Leituras de viagem

Então vamos lá, o que li nesses dias em Ubatuba. Em primeiro lugar, não levei o iPhone, o que me deu um trabalhão. Pois meu telefone fixo precisava de conserto, e fiz a besteira de comprar um chip Tim para o celular Nokia. Então teve um dia que o fixo recebia mas não fazia chamadas, e o celular fazia mas não recebia. Tudo para não twittar, o que valeu a pena, pois a gente pensa de modo mais profundo mesmo sem a internet.

Li um livro com trechos de documentos históricos da vida brasileira, editado pelo Caldeira. A seleção é maravilhosa, mas não dá pra confiar sempre nos parágrafos explicativos; sobre o Léry, por exemplo, o livro o associa ao genocídio indígena e, dito de modo simples, não tem nada a ver. O “Viagem à Terra do Brasil” eu li inteiro, é maravilhoso, e o cara se espanta um pouquinho com os modos brasileiros de comer uns aos outros mas fora isso é mais crítico aos selvagens europeus que aos daqui.

Léry era protestante, então talvez daí a pinimba dos editores. Tem momentos do livro maravilhosos, onde ele fica na dúvida, dentro de um barco, prestes a embarcar num navio, entre enfrentar o Villegagnon no Rio de Janeiro ou a Contra-Reforma na Europa. Com os tupinambás ele já havia se entendido, então eles nem entram na equação. Ele opta para voltar à Europa, e quase morre. No Brasil ele teria sido assassinado pelo Villegagnon… Escolhas difíceis.

De qualquer modo, o livro do Caldeira serve para a gente ir atrás dos textos completos, para formarmos a nossa opinião pois, como disse, as interpretações são às vezes bem esquisitas. Agora, sobre esses europeus: que coisa incrível a chegada deles à América, o contato com as populações locais. A gente aprende na escola mecanicamente, mas pensar nesse encontro, por um lado ou outro, é fascinante. Dá vontade de saber mais como o nosso Brasil de hoje se relaciona com esse encontro fantástico.

Questões banais: em outras línguas a gente também fala que “eles vão se comer”, se referindo a brigas? E também se fala em comer para se referir ao sexo? Ou é coisa dos europeus, tentando dar novos significados aos modos locais? Não sei se já disse no blog, mas na região de Marília o contato com os índios é muitíssimo recente, dos anos 20! Do século XX! Contato violento, sem muitas trocas.

Além disso, li um livro de contos de Llosa, que não consegui terminar. Não gostei do universo dele. Ficava comparando com o Meninos da Rua Paulo, que li recentemente, e que gostei tanto que vou botar na bibliografia do meu próximo curso. Dava vontade de ser um dos meninos da Rua Paulo. Dos jovens descritos por Llosa dá vontade de atravessar a rua e se esconder até eles passarem. Engraçado isso. Não sei explicar, não acredito muito em ficção. Talvez eu ache que aquelas pessoas todas existam, então se não gosto delas não gosto do texto. Sou um pouco literal, talvez.

Sem querer fazer análise de gênero, mas fazendo, os contos de Llosa que li eram arqui-machistas. O Meninos da Rua Paulo simplesmente deixa as mulheres para depois. Nos momentos em que Boka especula sobre seu futuro, suas guerras futuras, as mulheres aparecem não explicitamente, mas, digamos, as pessoas em geral, além daquele mundo de meninos, aparecem. Contrastando com isso, qualquer autor brasileiro, o mais machista que você quiser, vai trazer personagens femininas muito bacanas, bem construídas, centrais. Tenho na cabeça o Rubem Braga, mas poderia ser qualquer outro. Não, não tem nada a ver com os índios. É outra conversa. São minhas leituras de férias, só isso. Mas que eles sabem nos comer, eles sabem.

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