Um Requiem

Ontem foi um longo dia. Achei que daria tempo de dar uma nadadinha, mas vai ficar para hoje. De manhã, comprar os chips para os sul-africanos. Que time mais bonito! Que gente mais alegre! Depois ver o jogo da Austrália contra o Brasil, no clube Pinheiros – a Austrália perdeu -, descobrir algumas coisinhas: onde é a fisioterapia, quem está fazendo as tabelas dos jogos. Almoçar rapidinho, encontrar o pessoal da Austrália e ver se está tudo OK – está, eles compensam a desorganização do evento. Ficar um pouco pelo clube, ajudando as pessoas a encontrar coisas, parabenizando os jogadores vitoriosos: fica estampado na cara, a vitória. Ter ganho. Como é bom. Criança, jovem, adulto, velho. Ganhar é muito bom. Compensa as perdas, ser melhor simplesmente, em qualquer coisa, hobby ou profissional. Aí dar um tempo, ler o texto de uma amiga para me lembrar que sou professora, não sou voluntária profissional, e ir para o hotel nos prepararmos para a abertura.

Tudo um pouco lento, esperar os ônibus, entrar nos ônibus, descer dos ônibus, e aí a espera maior, no frio decembrino inusitado, nas costas do Credicard Hall. Até o hotel, deixa eu contar. Um esquema de segurança impressionante, com a polícia militar parando o trânsito para os ônibus. Uma escolta mesmo. Sem entrar no mérito da coisa, a necessidade deste aparato todo. Impressiona a importância da coisa, a dimensão da segurança. Tem um rapaz da segurança, um moço alto, bonito, bem articulado em várias línguas, que é o cara mais cool da organização. Quando ele fala todos fazem silêncio, e depois brincam com ele, amigos. Sem entrar no mérito da coisa, mas qual o significado do cara mais cool do pedaço ser da segurança?

Fico me perguntando – ouvi isso de alguém durante o evento – se a segurança não virou algo cool… Mas o sorriso do mexicano vencedor me lembra que os jogos é que contam. Ganhar. Perder. Enfim, esperando no frio, não sei bem por quê, talvez uma hora. Desânimo. Aí uma outra voluntária diz: “Mas a paquera já tá rolando solta.” Aí vi os jovens em círculos, as equipes misturadas, e uma moça da Austrália com o blusão da Argentina. As trocas de uniformes.

E aí eu me vi no grupo, tive a epifania que é na verdade a razão de eu estar colaborando nesse evento. Aí eu me vi na Macabíada de 1983, trocando uniformes, lembrei de nomes. Seth Baron, Robert Katz. Nomes imponentes, americanos gigantescos, esportistas, midwesterns. Caramba, a delegação americana daqueles jogos, onde estarão agora? Me lembrei de seu jeito à vontade, confiante, dos corpos grandes, esses caras são judeus? Eles diziam Gdlk tday e nós demorávamos para entender. Aí resolvemos contra-atacar e dissemos um dia: gdlk tday e eles responderam: “Thank you!” Então aprendi inglês.

Sim, que importavam os tropeços da organização? A paquera tava rolando solta, os uniformes trocados. Nunca conseguir “falar” com meu eu adolescente. Não o entendo, não sei que língua fala. Como se um ser outro tivesse entrado no meu corpo dos tantos aos tantos anos e depois ido embora, sem deixar saudades. Mas no frio dos fundos do Credicard Hall, a escultura do meu pai solta do outro lado, me vi com 15 anos, absolutamente sem rumo, extática. Estava ali. Era eu.

Depois o frio incomodou, os chefes das delegações nos pediram para ver a razão da demora, um argentino desmaiou, esperamos um pouco mais, o evento começou, discursos, ideologias, shows interessantes, música alta. Tarde. Não importa. Ter me visto foi bom. Talvez entender, talvez desculpá-la por alguma coisa, não sei bem. Foi bom. Adeus.

Não acho que seja possível ser exatamente feliz adolescente. Não desejo também a “felicidade” para essa fase que minhas sobrinhas entram agora. Desejo sim que sejam isso, adolescentes, que troquem muitos uniformes, que se percam nas multidões, e que na hora de entrar na faculdade, em que finalmente decidam o “major”, decidam o principal, sintam um certo alívio, uma certa segurança, possam enfim caminhar numa linha reta, numa direção, ainda que provisória, que é a vida.

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