei lá, não tem muito final essa história. São memórias. Eu tenho as minhas, você as suas. Eu me lembro da carona do tio Reinaldo. Me lembro das tias da minha mãe, a Leonor, a Adélia, a Maria Luiza. Como ela fazia para ser querida por pessoas tão diferentes? Tota, Rosa, Rosinha, mãe, benhê, Mestra, ela era também várias. Assim que foi.

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17 respostas em “Rosa Goehler Pait (1939-1992)

  1. Rosa,Rosinha como a chamavamos,sempre foi alguem muito especial,nos influenciou muito,uma epoca vinha a Santos toda semana.eu era menino,ficavamos ansiosos esperando sua chegada,Muitas saudades!

  2. Rosinha, era assim que a chamavamos, as terças descia a Santos para fazer um curso, estudavamos a tarde , no primario do Montserrat ,vinha nos buscar ,acompanhando nos ate em casa .Era começo dos anos 60 .Sempre uma festa.Rosa sempre lembrada com muita saudades!

  3. Rosa, Rosinha para mim, assim como para muitos de nós que com ela convivemos durante tanto tempo (desde a infância !) , permanece viva em nossa memória: aquela simpatia desde sempre, o sorriso largo, a mente brilhante e um jeito todo especial de ser. Revolucionária? Talvez! Única? Sem dúvida!

  4. Levo varias lembranças da tua grande mae,(quando viajò aqui antes do casamento,quando,nos meus dois anos paulistanos 65/67 tentou muito carinhosamente de me ajudar em matematica,mas invao,por minha culpa,pois ela era super talentuosa).
    Era uma pessoa linda pra dentro e pra fora,com uma forte personalidade(mas gentil) e muito inteligente e simpatica.Impossivel nao gostar da Rosinha.
    A minha mae atè o fin me falava d’ela.
    Um forte abraço.
    Moni.

  5. Oi Helo,
    Conheci pouco a sua mãe. Mas meu pai e minhas tias sempre falavam dela. quando 20 anos depois, seus filhos escrevem assim como voc~e escreveu dela, quer dizer que valeu a pena!!!!
    Um beijo, com carinho,
    Andrea Sapolnik Calina

  6. Oi, Lô!

    Lembro da tua mãe te chamando assim… Tenho muitas saudades dela… Como foram bons os tempos em que trabalhamos juntas no Mackenzie… já faz 20 anos? ela deixou uma presença e lembranças que até hoje não se apagaram…
    E ela também foi minha madrinha de casamento, não sei se você lembra.
    Muito bonita a sua crônica… curti…
    Um beijo para você e pro Felipe
    Cintia

  7. Prezada Heloísa, a primeira vez que vi a sua querida mãe foi na praia Grande, em Ubatuba. Meu pai, o Enildo Batista Barros, que já era Arquiteto Mackenzista havia decidido fazer o curso de Engenharia Civil também no Mackenzie, onde veio conhecer a Profa Rosa. Naquele dia ensolarado ambos beberam um pouco mais da conta. Sua mãe saiu cambaleando e a minha mãe foi quem dirigiu de volta para a nossa casa, a pedido do meu pai! Todos nós estávamos muito alegres. Um ano depois lá estava eu no mesmo curso de Engenharia Civil aluno da mesma Profa Rosa. Alegre e divertida vi, mais tarde quando eu já era professor, ela se transformar em diretora da então Faculdade de Ciências Exatas do Mackenzie. Ausentei-me um par de anos e quando retornei descobri que a Rosa não estava mais entre nós. De certa forma o destino me poupou de vê-la enferma no hospital e com isso as minhas memórias são as melhores e mais alegres possíveis. Lembro-me da amiga de meu pai, da minha professora e da minha diretora. Papeis que sua mãe sempre deixou presente o seu sorriso temperado com um humor quase picante. Hoje meu pai também não está mais entre nós, assim como outros ilustres amigos e professores que conheci na mesma universidade que trabalho há mais de vinte anos. As vezes acho que todos eles estão passeando por lá, entre os corredores, entrando e saindo das salas de aulas inspirando cada um de nós. Um grande abraço a você, seu irmão e suas lindas sobrinhas, pois sei que um pouco da Rosa vive em cada um de vocês.

