A solidão do esporte

Se por acaso nos próximos meses eu aderir ao Candomblé, mudar para o Espéria e começar a lutar tai kon do, não é infecção cerebral nem nada grave. Só um certo esgotamento de minhas identidades e hábitos mais antigos. Hoje fui nadar e ver a natação. E torcendo e aplaudindo as medalhas brasileiras, me lembrei da profunda solidão que eu sentia na época dos treinos intensos de natação, de 82 a 84. Meus anos de Bandeirantes também, 82 a 85. Em 81 eu já nadava, mas era com o Tarcílio, era moleza. 82 com o Nenê, 83 e 84 com o Vitão, o meu técnico, o único com que tive um “bond”. E em 85 mudei para o Pinheiros pois o Vitão ia pra lá, mas acho que nem eu nem ele nos adaptamos.

Eu torcia, mas torcia imitando, olhando os outros torcerem e fazendo igual. No fundo concordando com minha mãe, que perguntava: “mas chegar um segundo mais cedo que diferença faz?” Essa era a cultura esportiva em minha casa. Que diferença faz? Adolescente, não tinha um nome para aquele sentimento, de torcer imitando. Em inglês chamam de “peer pressure”, talvez. E a Hannah Arendt tem esse conceito super legal, “false public”, que é um monte de gente fingindo estar junto, mas cada um miserável em sua solidão, o que eu vi na faculdade lá em Pittsburgh. Só que ninguém me pressionava a nada, nenhum governo totalitário, e realmente se me perguntarem por que eu fazia natação vou ter dificuldade em dizer.

É que eu tinha medo dos livros.

Pronto, disse. Custaria alguns parágrafos, mas me veio essa frase sucinta, que dói mais mas pelo menos passa mais rápido. Eu tinha medo dos livros.

Era uma solidão intelectual. Numa viagem para Joinville, por exemplo, foi aquela tortura, o pessoal jogando fliperama e eu não tinha com quem/o que conversar. Salvando esse momento divertidíssimo: fomos ver um filme no centrão, de putaria. Aí apareceu o Ney Latorraca todo ensanguentado, um close na tela gigantesca. Aí um nadador gritou: “Dá chocomilk para ele!” Caímos na risada, em Joinville só tomavam chocomilk, era a febre, chocomilk e fliperama. Uma coisa dolorosa, um medo de nunca ter minha turma, meu grupo, as pessoas com quem eu pudesse falar. Se eu pudesse falar com aquela adolescente, dizer: olha, relaxa, vai ter o povo da Fea logo ali, na New School vai ser demais, e até no Unibanco e em Pittsburgh você vai ter a tua turma, e no final tudo acaba bem, não se preocupe!

Mas o adolescente é essa pessoa que não escuta, que está solta no mundo.

Eu tinha pai e mãe presentes, irmão amoroso, amigos que estão comigo até hoje, Rê, Andréia, Gé, a Márcia Kupstas, professora do Bandi, adiantava? Uma solidão de amargar.

E o medo dos livros. Clarice só fui ler em 1987, quando a Karla me deu. Antes tinha medo de me perder nos livros e não sair mais. Então a natação era, a gente dizia, uma alternativa às drogas. Mas pra mim era uma alternativa aos livros. Uma espécie de flagelo? O melhor eram as palestras do Vitão, tem essa que sempre conto. Ele nos orientava sobre a travessia do canal de Santos. Eu gosto de travessia até hoje. Não que as termine, mas gosto. Perguntas: o óleo faz mal? Não, o canal está mais limpo. E hepatite, pega? Não, é água salgada. E os navios, podem pegar a gente? Não, o canal está fechado para a travessia. E a derradeira: Vitão, tem perigo de tubarão? O Vitão: Tubarão, com aquela poluição!?! De jeito nenhum. Foi ótimo.

Formamos, agora nessa Macabíada, uma turminha de voluntários muito bacana, que se ajuda, troca informações, gosta de comer junto. Pessoas muito legais. É bom vê-los no clube. Mas entendi a presa fácil que eu era para qualquer tubarão que aparecesse na água, lá na outra Macabíada. Juro, entendi hoje. A isca um verniz de cultura, um passaporte mais carimbado. Não era preciso muito, mas ainda assim a isca era das boas. E eu fui devorada, um Jonas sem Deus para lhe atormentar ou salvar. Só um adolescente, um adolescente só.

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