  8. ..memórias nada vagas que tenho da Rosa, muito pelo contrário, tão vivas quanto ela. Posso dizer que foi minha mestra também, mas não no Makenzie, na vida mesmo! Lembro da gente voltando das competições de natação, dentro de um fusqueta, se não me engano verde, numa subida bem ingrime e a gente trocando impressões, palavrões… As vezes ela desembestava a falar mas também não deixava de nos perguntar tudo que tinha direito, como foi? o quê aconteceu? Sempre contávamos alguma história engraçada, afinal ela era uma mulher que gostava de Rir! Alias, ela adorava escutar eu dizer Maravilhosta ou Bóstimo (junção de uma palavra com um palavrão)! Nesses momentos o que eu mais gostava era de ver e ouvir ela rindo e falando ao mesmo tempo, não sei se dá para entender, as palavras saiam em soquinhos e ao mesmo tempo silábicamente porque tinha uma risada bem gostosa saindo como pano de fundo, entende? Até hoje quando escuto alguém falando rindo, não posso deixar de lembrar da Rosa. E por falar em gostosa, a Lô e o Fi que não me interpretem mal, mas quando eu via a Rosa tomando sou num jardim que tinha num dos cantos das piscinas, com aquelas pernas compridas, sem pêlos e bronzeadas me chamavam a atenção, pensava eu com os meus botões:
    – Deve ser ótimo ter pernas tão belas assim, a vida deve sorrir um pouco mais pra você. Quando eu crescer, se deus me ajudar terei um par de pernas parecidas com a da mãe da Lô. Mulher moderna, ágil, e apesar de vê~la sempre fazendo alguma coisa, me parecia que fazia tudo com os pés nas costas, sem muita dificuldade, o mundo parecia ser leve para ela. Quem sabe o mundo seja leve mesmo, mas tem gente que tem que viver uma vida longa pra entender um décimo da forma que ela via o mundo. E cá estamos nós.
    Bjs Lô! Te amo!
    Rê – Ovinho

  9. Bom, quando escrevi o texto acima foi apenas para marcar uma data, compartilhar minhas memórias. Mas o que vocês têm escrito, no blog e para mim, me comoveu profundamente, outras memórias voltaram, e com isso a lembrança do enorme buraco deixado em nossas vidas. Enfim. Valeu, mas como diria minha mãe, foi porrada.
    Li tudo, as mensagens estão na minha cabeça, de gente que vejo toda semana na hebraica, de gente que conheceu minha mãe desde a rua honduras ou do mackenzie, de gente que não a conheceu e de primos dela muito queridos. Por enquanto não vou poder responder uma a uma, tudo bem, né? Mas quero mandar um abraço muito forte a todos, agradecer as mensagens e dizer que quero vê-los a todos, não só lamentando as perdas, que são parte da vida, mas também com alegria, dando risada e falando uns palavrões.

  10. Querida Heloisa

    Parabéns pela linda homenagem à tua mãe. Que linda filha tu és.

    Esquece de tua mãe jamais!!!
    Seu sorriso contagiante nos envolvia.
    Sua inteligência junto com sua humildade a tornaram uma pessoa impar.
    Ela me chamava de Carlucha.
    Parece que a estou vendo agora, e, juro me deu “arrepios” e uma saudade enorme!!!
    Ela está bem….lá em outra dimensão.

    Me escreva ( carlascampos@hotmail.com ) ou me ligue ( 8124-2842) quando puder. Vamos sair e lembrar de coisas boas.

    Com carinho, Carla Silva Campos (profa. do Mack)

  11. Minha querida HelÔ:

    Puxa vida!!!! Vão fazer 20 anos que Dona Rosa nos deixou!!! O tempo passa tão rápido!

    Ela era uma pessoa tão especial!

    O que eu mais lembro de Dona Rosa é o jeito descontraído como ela nos recebia – seus amigos, seus colegas da universidade. Ela a era a mãe mais “pra frentex” da turma! Tinha lá em sua casa um clima permanente de seminário, que os temas eram sempre “cabeça’, tipo sociologia e cultura, mas era tão lúdico, divertido, eu me sentia muito valorizado, mesmo quando falando do que não sabia direito.

    Professora universitária, inteligente, atenta, ela sabia comunicar nas conversas uma atenção divertida, nunca inquisidora, eu me sentia muito relaxado. Além disso, era tão bom quando tinha as festas judaicas, a gente faturava cada rango na tua casa!!!

    Mas tem uma coisa que sempre me lembro – e me divirto: no agito da visita inesperada e da conversa rápida, Dona Rosa mais de uma vez serviu cerveja on the rocks prá galera. Só mesmo ela prá poder cometer com tamanha propriedade esta pequena impropriedade!

    Saudadedodades de Dona Rosa Goehler Pait.

    Um beijo grande,

    Felipe.

  12. helô querida …quanta emoção nesses escritos sobre a minha querida vizinha e amiga …principalmente o seu texto sobre ela …eu tenho saudades dela tb …da inteligente forma de levar sua pp vida e história !um exemplo de maturidade e honestidade …nenhuma vaidade …mas alegria interior ,apesar dos problemas …eu amei te-la perto de mim …e perdi não uma vizinha ,mas quase irmã ,já que a irmã ,morreu muito cedo ,a minha de verdade ! e a tua mãe tb foi-se de mim muito cedo …foi muito bom encontrar tudo isso de novo …através de vc e seu texto …rosa goldman 023\2015

    • Olá Rosinha! Eu te vi no Face e não tinha ligado o nome à pessoa! Que legal que vc gostou do texto. Eu ando agora meio de mal com minha mãe, pode? Acho que o texto fica vivo por que na minha cabeça essas pessoas todas estão muito vivas mesmo!

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